Falar sobre Bergman, para a crítica brasileira, parece uma tarefa pontual e intimista. Não são poucos os que se propõe a isso, pois por algum mistério da universalidade humana muitos de nós se identificam com as idéias de um aparente frio e depressivo cineasta, que nasceu em um país tão distante quanto distinto do Brasil, a Suécia. A mania bergmaniana nasceu inicialmente em Porto Alegre na década de 70 e foi se espalhando pelas capitais paulista e carioca para hoje figurar como um diretor querido e admirado em todo o país, graças ao advento do DVD e do YouTube. Assistir um filme do diretor sueco não é uma tarefa fácil para um público acostumado com a linguagem mastigada da televisão e da telenovela. Uma obra como Gritos e Sussurros (1972) exige paciência, delicadeza e discernimento. A começar pela fotografia belíssima e cheia de simbologismos, como enfatizou Aramis Millarch em seu texto publicado originalmente no jornal Estado do Paraná em 17 de Abril de 1975, no calor do lançamento do filme no país, após 3 anos de atraso: “Da primeira à última seqüência não há uma cena em que a concepção plástica não seja perfeita. Só isso já faz com que se veja o filme com redobrada atenção, exigida pela linguagem fragmentada em termos de cronologia, dentro de um desespero contido no claustro da mansão pesada, onde vivem (ou sub-vivem) os dramáticos personagens deste filme”. As imagens que compõe o filme surgiram para Bergman em sonho. Ele imaginou personagens esbranquiçados em um fundo vermelho semelhante a um útero, ao mesmo tempo acolhedor e claustrofóbico. A partir disso, com a sua imaginação, desenvolveu o argumento de duas irmãs e uma empregada que cuidam de outra irmã moribunda, ao mesmo tempo em que são apanhadas pela dor em existir em mundo de sofrimento sem escapatória, a não ser a morte idílica. O clima pessimista é praxe em toda obra de Bergman, como analisa José Carlos Avellar no site Escrever Cinema: “Gritos e sussurros é uma nova visita a este universo desencantado. Aí encontramos de novo os personagens de sempre e o mecanismo de sempre: a ação é pouca e principalmente reflexiva; os personagens são apanhados num momento em que se dão conta da extensão do sofrimento humano e começam a pensar em voz alta. Ou a pensar e não falar de todo. Ou a pensar e falar numa linguagem incompreensível. Às vezes eles conversam entre si. Às vezes falam para a câmera, como se ela fosse um personagem invisível, ou um espelho. Às vezes se agridem, com palavras ou com pequenos atos. Tudo é igual e ao mesmo tempo não é igual, porque de filme para filme Bergman depura seu estilo de narração.” E esse é outro ponto que pode irritar o espectador brasileiro mediano, o silêncio prolongado e meditativo dos personagens absortos no sofrimento de sua existência. Momentos assim podem ser sufocantes, mas esse terror incômodo cumpre a missão de ser altamente provocativo. “Podemos enxergar em Gritos e Sussurros tanto o esquema cromático de um drama intimista quanto uma sensação de terror despertada pela manipulação sádica do primeiro plano. Gritos e Sussurros, mesmo que imune a qualquer definição simplista, é em grande medida o filme de terror de Bergman.” afirma Luiz Carlos Oliveira Jr. Revista de Cinema ContraCampo. Mesmo introspectivo, pessimista e desacreditado, vale um olhar à obra de Bergman. Com direito a uma visita a um psicólogo após a exibição.
Nas primeiras cenas de Linha de Passe (2008) Sandra Corveloni interpretando a doméstica grávida Cleuza lança seu olhar para a janela, em um ângulo que captura todo o seu semblante poeticamente. Seu rosto emana as dores do parto, misturado com a preocupação com os outros filhos que correm alto risco de se perderem por um mundo cão e miserável, que não esboça esperanças de melhora. Apenas esse único gesto cheio de metáfora e significado justifica o prêmio de melhor atriz no último Festival de Cinema de Cannes para Sandra. Atriz teatral, vivia sua profissão em cima dos palcos integrando o grupo TAPA e eventualmente dando aula nos CEU’s (escola modelo da prefeitura de São Paulo). O prêmio francês foi uma surpresa totalmente bem-vida, pois a atriz não pode ir a Cannes se recuperando de um aborto espontâneo de seu segundo filho. Diferentemente da vida real, sua personagem está grávida pela quinta vez depois de 4 meninos. E é a partir deste jovem elenco masculino que todo o jogo da trama se desenrola, encabeçada pela mãe. O atacante do time é Dario, interpretado por Vinícius de Oliveira que foi descoberto por Walter Salles em Central do Brasil (1998). O personagem está completando 18 anos, momento crucial em que vê suas chances de ser selecionado em uma peneira futebolística irem para escanteio. José Geraldo Rodrigues vive Dinho, o irmão que se prega como evangélico, mas que ao decorrer do longa fica na linha tênue entre a perveção e a honestidade. João Baldasserini atua como o motoboy Denis, que cruza as vias urbanas em busca de dinheiro para o sustento do filho e as diárias de motel com sua chefe. O mais novo e diferente dos 3 irmão é Reginaldo, o ator-mirim Kaique Jesus Santos . Único negro do clã, passa o dia de ônibus em ônibus à procura do pai, motorista da frota. Todos os personagens apresentados, sem exceção, apresentam todas as idiossincrasias existenciais despida de maniqueísmos. E é nisso que está a força do filme de Walter Salles e Daniela Thomas. Na guerra contra a pobrez,a a procura de uma chance e de seu lugar no mundo, todos tentam desentupir a pia de toda sujeira, de um jeito malandro, brasileiro e humano.
