Segundos Congelados na Eternidade

CashbackAlguns truques cinematográficos podem parecer de certa forma banais e pontuais. Para conseguir determinados efeitos com Carlitos, Chaplin efetuava um simples retrocesso na película, enquanto os irmãos Wachowski precisaram de diversas câmeras posicionadas 360 graus ao redor de Neo e Trinity para que eles paralisassem no ar em meio a pancadaria. Se Kubrick inventou um dispositivo técnico especificamente para estabilizar imagens tomadas com câmera na mão para uma cena de perseguição em um labirinto, Meirelles usou apenas vassoura e fita crepe para filmar a corrida atrás de uma galinha na periferia carioca. São essas pequenas ‘cambiarras’ que fazem parte do dia-a-dia da produção de um filme. O que dizer então do efeito de congelamento de cena que Sean Ellis conseguiu efetuar em Cashback, tanto no curta de 2004 quanto no longa de 2006? Ok. Confesso que dei uma boa ‘googlada’ enquanto escrevia este post, mas não consegui desvendar esse mistério da sétima arte. Portanto se o filme aparenta ser mais uma boba comédia romântica com o mais bizarro humor britânico, agüentem firme e apreciem essas cenas de uma habilidade técnica incrível. E não pensem que se trata de um efeito especial vazio, pois, pelo contrário, é totalmente central e pertinente a história! Finalizo com o link para o curta-metragem que inspirou o longa, dando uma pitadas desses segundos paralisados no tempo.

Parte I

Parte II

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Curta Brilhante, Longa Entediante.

CashbackPerdido em uma das salas alternativas das grandes metrópoles, o longa britânico Cashback (2006) chega com dois anos de atraso no país. Apesar de estar escondido no circuito Daniel Levi do Globo Online justamente enfatiza que a obra cinematográfica “(…) de Sean Ellis é uma grata surpresa. O filme, despretensioso, é daqueles que pouco (ou nunca) se ouviu falar. Talvez por isto mesmo, ele seja uma das pérolas escondidas de uma programação de 400 filmes.” Reynaldo Domingos Ferreira do blog Café na Política ainda completa: “A idéia, como se depreende, é brilhante. Exposta inicialmente num curta-metragem de 2004, de mais ou menos vinte minutos, deu a Ellis a indicação ao Oscar e diversos outros prêmios internacionais. Agora, o tema foi por ele desenvolvido em 102 minutos, com o acrescento de outros elementos que não só tornam o filme -- de 2006 -- mais atrativo, mais cômico e charmoso, como lhe dá também certa conotação autobiográfica.” E não pense que é das tarefas mais fáceis ‘esticar’ em 100 minutos uma história concebida para 20! O resultado pode não ter agradado a todos, como ressalva Karla Nazareth do blog Empurra com Água: “Gostei do filme. Tem uma narrativa interessante, uma montagem divertida, uma ou outra babaquice me roubando sorrisos sinceros, porém, tentaram forçar um drama que me deixou desconfortável -- ainda mais com aquele protagonista e sua cara de merda. Talvez a desculpa para o dramalhão exacerbado fosse pelos dotes artísticos do personagem. Ok, pode ser um argumento. Mas ainda assim, dispenso. Pior Momento -- Em algumas cenas, a trilha sonora simplesmente não funcionava. Era justamente nelas que a sensação de drama dispensável me ocorria. Melhor Momento -- Acontece uma disputa de futebol e essa é uma sequência bastante simpática. Ela quebrou meu gelo devido ao problema acima citado.” Curtos ou longos, inteligentes ou débeis, vale a pena conferir a nova safra do cinema inglês e formular suas pequenas ou grandes opiniões…

