Em meados de 1995 estreava o filme que faria uma verdadeira reviravolta no gênero Suspense, Seven -- Os Sete Pecados Capitais (1995). Com este longa o cineasta David Fincher, norte-americano nascido em Denver, conseguiu despontar como diretor. Mas assim como M. Night Shyamalan ficou estigmatizado em seus trabalhos subsequentes, sempre sendo cobrado por repetir o que fizera em O Sexto Sentido (1999), Fincher ficou com o estigma de Seven. Seus longas posteriores, destacando Clube da Luta (1999), Quarto do Pânico (2002) e Zodíaco (2007) não foram unanimidade tanto para o público quanto para a crítica. Agora em 2008 sua mais nova obra O Curioso Caso de Benjamin Button novamente desperta uma cisão na crítica. Demetrius Caesar do CinePlayers apresenta sua visão totalmente negativa do longa, culpando especialmente as pretensões do diretor David Fincher. “Uma pena. Com uma história tão interessante (a do homem que nasce velho e vai rejuvenescendo com o tempo), atores carismáticos (Brad Pitt soube manejar sua carreira com inteligência e se meteu em vários bons filmes), belos e convincentes efeitos visuais, tudo conspirava a favor do filme, mas as fraquezas do diretor Fincher nunca foram tão evidentes, nunca suas cenas pareceram tão mal dirigidas em todos os filmes que comandou. (…) Em vários momentos, imagina-se que a história foi desperdiçada nas mãos de David Fincher -- um diretor menos pedante poderia ter feito algo melhor, mas com certeza não teria ido tão longe na parte técnica. Talvez pela complexidade, tanta gente tenha desistido de levá-la a cabo (Spielberg, Spike Jonze, Ron Howard). O próprio Scott Fitzgerald escreveu apenas 25 páginas e deixou tudo inconcluso. Há que considerar a coragem de Fincher, mas ainda falta um bom caminho para se tornar realmente um bom diretor, fato que vai acontecer quando ele apurar o estilo e deixar de lado seus exageros visuais maneirísticos.” Érico Borgo do Omelete coloca Fincher no panteão dos grandes diretores e classifica Benjamin Button como obra-prima, frisando que o diretor tem a imensa vontade de arrancar o estigma de Seven. “David Fincher recentemente declarou seu total desinteresse em realizar uma sequência para Se7en -- Os Sete Pecados Capitais. ‘Tenho mais interesse em ter cigarros sendo apagados em meus olhos’, comentou na ocasião. O cineasta é categórico: ‘Eu vivo tentando sair de baixo de minha própria sombra. Eu não quero fazer a mesma porcaria de novo e de novo’. (…) ( Em Benjamin Button) Fincher soube cercar-se como nunca de talentos para realizar sua mais poética obra, uma que -- como se ele já não estivesse -- o arranca debaixo de sua sombra e o coloca sob as mais brilhantes luzes da sétima arte.” Se o próprio Benjamin Button luta toda a vida para mostrar que o exterior não condiz com seu exterior, ou seja, que não basta lançar um olhar superficial e estereotipado das coisas, quem sabe não seja a hora dessa cobrança de filmes anteriores não cair por terra também?