Depois do sucesso aqui e lá fora de filmes como Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007) o público brasileiro já está incomodado o suficiente em se ver retratado nas telas como pobre e violento? Já haverá então uma fórmula pronta para um filme nacional combinando miséria e criminalidade, o dogma da estética da fome de Glauber Rocha? Para André Nigri da Revista BRAVO! já há uma saturação nos espectadores: “A correlação quase esquemática entre pobreza e criminalidade cansa o público e enfraquece a discussão. Linha de Passe, ambientado na periferia de São Paulo, corria o risco de cair nessa vala comum da produção brasileira recente. Não o faz. Principalmente pelo roteiro, brilhante na medida em que propõe personagens densos, fortes, fascinantes. E pelos atores, que mostram estar à altura do desafio de interpretação.” E é justamente elogiar o elenco em suas atuações que boa parte da crítica se atenta para analisar a nova obra de Walter Salles e Daniela Thomas (Terra Estrangeira – 1996), como enfatiza Carla Meneghini do G1: “Com belíssimas atuações, o filme traz uma visão sensível da vida na periferia de São Paulo e revela a angustiante convivência entre pobreza e sonhos dentro de uma mesma casa.”. Vindo do Festival de Cannes com o prêmio de melhor atriz para Sandra Corveloni, muitos elogios e 10 minutos de aplausos ao fim da exibição, não havia muitas dúvidas das críticas positivas da imprensa brasileira, como destaca Luiz Carlos Merten em seu blog no Estadão, em um post escrito no calor do festival: “Achei o filme emocionante -- uma jornalista italiana disse que viu ‘Rocco e Seus Irmãos‘ ali dentro e eu assino embaixo -- e essa empatia que ele me provocou passa, com certeza, pelos atores.” Rocco e Seus Irmãos (1960), filme de Luchino Visconti, é um clássico dentro do cinema italiano e mundial. O comentário da jornalista italiana a Merten demonstra o quanto o cinema brasileiro figura com destaque no painel mundial, sendo digno de comparação a filmes tão humanos e poéticos quanto qualquer europeu pode transpassar.
Antes proibidos ou subliminares, os filmes que abordam a homossexualidade de seus personagens estão cada vez mais partindo para um conceito poético e existencial. Má Educação (2004) do diretor espanhol Pedro Almodóvar e Brokeback Mountain (2005) do chinês Ang Lee são apenas alguns exemplos de como pessoas que apontam para esta opção sexual, ainda muito vitmizada pelo preconceito, não precisam ser representadas de forma caricata e afetada, como em A Gaiola das Loucas (1996). Em La León (2007) do diretor argentino Santiago Otheguy, há a clara opção de mostrar como o gay é marginalizado rumo à exclusão implícita e, portanto, solitário em seus desejos. O protagonista Alvaro (Jorge Román) vive numa humilde comunidade de pescadores, ilhados em sua localização geográfica e tradições, onde o machismo disfarçado em partidas de futebol esconde sentimentos reprimidos do antagonista Turu (Daniel Valenzuela). A fotografia em preto-e-branco e a ausência quase absoluta de trilha sonora apenas auxiliam para que a linguagem metaforize as condições psicológicas dos personagens. No fundo deste abismo de sentimentos o que se vê são seres humanos na sua carência íntima, apenas querendo amar e ser amados. Sem olhares acusatórios e palavras degradantes.
