Pense Depois de Ver

Queime Depois de LerEm minha primeira incursão pela 32º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo encarei logo de cara um dos títulos mais procurados pelo grande público, com ingressos absolutamente esgotadíssimos. Sala lotada, muitas risadas minhas e da platéia. Confesso que fazia tempo que não saía tão satisfeita de uma comédia e, sim, acima de tudo, estava morrendo de saudades do humor absolutamente negro e ‘sarcáustico’ dos Irmão Coen. Ok, Fargo (1996) era o top nesse quesito, Matadores de Velhinha (2004) até tentou e Onde os Fracos Não têm Vez (2007) foi a premiada consagração, mas até o curta Tuileries inserido em Paris, Te Amo (2006) possuía mais acidez por milímetro de película do que os últimos trabalhos da dupla! O elenco estelar e afiadíssimo também contribuiu (e muito!) para dar vida a personalidades totalmente desprovidas de massa encefálica, contando assim com a fina nata Hollywoodiana: George Clooney e Tilda Swinton, repetindo espetaculares atuações em conjunto, como em Conduta de Risco (2007); Frances McDormand já oscarizada em Fargo e casada com um dos irmãos siameses; John Malkovich sempre competente e hilário em suas interpretações, é o único ator conhecido por mim que melhor interpretou a ele mesmo (Quero Ser John Malkovich – 1999); e até Brad Pitt me surpreendeu com uma atuação dignamente engraçada, que só antes havia apreciado em Snatch – Porcos e Diamantes (2000). Risadas dissipadas pela fumaça dos meus cigarros de menta e ofuscadas pelas luzes dos faróis da Avenida Paulista, pude refletir melhor a grande crítica por trás da comédia. Porque afinal precisamos de um serviço secreto, pólicia, agentes e afins? Em uma das melhores cenas do filme nem mesmo os próprios federais sabem para que cargas d’água servem os seus cargos e respectivas funções! E transportando a crítica aqui para o Hemisfério Sul me questiono as reais intenções de greves da polícia civil e da infeliz declaração de Eduardo Félix, que comandou a desastrosa operação policial em Santo André: “A polícia não abateu o seqüestrador por ele não ser um bandido e sim um jovem trabalhador a sofrer por amor”. Se crime passional não é mais delito passível de punição, acho que também vou eliminar uns ex-namorados que ainda insistem em assombrar meu espírito… e minha paciência!

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Inteligência nos Criadores… Inversamente Proporcional nas Criaturas.

Queime Depois de LerEsquentando os motores neste início de 32º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, vamos começar por um título badalado, Queime Depois de Ler (2007), primeiro longa após a consagração dos Irmão Coen na Academia, que estréia em circuito nacional apenas em Novembro. “À primeira vista, Queime Depois de Ler é apenas uma comédia de equívocos. Mas nenhuma comédia de equívocos é apenas ela nas mãos de Joel e Ethan Coen. Há sempre algo inteligente abaixo da linha de superfície, alguma coisa para meditar, uma reflexão em geral bastante irônica sobre o mundo em que vivemos.” É o que nos conta Luiz Zanin em seu blog no Estadão. Outros críticos, ainda na expectativa da superação pós-Oscar, comparam este longa com outros anteriormente produzida pelos gêmeos siameses de Hollywood, como Marcelo Hessel do Omelete: “É a trama circular de um Grande Lebowski (1998) pontuada pelo tom farsesco e sarcástico, banalizando a violência, de um Fargo (1996).” Aristeu Araújo da Revista Moviola vai além, destrinchando toda a crítica feita pelos Coen para uma sociedade idiotizante e alienada, não só após o fim da Guerra Fria, mas também com todos os acontecimentos pós- 11 de setembro:“Com o olhar voltado novamente à falsa moral americana, os irmãos Ethan e Joel Coen lançam o primeiro filme após o aclamado Onde os fracos não têm vez (2007). Mas se no anterior havia uma densidade absurda permeando o roteiro, nesse, o que transparece é um humor negro pontuando de acasos a trama dos personagens.(…) Ácido, nos mostra uma sociedade preocupada demais com aparências, enquanto que na vida privada todos padecem de um mau caráter crônico. Para os Coen (e esta afirmação não vem referenciada apenas por esse último longa-metragem, mas por vários de seus filmes), não há redenção possível aos seus personagens. Invariavelmente eles carregam sujeira sob o sapato. Em Queime Depois de Ler, entretanto, o tom cômico deixa os julgamentos mais amostra, já que o filme se baseia nas falsas aparências para se sustentar. A própria escolha dos atores demonstra um outro viés da crítica acerca dessas aparências, já que George Clooney e Brad Pitt são apresentados de modo muito diverso do que o star system hollywoodiano construiu em torno deles.” Sarcástico ou pontual, mais uma vez a inteligente direção dos Coen se sobressaiu a do pobre cérebro americanoide de suas personas. Melhor para nós que podemos observar aqui do terceiro mundo a decadência de um império, não só econômica como intelectual.

