A trilha sonora sempre esteve presente no cinema, mesmo em sua fase muda. Por mais que os personagens não conseguissem esboçar falas além de legendas inseridas entre as cenas, a música estava ali para guiar o telespectador pela magia do filme. No cinema atual, muitos diretores optam por anular a música de sua obra, pois a exploração da ausência musical acontece em momentos em que o silêncio se torna tão significativo quanto qualquer melodia. É o que prepondera em Mutum (2007) da cineasta Sandra Kogut. Ela de certa forma sacrifica a trilha em prol de transmitir o realismo necessário às cenas inspiradas na obra “Campo Geral” de Guimarães Rosa. “A narrativa é conduzida de maneira simples, sem surpresas, com algumas falhas de roteiro, talvez pela dificuldade de se adaptar uma obra literária, mas com uma riqueza antropológica e cultural que dá ao filme um humanismo e uma realidade sem igual. (…) O cinema, como representação do real, como ilustração da realidade, faz com que nos encontremos em suas imagens e nos conduza a reflexões a partir da peculiaridade e universalidade dos temas que propõe. Vale conhecer este sertão.” É o que propõe João Daniel Donadeli da coluna Jornalirismo do site Terra. Jeová Santana de Outro Cine também direciona sua crítica atentando para a delicadeza e sensibilidade do filme, que transmite uma humanidade ruralmente crua. “O ponto culminante da tensão construída com sutileza está na cena em que o sobrinho devolve ao tio o bilhete que deveria ter sido entregue à mãe. O choro com que expõe seu fracasso é um desses momentos sublimes da arte. Sentir-se tocado por ela é saber que ainda temos umas réstias de humanidade correndo nas veias.” Não são todos capazes de se sentirem tocados com toda essa sensibilidade, como é o caso de Marcelo Coelho da Folha. “Optando por não ser tão grosseira na filmagem, a diretora, entretanto terminou sacrificando um bocado, a meu ver, a psicologia do protagonista e mesmo o sentido geral da história que tinha para contar.” Rude ou lírico, simplista ou complexo, sonoro ou silencioso, Mutum merece um olhar atento, buscando encontrar no outro uma humanidade perdida dentro de si.
“Mutum” (2007) da diretora carioca Sandra Kogut nos apresenta a sagarana de Thiago, um menino muito fluifim e ensimesmudo. Vive em seu canto apreciando pequenos detalhes do cotidiano, como o passar das formigas e as rebarbas da madeira. Toda essa suspirância e coraçãomente provocam a constante ira do pai, que repete várias vezes durante o longa que o menino aparenta superioridade com relação à família pobre e sertaneja. Na tentativa de brutalizar Thiago, o pai o obriga a ser enxadachim e até mimbauamanhanaçara. Sandra optou por descreviver a simplicidade das veredas, lançando um olhar documental num filme que poderíamos classificar como rural, raridade no cinema brasileiro atual que opta por apenas mostrar estórias urbanas. Todas as circuntristezas dos personagens são embaladas por uma nonada de trilha sonora, onde imperam apenas sons rasteiros, como a chuva, vento, gemidos, estourar de pipocas. Tudo muito simples e sensível, fazendo com que seja impossível ao espectador se mostrar passivo diante desta singela fábula que revive cinematograficamente todo o espírito de Guimarães Rosa.
Nonada – nada.
Sagarana – a maneira das fábulas, saga.
Estórias – narrativa popular.
Circuntristeza -- tristeza que o circunscreve.
Suspirância -- suspiros repetidos.
Coraçãomente – cordialmente.
Descreviver - fusão de descrever com viver.
Ensimesmudo – fusão de ensimesmado e mudo.
Mimbauamanhanaçara – vaqueiro
Enxadachim - trabalhador do campo que luta pela sobrevivência. Junção de enxada e espadachim.
Fluifim – pequenino e gracioso. Junção de fluir e fino.