Em Agosto do ano passado quando fui assistir o longa italiano Meu Irmão é Filho Único (2008) me chamou a atenção um trailer em especial. Nele o personagem principal nascia um bebê velho e ia rejuvenescendo, seguindo o sentido contrário à lógica humana de Nascer, Crescer, Reproduzir, Envelhecer, Morrer… A frente do elenco Brad Pitt e Cate Blanchett. Na hora me veio à cabeça o fato de Blanchett ser daquelas atrizes que podem interpretar até uma ameba que vão acabar concorrendo ao Oscar, vide suas interpretações assombrosas em Notas Sobre um Escândalo (2006) e especialmente Não Estou Lá (2007) onde ela faz o melhor Bob Dylan do conjunto, mesmo sendo a única mulher. Quanto a Brad Pitt sei que, assim como Leonardo DiCaprio, está dando um rumo a carreira em que vem deixando de lado a pose de galã para embarcar em papéis mais fortes e sérios. Mesmo assim, apenas pelo trailer não esperava grande coisa dele e seu Benjamin Button em O Curioso Caso de Benjamin Button (2008) de David Fincher. Pois vejam só, 6 meses depois aqui estou e adivinha quem é o indicado preterido pela academia? Ele, o Sr. Jolie. E Blanchett não recebeu ao menos a indicação por atriz co-adjuvante, vaga que ficou para Taraji P. Henson que interpreta Queenie, a amorosa mãe postiça de Button. Não é a primeira vez que Pitt e Blanchett interpretam um casal, isto já ocorrera em Babel (2006). Mas no longa do diretor Alejandro González Iñárritu a química entre os dois me pareceu mais visceral e verdadeira. Talvez a interpretação marcante de ambos seja reflexo do forte roteiro de Guillermo Arriaga, onde tramas globais se fundem em um clímax uníssono. Já em Benjamin Button não há como negar que o roteirista Eric Roth resolveu repetir a fórmula de sucesso que o fez faturar em 1995 a estatueta dourada por seu trabalho em Forrest Gump -- O Contador de Histórias (1994). Bem, agora você deve estar se perguntando por que raios eu dei 5 películas pro filme se até agora eu só falei mal do dito cujo… Pois bem, Benjamin Button pode ter esses pequenos defeitos que apontei, mas ao olhar para a obra como um todo é impossível não se deslumbrar. A mão de David Fincher nunca esteve tão boa é impossível passar incólume pelas quase 3 horas de filme sem derramar lágrimas e se perguntar: “Quanto tempo já perdi em minha vida com bobagens superficiais que não valem nada a não ser me levar para a amargura em vez de perceber o encanto das pequenas coisas a minha volta?” É de se pensar…
A base da trama de A Troca (2008) de Clint Eastwood é de uma mulher, Christine Collins (Angelina Jolie), que lutou contra todas as forças de poder para provar que estas estavam erradas, principalmente na esfera policial. Ela o tempo todo questiona, em vão, o fato de terem resgatado a criança desaparecida errada de volta aos seus braços de mãe. É interessante como é construído no espectador a raiva contra os vilões policiais, pois o roteiro de J. Michael Straczynski de certa forma nos manipula inteligentemente para alimentarmos deste sentimento. Até a falsa criança, que insiste que Collins é sua mamãe, nos provoca ódio de que todos querem a enlouquecer. E é a partir do momento em que a protagonista é jogado em um hospício que a história acaba se perdendo um pouco. Mas se Angelina Jolie interpretando uma louca de verdade ganhou o Oscar de melhor atriz co-adjuvante por Garota Interrompida (1999), ela pode agora faturar outra estatueta dourada por essa postura em A Troca. Não que por ser a atriz principal ela seja a melhor no filme, pelo contrário. Enquanto Collins aproveita, na medida do possível, sua estadia no manicômio, eis que surge a sub-trama de um psicopata assassino de criancinhas interpretado brilhantemente por Jason Butler Harner, um rosto não muito conhecido que espero que desponte logo. Seus trejeitos psicóticos são totalmente verossímeis e a cena de sua condenação a morte enforcado é tão chocante quanto a interpretada por Michael Jeter na cadeira elétrica em À Espera de Um Milagre (1999). Na conclusão da trama o sentimento de impunidade é substituído por felicidade com a falsa sensação de que os culpados foram punidos naqueles típicos créditos finais dizendo o que aconteceu com cada um, e principalmente, de que a super-mãe Collins nunca deixou de procurar seu filho… Ops, acho que contei o final! Mas isso não tem a menor importância. O que transparece ao final das contas é que Clint Eastwood fez tudo tão certo, a fotografia Noir, o figurino e cenários Belle Époque, com a descarada intenção de levar mais um Oscar para casa. Há até uma brincadeira quanto a isso no filme, onde Collins aposta que Aconteceu Naquela Noite (1934) de Frank Capra vai levar a estatueta dourada no lugar da super-produção Cleópatra (1934) de Cecil B. DeMille em que todos apostavam. Collins acertou em sua aposta, mas Eastwood errou feio. Basta como prova as suas 3 míseras indicações por justamente Direção de Arte, Fotografia e Atriz para Jolie. Pelo visto a história do garoto que nasce velho e rejuvenesce tem muito mais a acrescentar a nós e a Academia.