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There’s nothing you can do that can’t be done …

Yellow SubmarineAgora sim! Depois de meia hora de procura insana finalmente encontrei meu CD Beatles – One, ou melhor, uma cópia dele. Desculpem-me, mas como uma boa cinéfila, não consigo escrever sem uma Trilha Sonora apropriada ao post. E estava tendo sérias dificuldades em encontrar algo que estava bem debaixo do meu nariz no meu amontoado de mídias. Deve ser efeito do LCD (Lúcida a base de Café e Doritos). Pois bem vamos lá. Sei que este blog não é sobre música especificamente, porém graças a Apolo (deus grego da música) a sétima arte é permeada por um dos grandes gêneros, o Musical, do qual posto bastante aqui no MovieYou (vide Canções de Amor, Mamma Mia, Moulin Rouge etc). E depois de ter me deliciado com o recente Across The Universe (2007) fiquei com uma saudade imensa do Submarino Amarelo e a Pepperland do longa Yellow Submarine (1968), sem sombras de dúvidas o longa de animação mais psy da história do Cinema. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band pode não ser o disco favorito dos beatlemaniacos (alguns dizem que The White Album é o tal), mas o filme que desencadeou o disco, ou vice-versa, é certamente marcante para toda uma geração. Especialmente aquela oriunda do Maio de 68, Flower Power, Guerra do Vietña, o Movimento Hippie entre outros levantes contra-culturais que permearam o ocidente neste período. Mais do que isso, Yellow Submarine é totalmente atemporal. Junte os amigos e as cervejas (ou outros alucinógenos apropriados) e curta as viagens de Paul, Ringo, George, John e o Capitão Fred, não só pelo mar mas também pela infinita mente imaginativa humana. Aproveite, pois esta noite chuvosa de sexta-feira pede um bom filme, ou um submarino para conseguir sair pelas ruas inundadas de caos urbano e cinzas de poluição. Tão diferente da Pepperland…. All You Need is Love, Love, Love is All You Need…

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Hey, Jude, don’t make it bad …