N. Y. Sex-Sitiada

ShortbusEm Novembro de 2001 os escombros do World Trade Center ainda estavam sendo revirados quando estreou a série 24 Horas. Depois de tempos em que a futilidade de Sex and the City imperava nas tramas nova-iorquinas, se iniciava a era da pancadaria antiterrorista nas telas. Analistas culturais imaginavam que surgira um novo momento na produção audiovisual estadunidense, em que a consciência política imperaria e onde Jack Bauer era apenas a ponta do iceberg. Ledo engano de que os norte-americanos finalmente se dariam conta de que não são o centro do universo. Mesmo com produções que tentaram analisar criticamente o 11 de Setembro, como Medo e Obsessão (2004) de Win Wenders, ainda tivemos muita superficialidade e alienação para o que hora estava caindo sobre a cabeça de todos. É só conferir o quão fútil é o próprio Sex and The City – O Filme (2008). Shortbus (2006) caminha nesta linha tênue entre o vazio e o politizado. Podemos interpretar o filme como jovens fazendo sexo para esquecer os problemas ou como o sexo libertino como grande crítica do que os Estados Unidos diz tanto ser, mas não é: Livre e Democrático! Todos os personagens do filme são arquétipos em que se pode destrinchar da seguinte forma. O gay quer se suicidar apesar de viver um relacionamento feliz. Então porque ele quer morrer? Talvez seja justamente essa sensação de vazio que ficou para maior parte dos americanos depois do atentado. Todos se sentem totalmente diferentes e mesmo vivendo uma vida aparentemente feliz o estranhamento e os porquês continuam martelando no interior do ego. Temos também o voyerista, que assiste tudo a distância como se aquele mundo não o pertencesse. Simboliza os americanos provincianos que acham que Iraque é um outro lugar distante que não os diz respeito diretamente. A dominatrix seria aqueles que ainda tentam obviamente dominar a situação de terror e medo, mas não conseguem controlar e administrar a si mesmo. A terapeuta sexual que nunca teve orgasmo é ironicamente uma canadense de família chinesa. Maior tentativa de distanciamento de personagem, impossível, pois ela representa a alienação de todo povo americano, que vive seu dia a dia normalmente, porém sem enxergar o que está na frente. Não sente o tal “orgasmo existencial” que a personagem tanto procura. Por fim temos duas figuras que estão no topo da hierarquia dos personagens: a drag-queen e o prefeito. O político é alguém que representa um sistema arcaico e ultrapassado, por isso o personagem é visivelmente velho que admite ter se podado e não saído do armário para viver sua vida honestamente. No outro pólo a alternativa drag comanda o clube onde tudo pode ser feito. O que vale é preencher o vazio e se alienar. De que vale McCain ou Obana se a esperança está morta desde que os cherokees foram exterminados. Estranho, mas estou com a mesma sensação de que a libertinagem sexual carnavalesca para nos alienar politicamente não me é incomum… Quem era mesmo aquela loira que nos aconselhou “Relaxa e Goza”?!

Sexo Para Anestesiar a Política.

ShortbusBons anos após a fatídica queda das Torres Gêmeas, o que sobrou da política americana? Assombrada pelo fracassado fantasma da Guerra do Vietnã, a economia estadunidense entra em colapso após financiar a enviada de jovens e armas ao Iraque, resultando em um fim de reinado com altas taxas de rejeição para Bush filho. Caberá a McCain ou Obama adestrarem a águia enfurecida. Neste caos, o que restou aos jovens alienados que não foram à guerra, mas sobraram em Nova Yorque obrigados a agüentar a própria existência vazia e bagunçada? Que tal ‘um pouco’ de sexo sem culpa para esquecer os problemas? É neste contexto que nos encontramos com os personagens problemáticos e suas orgias em Shortbus (2006), do diretor texano John Cameron Mitchell. “Shortbus mostra à que veio ainda nos primeiros minutos de filme. Alternando duas cenas de cunho sexual explícito protagonizadas por personagens distintos, já é possível entender que é um filme que passa longe do comportamento conservador-moralista americano, que retornou com força durante os anos de presidência de George W. Bush.” , nos conta Rafaela Zampier do Cine Players. Pelo visto tanta repressão sexual não funcionou para os traumatizados nova-iorquinos, e sim impulsionou a fazê-los protestar de forma irônica quanto à situação da América, como escreve Rodrigo Carreiro do Cine Repórter: “Neste sentido, Shortbus parece funcionar como um grito de protesto contra os tempos turbulentos da Aids, em que o sexo vem sempre acompanhado por um sinal de ‘cuidado’. Evidentemente, o longa-metragem não é uma ode à promiscuidade sexual, muito embora o comportamento dos personagens seja um bocado hedonista. É preciso interpretar esse comportamento, porém, como uma estratégia política – e não foi à toa, portanto, que o cineasta não se cansou de mencionar paralelos de fundo político nas dezenas de entrevistas de divulgação que deu para promover o lançamento. Se a hilariante seqüência em que três garotões transam cantando o hino dos EUA não é um momento político carregado de furioso simbolismo, não sei mais o que é cinema político.” Eduardo Simões da Folha também enfatiza essa transgressão como escapismo político, comparando o modelo atual com o que se viveu na ‘hippie-paz-e-amor’ década de 60. “Os atores escolheram seus nomes e ajudaram a determinar seus conflitos que, se já não são assombrados pela Aids, não deixam de conviver com outro fantasma: o 11 de Setembro. O atentado está presente no longa, seja insinuado na ‘forma’ dos piques de luz e eventual blecaute que acontecem no filme. Ou na tristeza, vazio e solidão que levam seus personagens a freqüentar o Shortbus, misto de clube de sexo e cabaré, que ‘lembra os anos 60, só que com menos esperança’, como observa Justin Bond, famosa drag queen nova-iorquina que faz ponta no filme.” Esperança ou desconsolo, votando ou protestando o cinema americano underground vem encontrando brechas para se infiltrar pela hipócrita cultura americana como um tumor benigno que quer só incomodar e lembrar que o perigo ainda está nos rondando e cercando pelas sombras.

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