Para quem pensa que a edição de uma obra audiovisual envolve um interminável “corta-e-cola” de imagens, deveria voltar melhor os olhos para a editora Thelma Shoonmaker. É ela a responsável pela edição ágil e dinâmica dos filmes de Martin Scorsese, ganhando inclusive 3 Oscars por seu trabalho em “Touro Indomável” (1980), “O Aviador” (2004) e “Os Infiltrados” (2006). Uso a Thelma como exemplo para explicitar a importância da edição em um filme, pois é essa parte essencial na pós–produção que dá a vida ou sentencia a morte de um filme. No caso de “Nossa Vida Não Cabe num Opala” (2008) o filme foi terminantemente conduzido pelo corredor da morte cinematográfico. Li críticas, inclusive na Folha de São Paulo feita por Tino Monetti elogiando a edição de Willem Dias, denominando-a louvável. Me desculpem a humilde opinião dessa blogueira que já participou da edição de curtas, mas a edição de Willen é qualquer coisa menos louvável. Sabe quando você assiste aos filmes na televisão e a emissora corta ‘no nada’ para inserir um comercial? A edição de “Nossa Vida…” passa essa sensação de precariedade, além de se precipitar em colocar músicas erradas em horas impróprias. As interpretações dos atores (isso sim louvável) são assassinadas pelos cortes abruptos e a história acaba passando um vazio com a falta de objetivo e sentido. Juro que saí deprimida da sala de exibição, pois o filme tinha tudo para figurar com 4 ou 5 películas no MovieYou e acabou apenas com 2. Obrigada pela sentença, Willem Dias !
As polêmicas em torno do filme “Nossa Vida Não Cabe num Opala” (2008) começaram a partir do momento em que o dramaturgo Mário Bortolotto, autor da peça “Nossa Vida Não Vale um Chevrolet” na qual o filme se inspirou, se sentiu profundamente constrangido com a adaptação sofrível que o roteirista Di Moretti (“Cabra Cega” – 2004) estava fazendo para a telona. Tudo isso Mário deixou mais que explicitado em seu blog Atire no Dramaturgo. Apesar de o dramaturgo ter participado da concepção do filme, sua opinião não foi a última a ser considerada e cumprida. Não faltaram também pedras para a forma com a qual o diretor Reinaldo Pinheiro (“BMW Vermelho” – 2000) conduziu a trama. Segundo Marcelo Hessel do Omelete
“O filme todo é assim: a cada momento sublime segue um momento precário. A boa premissa da herança de pai e filhos é engessada pela trama maniqueísta do mafioso. Pinheiro não consegue dar unidade ao todo -- unidade em termos de trilha sonora (há várias músicas sem um tema a ligá-las), inclusive. Para cada uma boa troca de falas entre Pereio e Milhem Cortaz saem duas constrangedoras entre Bloch e Maria Manoella: ‘não adianta fugir do seu destino’, ‘você é uma lutadora sem compaixão’, etc.” Fica o espanto de como uma obra teatral que já estava a um passo da adaptação cinematográfica, ter se perdido no meio da estrada. Um dos poucos críticos que demonstrou compaixão com a obra foi Neusa Barbosa, do Cineweb. “Apesar das diferenças entre a peça e o roteiro, o filme mantém-se fiel ao espírito da história original, que tem influências das obras tanto de Nelson Rodrigues quanto de Plínio Marcos.” Então, da próxima vez que resolver adaptar uma peça ou obra literária que tal rasgar a idéia e optar por um roteiro original?
Se na história bíblica Caim tivesse inclinações em unificar sua tribo de maneira xenofóbica e Abel fosse a favor de formar uma comunidade movida pela protocooperação, provavelmente os desentendimentos resultantes no primeiro assassinato da civilização tivessem justificativas mais pautadas. Hoje no mundo os conflitos políticos resultam em guerras infindáveis e verdadeiras “saias-justas” diplomáticas que ONU nenhuma consegue resolver (vide as FARC e o atual conflito na Ossétia do Sul). E o que acontece quando as extremas diferenças ideológicas ocorrem com humanos consangüíneos? É o que se pode conferir em “Meu Irmão é Filho Único” (2008), filme italiano que explora os conflitos existenciais de dois irmãos. O mais velho é comunista que ergue o punho cerrado enquanto a outra mão segura um megafone durante as greves em sua fábrica. O caçula se torna fascista (literalmente) de carteirinha, pronto para jogar sacos de excrementos em esquerdistas (intelectuais, gays, cineastas e escritores) saindo de uma sessão de cinema. Não só no campo político como no sexual os irmãos diferem. O comunista é garanhão e promíscuo e o fascista, respeitando os ideais retrógrados, inicia sua vida amorosa com uma mulher madura. Até que (adivinhe?) eles se apaixonam pela mesma mulher e é nesse ponto óbvio que o roteiro peca. O filme poderia evoluir muito melhor e de maneira mais sincera se esse clichê não fosse executado. Mas tudo bem, pois o pequeno deslize é totalmente sobreposto pela excelência em todos os outros pontos da obra. Fique atento ao importantíssimo momento histórico que o filme aborda, o chamado “Maio de 68”, que já completou 40 anos. Tantos estudantes morrendo, tantos intelectuais protestando, tantos políticos prometendo. Pra quê? Para que continuemos a ter aqui no terceiro mundo cidadão alienados que digitam 5 números numa urna eletrônica sem ao menos saber pra que raios serve um vereador.