De protagonista de Faroestes Spaghetti a um diretor respeitado pela Academia. O caminho percorrido pelo californiano Clint Eastwood não foi curto e menos tempestuoso. Depois do reconhecimento por longas de temáticas tão distintas como Os Imperdoáveis (1992), Menina de Ouro (2004) e Cartas de Iwo Jima (2006), ele se aventura em uma trama noir. Heitor Augusto do Yahoo! Brasil Cinema reforça a competência do diretor. “Com 30 filmes no currículo de diretor, não há dúvidas de que Clint Eastwood domina, com tranqüilidade, o ofício cinematográfico. Nos últimos 20 anos, raramente dirigiu um longa cujo resultado apresente sérios problemas. Porém, para o padrão Eastwood de qualidade, A Troca está aquém de filmes irretocáveis, como o intrincado Sobre Meninos e Lobos ou o apaixonado Menina de Ouro.(…) À moda de uma cinebiografia tradicional, Eastwood sobrevoa a vida de Christina e sua luta por justiça. Talvez a própria natureza da história não permita grandes mistérios ou viradas. Porém, como drama, talvez alguns altos e baixos deixassem o filme menos linear. Para um diretor do quilate de Eastwood, algo como as pequenas tensões do velho Kowalski em Gran Torino dessem mais vida para A Troca.” Já Reynaldo Domingos Ferreira Blog Café na Política exime Eastwood da culpa e a coloca sobre o roteirista. “O que prejudica o filme é o roteiro de J. Michael Stracynski, baseado em fatos reais, mas de estrutura linear, que, para concretizar o recado político, falha na conexão de um crime famoso ocorrido na época, na região de Los Angeles, com a história de Christine Collins, mãe solteira, telefonista, que se dedicava com afinco à educação do filho Walter (Gattlin Griffith), desaparecido no dia 10 de março de 1928, um sábado, enquanto ela fora trabalhar para substituir uma colega. A partir daí, Christine se torna vítima do Capitão J. J. Jones (Jeffrey Donavan) que comanda o poderoso esquema de corrupção policial da cidade, vigorosamente atacado pelo Rev. Gustav Briegleb, do púlpito de sua igreja, cujas palavras, divulgadas pelo rádio para a comunidade, são de valores universais, isto é, se ajustam não só à triste realidade de Los Angeles na década de trinta, mas também à de todos os quadrantes, principalmente à nossa dos tempos atuais.” Pelo menos a trama funciona para este fim, refletirmos o quanto ainda somos manipulados pelas forças policiais que deveriam nos proteger e acabam apenas angariando fundos para seus próprios interesses pelos canais da corrupção.

TEXTO NÃO RECOMENDADO PARA QUEM NÃO ASSISTIU AO FILME.
A cena mais triste do filme é a que se aproxima de sua conclusão, em que a Sr.ª Daisy(Cate Blanchett) olha para os olhos do bebê Benjamin e contata que ele a reconheceu e o mesmo fecha os olhos dando um fim aos seus 80 anos de vida. E que vida ele levou. Navegou, participou de uma batalha em alto-mar, deitou-se com mulheres da vida, amou duas mulheres, uma que adorava a sua companhia, e conversando toda a noite até o amanhecer (Elizabeth -- Tilda Swinton) e a outra Daisy (Cate Blanchett) o amor de sua vida, a mulher pela qual ele queria ?envelhecer? ao seu lado. Nessa vida ao contrário, Benjamin (Brad Pitt) viu muitos dos seus morrerem ?cedo?, ele que foi deixado na porta de um Asilo por sua pai (Thomas Button -- Jason Flemyng), sendo acolhido por uma jovem (Queenie -Taraji P. Henson) que não poderia ter filhos, e apesar dele ser diferente, era uma criatura de Deus como qualquer outra. Pessoas idosas não deixam de voltar a ser crianças de certa forma. Acabam voltando as fraudas de qualquer jeito. E passar os anos e ter a sensação que está mais sadio e mais jovem, não é uma exclusividade da ficção. É engraçado quando o Capitão (Jared Harris) questiona Benjamin se com ?todo o seu tempo de vida? nunca tinha conhecido uma mulher e após ouvir a resposta retruca de como aquilo era triste, tal a intimidade do espectador com a estória de ser convencido da virgindade daquele menino velho. Quando ele vai rejuvenescendo e na medida em que chega ao ponto em que a mulheres