Yellow SubmarinePsicodelia, ácidos e LSD. OK, Beatles não é só isso, mas depois do seu histórico encontro com Bob Dylan, quem garante? Aproveito para deixar uma observação do filme que melhor explorou esse encontro em uma cena hilariante: I’m Not There (2007). Feita a apresentação, vamos ao que viemos: “Era uma vez (ou talvez duas), um paraíso chamado Pepperland. É assim que começa uma das animações musicais mais insanas que já surgiram nos cinemas, Yellow Submarine (1968). E, como não podia deixar de ser, em se tratando de insanidade, esse filme é inglês e um rebento da década de 60. Isso talvez explique o porquê de tantas cores e do clima psicodélico dessa animação que traz como protagonistas ninguém menos que Os Beatles.” É o que nos introduz Turquinho em seu blog. Outro blog com informações bem interessantes deste longa é o Vaga-Lume Rosa: “Essa animação foi feita na época em que os Beatles estavam no auge de sua carreira e foi lançada seis meses antes do disco Yellow Submarine. Para quem é fã da banda, como eu, esse é um trabalho imperdível sob muitos aspectos. O filme retrata com muita precisão o bom momento que a banda vivia na época, além de mostrar como a psicodelia exercia uma enorme influência no processo criativo da década. O que eu não gostei muito no filme foi a maneira como Ringo foi representado: tolo, ingênuo demais, uma quase idiota no meio dos outros três. Mas vai ver que isso é porque eu gosto muito dele, apesar de todas as críticas negativas que sempre ouço. De toda a forma, é um ótimo filme.” Não importa qual dos 4 é o seu favorito ou qual deles já morreu de verdade ou não (malditas mensagens subliminares). Aproveite esse clássico em DVD dificílimo de ser encontrado fora dos canais de download, mas recompensador não só por suas cores e sons, mas principalmente pelos seus ideais e pacifismo… Take a sad song and make it better !!!

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Batman – Agente da Anarquia

Batman - O Cavaleiro das TrevasAnarquia é um conceito muito simples – ausência de poder coercitivo central – sem mais ideologias ou delongas. Existem diversos tipos de uso para anarquia e movimentos políticos e sociais, mas isso é outra história.
Batman está acima da lei e da ordem, além de seguir somente sua moral (não importa se boa ou ruim). Ele é mais poderoso e bem equipado do que a polícia, está anos-luz adiantado em tecnologia do que o governo e utiliza todo este aparato para proteger Gothan. Certo? Não. Ele utiliza todo este aparato até o momento em que achar necessário para satisfazer seu trauma de infância.
No exato instante em que Bruce Wayne resolver que Batman não precisa mais aparecer, o homem-morcego está morto. The Dark Night trouxe uma discussão profunda à luz da razão: Um herói é um justiceiro? O combate ao crime se justifica quando um Coringa surge por causa de um Batman? Isso não importa, Coringa surge numa interpretação excelente da psicologia quebrada da mente no caos, desafiando qualquer racionalidade e com vários “experimentos sociais” e truques. Ele se julga agente da Anarquia e do caos, mas quando foi sujeitado à lei pelo Batman, já era. Anarquia não permite sujeição a coerção externa ou a qualquer ordem.
Batman representa a falta de ordem e a liberdade que todos desejam mas não sabem explicitar. Poder e dinheiro garantem esse quadro. Não importa se é dia ou noite, se ele é considerado vilão ou mocinho. Batman se alterna nestas categorias. Ele não possui super-poderes, é somente um humano que erra como humanos. Talvez a fórmula de seu sucesso seja esta.

Publicado por: Luis Gustavo -- www.luismaluf.com.br

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O Escafandro e a Borboleta: Viagem ao Mundo Alheio

O Escafandro e a BorboletaMais que interpretar a psique humana ou ser uma biografia, “O Escafandro e a Borboleta” faz você ser o jornalista Jean-Dominique Bauby e viver numa cadeira de rodas, comunicando-se por piscadas de um olho. O diretor Julian Schnabel transforma o real em fantástico e nos induz a “se pôr no lugar do outro”, com uma propriedade requintada de minúcias. Aliás, é esse o caráter de seus filmes, como se pôde verificar em “Antes do Anoitecer” (2000), que nos transporta à vida do escritor Reinaldo Arenas durante a ditadura cubana. Logo, a câmera em seus filmes é um ponto de vista e a imaginação.
O filme surpreende por não mostrar a vida de um paraplégico de forma piegas. Ele é conduzido levemente, arrancando risos do público, sem dar uma falsa lição de moral como em dramalhões americanos. A mim não tirou nenhum tipo de reflexão durante a execução, porque me sugou totalmente para dentro da tela, sem permitir conclusões precipitadas. Portanto, é uma verdadeira viagem.