“Meu Irmão é Filho Único” tem sido apontando como um dos melhores filmes italianos dos últimos anos, justamente por seguir o mesmo estilo apresentado por “Rocco e seus Irmãos” (1960). Ambos tratam da instituição máxima na Itália, A Família, seus conflitos humanos, educacionais, políticos e ideológicos, tudo apresentado de uma forma tragicômica, como enfatiza Luiz Zanin em seu blog no Estadão: “Dúbios em suas opções políticas, às vezes tão cômicos como trágicos, esses irmãos criam empatia com o espectador com suas trajetórias de vida.” Afinal que irmãos, pais, filhos não brigam? Tudo temperado com gritos, gestos exagerados, belas “ragazzas” e macarronadas. Agora atenção ao pensar que você irá se deparar apenas com os estereótipos italianos, pois acima de tudo, o diretor Daniele Luchetti dá um teor universal ao que se apresenta no filme, ainda citando Zanin: “Bons diretores, como Luchetti mostra ser, sabem fazer a passagem do individual ao coletivo. E vice-versa.”.
Atente também para outras características peculiares que Eduardo Carli da Revista O Grito! apontou: “O filme tem várias qualidades dignas de nota: atuações autênticas, narrativa veloz e bem-editada, trilha sonora muito adequada e muitas sacadas inteligentes e hilárias (…). Além disso, tem a grande vantagem de não ser um filme simplista ou maniqueísta, que diaboliza os fascistas e louva os comunistas, ou vice-versa.”. Alias é este outro ponto fortemente abordado pela crítica, a das ideologias políticas em meio ao maio de 68. “Só por ter um herói fascista, a originalidade já é alcançada.” Elogia o Homem Nerd Edu Fernandes. Só pra esclarecimento: Fascismo (nacionalismo extremo) nunca se concretizou no Brasil. Comunismo é aquilo que o Lula lá aprendeu um dia nas greves de São Bernardo e “esqueceu” quando foi morar em Brasília.
Esqueça as aulas de História e Geografia que tentam explicar um conflito étnico e cultural que perdura por mais de 3000 anos. Assim como muitos gringos não compreendem o chamado “jeitinho brasileiro” dificilmente entenderemos com exatidão o conflito entre palestinos e israelenses. Por isso ao assistir “Lemon Tree” (2008) do diretor Eran Riklis vá preparando a sensibilidade humana, não esperando uma resolução maniqueísta do conflito político-cultural. O olhar ao filme deve ser conduzido para suas duas protagonistas femininas: a palestina dona dos limoeiros a serem derrubados Salma Zidane (Hiam Abbass – Paradise Now 2005) e a israelense esposa do Ministro da Defesa que provoca a decisão de derrubá-los Mira Navon (Rona Lipaz-Michael). Uma defende a herança cinqüentenária da família enquanto a outra tenta salvar um casamento que está fragilizado. Aprofundando a análise podemos dizer que ambas estão tentando preservar sua própria existência. Salma foi criada embaixo dos limões, ajudando o pai no cultivo após a morte da mãe. Nem com um filho morando nos EUA ela quis deixar as árvores para trás. Mira também tem uma filha morando na América, a qual sempre recorre nos momentos de carência que o marido que está sempre ocupado de mais acaba não preenchendo. Com a crise perante a derrubada dos limoeiros, elas se confrontam com a própria solidão e a falta de chão por se perceberem sozinhas e frágeis. Elas até buscam o apoio masculino, mas esse se mostra falso e ineficiente. Cabe a cada uma delas encontrar seu próprio destino, independente de ministros e limões.