da sala escura começam a fazer fiu-fiu, você acaba achando que o trabalho de Brad Pitt nessa etapa do filme acabou e que tudo seria mais fácil, e que não haveria mais o porque de ficar envolvido com a estória. Que nada. É triste quando Benjamin chega a conclusão do inevitável após a informação da gravidez de sua amada Daisy, que não poderia ter uma vida como a de qualquer pessoa. Que sua velhice não era comparada ao ardor de sua inevitável juventude, e que não poderia ser pai, e que não poderia fazer sua mulher se tornar a sua mãe. Por isso ele se afasta, vai ver o mundo experimentar as mais diversas sensações, conhecer diferentes povos e cada lugar que ele foi enviou uma mensagem a sua filha de como gostaria de estar presente e a lições que a vida estava lhe dando. E Caroline (Julia Ormond) nesse momento em que esta lendo essa parte de seu diário sente vontade de ter conhecido melhor seu pai, e não ter apenas cumprimentado ele uma única vez aos 12 anos. É um filme diferente de outros que eu vi que falam sobre a passagem brusca do tempo. E fiquei atordoado com a imagem do Benjamin, jovem sem rumos e sem futuro. Porque se em Click do Adam Sandler e o Homem Bicentenário do Robin Willians, te dão a sensação que ainda dá tempo, nesse você sai da sala com aquela coisa de: ?Eu não fiz nada ainda? ou ?Tudo passa rápido demais?. O que eu posso dizer como um alento que o filme não nós dá? Sinceramente, não sei. Prefiro fechar o texto com a clássica frase de John Lennon: ?A vida é aquilo que acontece com você, enquanto está ocupado fazendo planos?.
Publicado por: QUEIROZ -- http://escritosmalditos.blogspot.com/
O que um diretor nova-iorquino eternamente em crise e um escritor russo de cunho existencialista possuem em comum? A resposta estaria em uma obra literária de 1866 chamada Crime e Castigo. Nela Fiódor Dostoiévski narra a trajetória de um jovem professor de línguas que após assassinar um agiota e a irmã deste, testemunha do crime, passa a se sentir extremamente arrependido e em busca de uma redenção pessoal que o exima da culpa. E está justamente nesta sensação de culpa que persegue o jovem, a brecha que o cineasta Woody Allen se utilizou no argumento de dois de seus grandes filmes: Match Point (2005) e Crimes e Pecados (1989). Fiquemos então para o Clássico em DVD da semana o filme de 20 anos atrás, não como obra atemporal em sua temática, mas também por ser considerada o último grande clássico de Allen dentro de sua carreira ainda inacabada. Este é mais um filme que o diretor aparece também como ator, fazendo, literalmente “papel dele mesmo”. Seu personagem Cliff Stern é um cineasta desempregado e mal-compreendido. Ele ignora grandes prêmios como Emmys, assim como Allen ignora Globos de Ouro e Oscar, e prefere viver a vida em prol de filmes alternativos a algum emprego decente que lhe pague bem. Na outra ponta do filme temos a trama paralela de Judah Rosenthal, magistralmente interpretado por Martin Landau, um oftalmologista bem sucedido que teme ver a sua vida perfeita de família de classe A feliz cair por terra ante as ameaças de sua amante Dolores Paley (Anjelica Huston) denunciar a traição a sua esposa. Tentado pelo irmão com envolvimentos criminosos suspeitos, Judah vê como única alternativa assassinar Dolores, a eliminando tal como um inseto, como um ser dispensável, para enfim ter paz. Assim as duas tramas vão se intercalando para se encontrar apenas ao final do longa. Não menosprezando a trama de Cliff, mas é na parte desenvolvida em torno de Judah o verdadeiro sentimento exposto por Dostoievski em Crime e Castigo. Porém, se no livro do escritor russo a religião cristã reforça a culpa, para Judah são os dogmas judaicos que o atormentam. Excluindo particularidades religiosas, o que fica é a sensação de que a humanidade sempre se reencontra com seu lado perverso, cabendo escolher entre a omissão ou assumir seu lado obscuro, suas culpas, seus crimes e passando por seus castigos. Sejam eles mutilações exteriores ou a própria prisão interior.