Publicado por: Bruno Freitas

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Dois Lobos Velhos de Guerra

As Duas Faces da LeiDomingo à noite, início da madrugada paulistana. Acabara de chegar de uma sessão de cinema onde, depois de um dia de canseira no ‘trampo’ só queria saber de um saco de pipocas e o colo do meu namorado. On-line no MSN enquanto escrevo esse post, eis que travo o seguinte diálogo após comentar com um amigo estudante de Cinema que tinha ido assistir As Duas Faces da Lei (2008):

Louis -- Last words: “working on it…” diz:

eh bom? me falaram tão mal desse filme q eu bodiei

Mariana Bonfim diz:

ah meu vale por ver os dois (DeNiro e Pacino), comer uma pipoca e dar uns amassos no escurinhu hihi

Louis -- Last words: “working on it…” diz:

hahahahahahaahah

era toda a explicação q eu precisava

Mariana Bonfim diz:

Ebaaaaaaaaaaa \0/

Apesar de esse diálogo ilustrar boa parte da lógica montada em minha mente ao analisar o filme, vou ainda justificar porque dei três películas para a obra. Primeiro que por mais que os dois maiores mafiosos do cinema já estejam gastos em suas interpretações, a esperança é a última que morre. Segundo que eu caí como um cordeirinho no ponto de virada que a trama deu perto de seu final. Agora não sei se ela foi boa mesmo ou se eu estava muito cansada do trabalho. Terceiro que não é todos os dias que conseguimos absorver algo muito mais complexo que a troca de tiros e xingamentos constantes. E para esse fim de fim de semana, domingueira desgraçada, os dois lobos foram de bom tamanho pra chapeuzinho aqui…

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Astros Não Salvam Bilheteria

As Duas Faces da LeiPositivismo foi a última coisa encontrada nas críticas sobre o último blockbuster de Pacino e DeNiro e não estou falando da metodologia científica ou da linha de pensamento filosófico. Pois é. Não adiantou nada colocar dois nomes de peso para disfarçar um roteiro mau-construído.Não foi dessa vez que conseguiram pegar a crítica de calças curtas, como foi o caso de Rodrigo Zavala, do Cineweb no canal de cinema do G1: “Como serve apenas de pretexto para evidenciar a participação de seu elenco, o roteiro de Russell Gewirtz (O Plano Perfeito – 2006) traz alguns erros grosseiros na apresentação dos conflitos e na construção de seus personagens (muitos sequer têm função real na história). Prova disso é o fato de que, em muitas cenas, a tensão é transformada involuntariamente em comédia. Esses problemas recaem diretamente no confuso desfecho, cuja imprevisibilidade se dá mais por equívocos lógicos do que por uma grande idéia. O carisma e o talento de Robert De Niro e Al Pacino (que têm feito produções medíocres nos últimos tempos, como 88 minutos -- 2007), não salvam o filme e sua história mal contada. Curiosamente, não é a primeira vez que isso ocorre com a dupla. Em 1995, ambos estrelaram o violento Fogo Contra Fogo (de Michael Mann), igualmente concebido para eles e sem qualidade narrativa. As Duas Faces da Lei insiste no mesmo erro.” Érico Borgo do Omelete tenta justificar o insucesso culpando os próprios atores, que já estão devendo uma interpretação decente há tempos, e a falta de pulso do diretor Jon Avnet (Íntimo e Pessoal – 1996): “O problema é que De Niro e Pacino já faz tempo estão operando no ‘automático’. Sem a condução de bons diretores -- e aqui contam com o fraco Jon Avnet, que já trabalhou com o primeiro em 88 Minutos -, têm realizado filmes burocráticos, que nada agregam aos estrelados currículos de ambos. Avnet, aliás, parece meio maravilhado demais com o fato de estar dirigindo os dois… perde-se de cara numa longa seqüência inicial, passada em uma galeria de tiro, em close-ups das rugas da dupla, como que ainda tentando acreditar que está ali. Com uma atitude dessas, como esperar pulso firme na condução das duas lendas?” O reflexo dessa fragilidade cinematográfica não foram apenas as vaias críticas, mas também a baixa receptividade do público em ‘encarar a bomba’, como conta Jamari França do jornal O Globo: “As Duas Faces da Lei” recorre a dois monstros do cinema, Al Pacino e Robert de Niro, para contar uma história cheia de clichês do gênero na esperança de que o talento dos dois evite o desastre. Não funcionou. Lançado em setembro num circuito de blockbuster em 3.152 salas, o filme não passou de US$ 37,6 milhões de faturamento nos Estados Unidos para um custo estimado de US$ 60 milhões. A bilheteria internacional foi pífia, pouco menos de US$ 3 milhões até agora, mas ainda há países fortes que vão exibir, como é o caso do Brasil.” Bem, caro leitor, se o Brasil conseguirá fortalecer a fraca bilheteria, está nas suas mão. Ou melhor, nos seus dedos enroscados no gatilho de uma doze…