Não basta enfatizar. É preciso explicitar. Não sendo suficiente em apontar que o filme Lemon Tree trata do conflito Palestina X Israel, é preciso destrinchar perante os leitores das críticas como esta guerra é travada no seu dia-a-dia. Isso todos sabemos, é só ligar a TV ou ler algum jornal. A questão que Celso Sabadin do CineClick aponta, é mais digna em revelar as reais intenções do diretor Eran Riklis (A Noiva Síria – 2004): “Lemon Tree é uma ode à convivência pacífica.” E é justamente isso que deve ser preservado ao apreciar esta obra. “Um dos pontos fortes do roteiro — desenvolvido por diretor Eran Riklis e pela ex-jornalista Suha Arraf a partir de histórias ¬reais — está em desviar-se do maniqueísmo.” Afirma Neusa Barbosa da Bravo!. E nesta história não há vencedores, todos de alguma forma perdem. Sejam parentes, território ou a dignidade. É obvia a conclusão que há mais de três mil anos não se apresentou nenhuma solução “mágica” para o problema, e um filme não será suficiente pra apresentar uma. A questão é auto-refletir o que este filme em outra região do planeta tem a ver aqui com o “Brasilzão”. Qual a diferença entre o ministro da defesa de Israel mandar cortar os limoeiros de Salma e a construção de um shopping de alto luxo “desapropriar” o barraco que serve de moradia para muitas famílias? Guerra Social no lugar de Guerra Étnica? E apenas uma provocação ao pensamento…
Preceder um primeiro filme de sucesso não será tarefa fácil para Breno Silveira. “Dois Filhos de Francisco” (2005) conseguiu arrematar um público superior a 5 milhões de espectadores no cinema, melhor marca após a retomada do cinema brasileiro. Se depender da crítica, Breno não será muito auxiliado. A maioria delas aponta a fraqueza na condução da história, como afirma Ronaldo Pelli do G1: “Apesar da boa vontade com o tema, Breno repete todos os clichês do gênero, o que deixa Era uma vez… totalmente previsível do meio para o fim.” Se para alguns o diretor parece perdido entre fazer uma história de amor ou uma crítica social, para outros ele acertou a mão. Entre os poucos que apóiam a obra do diretor, temos Luiz Carlos Merten do Estadão: “Era Uma Vez …começa espetacularmente, tem um desfecho anticlimático, mas depois o diretor acrescenta uma ”pós-filmagem” e o resultado fica mais forte, ainda.”
Se há contradições em elogiar ou não o diretor, sobram críticas positivas para outras frentes do filme, como é o caso da fotografia de Dudu Miranda e Paulo Souza. “Era Uma vez…tem uma bela fotografia nas cenas externas, o que felizmente já é uma tradição em nosso cinema.”, elogia Sergio Batisteli do Overmundo. No geral, o público brasileiro é uma entidade difícil de lidar. Há preconceito contra a produção nacional e uma valorização do cinema norte-americano, uma contradição típica de país colonizado culturalmente por uma potência economicamente superior. Se haverá sucesso de bilheteria para “Era uma Vez…” ou não, não é o que está em jogo. O que se deve levar em conta é se mais uma vez o brasileiro terá humildade em olhar para si, para a própria e cruel realidade que bate em nossa porta não só na televisão, mas na grande tela também.
Dois jovens se apaixonam loucamente. Porém suas famílias proíbem o relacionamento e o amor desenfreado acaba resultando em duplo suicídio. Romeu & Julieta de Shakespeare ? Errado. Falo de Píramo e Tisbe do poeta romano Ovídio (43 A.C – 17 D.C.). Seguindo essa máxima de “nessa vida nada se cria, tudo se copia”, o lendário escritor inglês não escapou desta, mas acabou imortalizando na cultura ocidental histórias que esboçam o conflito de jovens casais que não podem viver seu amor em paz. “Era uma Vez” do diretor Breno Silveira, também responsável por “Dois Filhos de Francisco” (2005), conta a mesma história pela milésima vez. Ao invés de famílias inimigas, os jovens pertencem a classes sócias distintas, o que no contexto de um país subdesenvolvido como o Brasil significa um verdadeiro apartheid sócio-cultural. Ele é criado no Morro do Cantagalo. Ela é uma patricinha de Ipanema. O mérito do filme é de justamente destrinchar os preconceitos entre as classes. Porém a maneira de conduzir a trama como uma novela das oito (tirada típica da Globo Filmes) acaba empobrecendo a história. Mas não desanime durante o desenrolar, pois apesar de um meio fraco, o final é de certa forma chocante, dando uma resolução pessimista nesse contexto de preconceitos. Fazendo uma análise psicológica podemos nos perguntar por que o desejo do proibido é tão forte e faz qualquer ser humano cometer uma loucura, como arriscar a própria vida por uma paixão? Se Freud soubesse o quanto os amores proibidos iriam ser tão presentes nos séculos que seguiriam sua morte, ele talvez teria desenvolvido além do “Complexo de Édipo e Jocasta” o “ Complexo de Píramo e Tisbe” tentando explicar a obsessão amorosa sem limites além da post mortem.



