Com cerca de 45 obras cinematográficas no currículo, fica difícil escolher entre tantos ‘Woody Allens’ para compor um post Clássico em DVD. Mas para linkar com os outros filmes tratados essa semana, vamos a uma comédia de situações tão típica do diretor. Pedro Henrique blog Tudo É Crítica nos introduz os temas principais a serem tratados no filme pelo cineasta. “Alguma vez você já fez algo e se arrependeu logo depois? Por mais ridículo que isso possa parecer, você chegou a ficar depressivo(a) e/ou inquieto(a) com isso? Sim? Ótimo. Você está preparado(a). Não? Perfeito. Sua viagem e interação pelos sentimentos múltiplos discutidos por Woody Allen em Crimes e Pecados será de grande valia e de cunho questionativo impressionante. É mais ou menos aí que Allen centra sua história. Contando aventuras paralelas, Woody coloca em pauta os temas recorrentes em sua cinematografia: adultério, moral, religião e assassinato.” Parece um tema interessante , não? O CineReporter Rodrigo Carreiro ajuda a nos contextualizar como os fãs esperavam esse filme de Allen, de acordo com o que ele vinha produzindo na década de 80, no caso longas densos ao estilo bergmaniano. “Boa parte dos maiores especialistas na obra de Woody Allen considera Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors, EUA, 1989) a última das obras-primas que o cineasta nova-iorquino assinou durante a longa e brilhante carreira. Examinado dentro do contexto da época em que foi lançado originalmente nos cinemas, este julgamento faz sentido. Após a poeira baixar, contudo, percebe-se que ele mostra um otimismo algo excessivo, embora o filme seja bom e realize um tratamento cuidadoso de dois temas recorrentes na filmografia de Allen, a culpa e a insegurança sexual. (…) A verdade é que em 1989, quando a película estreou, os fãs de Woody Allen andavam se sentindo meio órfãos do cinema cômico que sempre representou a faceta mais amada do diretor. Havia alguns anos que Woody militava em filmes mais densos, mais psicológicos, profundamente influenciados pelo ídolo sueco Ingmar Bergman. Era um comediante deixando o humor de lado. Sendo assim, Crimes e Pecados foi saudado como um retorno de Allen à comédia, algo que o filme é, e ao mesmo tempo não é. De fato, Crimes e Pecados é uma tentativa evidente de unir, através de duas histórias de adultério bem diferentes em atmosfera, as duas facetas mais conhecidas do cineasta: o cômico e o psicólogo.” Cabe finalizar ressaltando a atemporalidade da obra que com 20 anos depois continua completamente verossímil. Pelo visto a humanidade continuara com suas ‘encanações’ de culpa e existencialismo por toda uma eternidade.
O que posso dizer sobre Se Eu Fosse Você 2 (2009) ? A única coisa elogiável do longa é a importância ambiental no contexto ecológico atual que o filme teve. Afinal a proteção ao meio ambiente está em voga nos dias de hoje e reciclar é demasiado importante, especialmente o papel do roteiro. E foi exatamente isso que Daniel Filho fez, uma reciclagem roteirística do primeiro longa. Nada como repetir a velha receita de bolo de sucesso cinematográfico de filme nacional: humor pastelão e atores globais de renome, o famoso “…E Grande Elenco!” da narração in-off dos trailers. Infelizmente em nosso país tropical explode cada vez mais a tendência de filmes sem cérebro espalhados pelas salas de exibição de shoppings enquanto os cults, os que tem algo a acrescentar, são relegados a salas alternativas presentes apenas nas grandes capitais e que mesmo assim terão exibição por pouco tempo em horários nada acessíveis. São as escolhas que nossas distribuidoras fazem em toda cadeia cinematográfica nacional, que privilegia os hollywoodianos em detrimento dos que podem ter algo a mais a nos transmitir. Mas vamos ao longa em si, que se não essa história aqui vai longe… Se lançarmos um olhar analítico podemos até arrancar do longa uma re-interpretação interessante da psicologia junguiana, principalmente quanto à inversão nos papéis de Animus e Anima