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Pipocas Kubrickianas

Laranja MecânicaNo final de 1999, as vésperas do Novo Milênio e de um possível bug computacional (o que não ocorreu), resolvi alugar dois grandes clássicos da ficção científica: Blade Runner (1982) e 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968). Confesso que o longa de Ridley Scott me despertou muito mais atenção e, principalmente, compreensão. Tudo bem! Eu só tinha 14 anos e provavelmente ainda não estava preparada para ‘O Mestre’. Não me lembro o contexto exato em que apreciei Laranja Mecânica (1971). Aliás, me recordo muito melhor de quando vi De Olhos Bem Fechados (1999), de longe meu longa favorito de Stanley Kubrick. Era 2004, eu estava no interior de SP fazendo faculdade e morando em república. Era um sábado em que todos da minha sala ficariam pela cidade então resolvemos fazer uma ‘sessão pipoca’. Naquela semana o SBT tinha exibido a obra, mas como ninguém assistiu no dia e estava com vontade de ver, alugamos a fita (ou você acha que uma república iria ter aparelho de DVD?!). O longo filme gerou impaciência, protestos e até piadinhas. Ninguém agüentava mais o personagem de Tom Cruise exibindo sua credencial de médico ou aquele ‘pim-pim’ interminável de um piano na trilha sonora. Na cena da orgia no castelo uma amiga ficou chocada. Enquanto isso eu me deliciava e não me sentia perturbada pelas interferências negativas dos outros espectadores. Ao final do filme, durante os créditos rolavam os mais pejorativos comentários. E eu mais um cara defendíamos com afinco que ‘Oras, mas aquilo era um filme do Kubrick, ou seja, totalmente kubrickiano no estilo etc etc etc.’ Não adiantou em nada, estávamos falando sozinhos, ou melhor, um para o outro. Mas deixa essas histórias pra lá, pois era pra eu estar falando do laranjinha, não? Como eu ia dizendo, não me recordo de quando vi Laranja Mecânica pela primeira vez. Tenho um leve palpite que foi numa aula de história, mas, enfim, o que ficou intrinsecamente marcado foi a violência sexual generalizada e claramente fascista do personagem de Alex (Malcolm McDowell). Ele é muito mais do que um adolescente tipicamente revoltado. Ele é um ser vazio de qualquer humanidade que como muitos jovens da classe alta acham que estão acima da lei e da sociedade e podem, portanto, incendiar um mendigo (que na verdade era um índio) e uma espancar uma prostituta (que na verdade era uma empregada doméstica), porque as leis são omissas e a justiça impune. Mas isso é Brasil, porque na vida futurista do filme o preço que se paga é a mais cruel lavagem cerebral ao som da Nona Sinfonia de Beethoven. No final das contas acaba imperando o ‘olho por olho, dente por dente’, violência física se pagando com violência psicológica. Só rezo para que nossa sociedade tupiniquim não acabe assim afinal já não basta a tortura mental de ouvirmos ‘créu’ sem termos cometido crime nenhum.