Em 1935 estreava nos cinemas o primeiro filme que utilizava cores em sua fotografia através do processo Technicolor: Vaidade e Beleza do diretor georgiano Rouben Mamoulian. Depois dos anos 70, quando grande parte da indústria cinematográfica já havia adotado totalmente a técnica colorida, utilizar a fotografia preto-e-branco era uma opção pessoal do diretor para integrar algum tipo de metáfora à imagem ou fazer referência a uma época, como é o caso de A Lista de Schindler (1993) de Steven Spielberg e O Homem que Não Estava Lá (2001) dos irmãos Coen. No caso de La Leon (2007) o cineasta argentino Santiago Otheguy optou pela paleta cinza para dar um destaque subjetivo à paisagem natural e aos personagens intimistas, como coloca Daniel Schenker Wajnberg do site Críticos: “O apuro formal alcançado por Otheguy merece aplausos. Não há como deixar de notar o rigor dos enquadramentos, o movimento contemplativo de uma câmera que se aproxima sem pressa dos personagens, a atenção aos detalhes (como a opção em registrar mãos, freqüentemente “recortadas” do restante do corpo) e a beleza das tonalidades em preto-e-branco.”. Mario Abbade do Omelete também elogia a opção fotográfica feita: “Tecnicamente o diretor apostou no preto e branco com uma forte presença do cinza, para criar uma atmosfera de nebulosidade cênica. Isso reforça a expressão das personalidades dos personagens. Nesse clima misterioso Otheguy demonstra como a solidão pode criar um desejo que contraria convicções.” É o desejo do proibido, da transgressão sexual sufocada pela paisagem bucólica vista por um olhar frio e sem vinda tanto quanto sem cores.
A solidão nas grandes metrópoles tem provocado em seus habitantes as mais variadas crises existenciais, prato cheio para qualquer psicanalista que mantenha sua clínica em grandes capitais. E se aproveitando desta tendência rumo a loucura coletiva, o Cinema Brasileiro apresenta alguns víeis destes conflitos em filmes como O Outro lado da Rua (2004), O Signo da Cidade (2007) e Não Por Acaso (2007). Mas nenhum deles é tão voyerista e sacana quanto o que é mostrado na Porto Alegre de Ainda Orangotangos (2007) do diretor Gustavo Spolidoro. Com (literalmente) uma câmera na mão e a idéia fixa na cabeça de gravar tudo em um único plano -- seqüência, o cineasta segue o dia de diversos personagens que se esbarram pela capital gaúcha. Sejam eles japoneses, negros, homossexuais, evangélicos, mudos, bêbados ou sádicos, todos recebem o mesmo olhar trêmulo de quem observa com atenta curiosidade sarcástica. A problemática da intimidade solitária em cidades super povoadas vem à tona em pequenas ações que beiram o surrealismo fantástico digno de um Fellini, mas com diálogos e interpretações tão naturalistas quanto de qualquer Altman. A universalidade é tão evidente que até o diálogo sobre futebol das lésbicas poderia ser travado em qualquer país que nunca soube muito bem o que é bater uma bola de verdade. Se você já foi, mora ou conhece de alguma forma Porto Alegre ignore os pontos turísticos mostrados. Atente ao filme como quem vê um experimento de laboratório, onde cientistas anotam em pequenas pranchetas todo o comportamento de um bando de símios transloucados que por não saber conviver muito bem dentro da coletividade isolam – se com sua própria banana, seu próprio ego.
Depois de uma série de curtas-metragens promissores, o diretor gaúcho Gustavo Spolidoro se aventura no território dos longas-metragens no melhor estilo “altmanesco” (referência ao diretor norte-americano Robert Altman) com um diferencial inovador: ser o primeiro longa brasileiro com apenas um plano-sequência. Se a idéia parece simples, orquestrar atores e produção nessa melodia exigiu maestria, como elogia Angélica Bito do Yahoo Cinema: “A bela orquestração dessa equipe toda é conduzida de uma forma firme pelo diretor; por isso, o resultado inovador, criativo e bem-resolvido que temos na tela. Pela bela realização dessa proposta tão ousada, Ainda Orangotangos tem identidade única. Com isso o longa carrega consigo um frescor único e bem-vindo pelo cinema nacional.” As notas non-sense imperam pela obra, baseada no livro de contos homônimo do escritor Paulo Scott. Os personagens se locomovem por Porto Alegre, mas a história é de tal forma humana que poderia pertencer a qualquer outra metrópole do planeta. Ainda sobre os personagens, Luiz Zanin do Estadão os analisa e classifica: “Ainda Orangotangos leva essa idéia de histórias em contato ao paroxismo, mas sem o peso humanista que nos levaria a crer que estamos diante de personagens críveis. Aqui, os personagens são tipos, modelos sem espessura. E as relações que estabelecem entre si lembram a arbitrariedade de um ‘ato gratuito’ surrealista. Produz riso, em algumas circunstâncias. Desconforto, em outras.” Portanto, pelo novo frescor que o cineasta gaúcho está trazendo ao cinema nacional como um todo, encerro esse post com a recomendação de Érico Borgo do Omelete: “Vale a visita à Porto Alegre desenfreada de Spolidoro.”





