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Ao Mestre Kubrick, Sem Nenhum Carinho.

Laranja MecânicaSe você resolver fazer uma enquete com estudantes de Cinema, Rádio e TV ou Audiovisual não será muito difícil ouvir o nome do falecido diretor nova-iorquino Stanley Kubrick sendo citado como referência cinematográfica. Juliano Moreira Oliveira do Cranick é um dos que defendem que os ensinamentos do cineasta ultrapassam as quatro paredes das salas de aula: “O mestre de todos os filmes do cinema, considerado o melhor cineasta de todos os tempos por muitos. A precisão de sua direção choca qualquer um que ama cinema, seus planos seqüências rápidos e ousados e sua tradicional ‘usada’ de travelling tanto verticais quanto horizontais nos proporcionam horas de desfrutes cinematográficos, ele ensina o que nenhum curso ou escola ensinam, a ser original e explorar ao máximo a beleza da arte.” Rodrigo Cunha do Cine Players emenda os elogias as habilidades do mestre com a câmera: “Kubrick tem o total domínio sobre as técnicas de filmagem. Misturando diversas dessas técnicas, ele cria o ambiente que quer da maneira que quer. Mesmo que possa parecer estranho (seus cenários tem cores sempre extravagantes, poucos objetos de cena, chão brilhando, luzes estourando nas paredes e tetos), tudo tem uma perfeita sintonia com o mundo em questão. Aliás, essa característica se diz a todos os filmes de Kubrick (até mesmo Spartacus!), mas citei para reforçar que nada foi ao acaso, tudo está lá propositalmente. Certas vezes temos o tempo do filme alterado, passando mais rápido ou devagar, tudo ao som da mais bela música clássica. Aliás, Kubrick também brinca com temas clássicos, como nunca vistos antes. Além dos clássicos, temos canções inocentes como interpretadas de um modo nunca visto antes.” Continuando nossa enquete com os estudantes, poderíamos indagá-los quanto a obra do mestre favorita. E mais uma vez um coral se formará em torno de Laranja Mecânica (1971). Penso que a grande audiência para com esta obra não está necessariamente na qualidade total do longa, mas por ser aquele filme com o qual Kubrick dialoga de forma mais próxima com os jovens. Alex é o adolescente revoltado e mau-compreendido pelos pais e a sociedade ao extremo e não há nada mais prazeroso do que ver alguém fazendo aquilo que você quer tanto fazer e não pode. Indo além da identificação, Pedro Henrique –em blog Tudo é Crítica postou elogios além: “A Clockwork Orange é um clássico da semiótica de Stanley Kubrick. Com uma linguagem que faz uma salada de fruta com várias línguas (inglês, russo e algumas gírias), o escritor e dono dessa história maluca, Anthony Burgess criou termos absurdamente fantásticos e permitiu que Stanley Kubrick entregasse uma obra soberba que mostra situações de ambigüidade moral e terrível violência explícita. Censurado na época de seu lançamento, o longa parecia ser o filho predileto de Kubrick, que defendeu com todas as forças as críticas pesadas que o filme recebeu. Entre os cinéfilos, Laranja Mecânica também é tido como obra-prima por muitos.” E está justamente nessa última frase a ironia com o cineasta. Ele já levou muito tomate na cara, jogados pela Crítica. Nem mesmo com sua morte ele se santificou. De Olhos Bem Fechados (1999, sua última obra completa -- esqueçam A.I. – Inteligência Artifical (2001) que este filme pertence a Spielberg -- saiu ileso das duras sabatinas. Por mais que tenha defendido suas obras, pode ser que Kubrick não tenha se ofendido tanto assim. A impressão que tenho é de que ele é daqueles professores que nos ensinam dando tapas na cara, que no final das contas as lições só são aprendidas por terrorismo. No fim, não é isso que a sociedade, a vida, enfim, faz conosco … ?!

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