que Helena (Glória Pires) e Cláudio (Tony Ramos) passam. Até mesmo os nomes do casal central remetem a arquétipos. A semi-deusa Helena de Tróia, causadora de guerras na Grécia mitológica, representaria o poder da beleza feminina que desperta o instinto de guerrear masculino, tudo para decidir ao final das contas quem a possuíra. E Cláudio é o tio de Hamlet na famosa de Shakespeare, representa o masculino traiçoeiro que exala o tal cheiro podre no reino da Dinamarca, aquele que Hamlet precisa assassinar para em fim ser. Ou não ser… Desta maneira podemos então estabelecer que o Anima é o chamado “lado feminino” presente no subconsciente do homem e, da mesma forma, o Animus é o “lado masculino” dentro da mente feminina. Muitos casais não possuem esse aspecto bem trabalho em sua psicologia e acabam projetando no outro um anima ou animus doente e mal-resolvido. No caso do filme, tanto o primeiro quanto o segundo, estar literalmente na pele do outro pode ser a solução dos problemas buscando a mútua compreensão. Pelo menos por enquanto, até que o próximo raio caia no mesmo lugar e tenhamos o encerramento dessa trilogia “Em um Cinema Perto de Você…”
Parece inquestionável o sucesso de bilheteria que o longa de Daniel Filho Se Eu Fosse Você 2 (2009) está obtendo. O público ultrapassa os 2 milhões aos 20 dias em cartaz pelo país. Com o sucesso de público garantido falta agora convencer a crítica da validade do filme no atual contexto do cinema brasileiro. Vejamos a interessante análise que Robledo Milani do CineRonda faz do tipo de público com o qual o longa dialoga. “Cinema é entretenimento, é diversão, é passatempo. Mas não é só isso. Ou melhor, é muito mais. É também ensino, cultura, arte. E o grande problema dos cineastas brasileiros é não saberem unir estes dois lados. E o novo Se Eu Fosse Você 2 é mais um exemplo deste difícil casamento: fala direto com o público despreocupado, mas ignora completamente qualquer ambição mais elevada. Ou seja, é um bobagem, exatamente como aquela vista há dois anos. Não tem sentido, mas se a piada funcionou da primeira vez, por que não repeti-la? Talvez pelo simples fato de que, por melhor que ela seja, só o fato de ouvi-la outra vez é motivo de bocejos.(…) Se Eu Fosse Você 2 é filme de verão, direcionado para aquele espectador que não tem mesmo costume ir ao cinema, muito menos em ver produções nacionais, mas que está de férias e cansado de ficar em casa assistindo às mesmas coisas na televisão. Assim, vai passear no shopping, e para passar o tempo resolve conferir esta palhaçada. Ele até irá dar duas ou três gargalhadas, mas não mais do que isso. E assim que a projeção acabar, tudo o que irá lhe preocupar será onde jantar, pois certamente terá esquecido tudo o que acabou de ser exibido. Se este é o caminho mais indicado para o futuro do cinema brasileiro, eu não sei. Mas que não me parece muito saudável, disso não há dúvidas.” A conclusão que se tira é que nosso país, onde a educação já é pífia, acaba resultando em uma sociedade consumista e imbecilizada, e é isso que a faz consumir um filme como Se Eu Fosse Você 2, mesmo nacional. Angélica Bito Yahoo! Cinema Brasil faz parte da linha de críticos que não acharam o longa tão ruim assim, afinal divertir-se é preciso. “Novamente dirigido por Daniel Filho, Se Eu Fosse Você 2 traz os mesmos elementos que fizeram o sucesso do filme anterior. Os protagonistas ganham novos e mais complexos desafios nesta seqüência. A boa notícia é que mesmo assim ela consegue ser bem-resolvida. Glória e Ramos encontram-se mais à vontade nos papéis trocados, como se já tivessem sacado como interpretar um ao outro. Aliás, mais uma vez, Ramos rouba a cena como Helena, sendo capaz de arrancar muitas risadas da platéia. Claro que o filme ainda traz aqueles momentos vergonha alheia, o que podem ser deselegantes, normalmente, mas geralmente funcionam junto ao público quando o objetivo é fazer rir. Se Eu Fosse Você 2 é um filme que aposta bastante no sucesso junto ao público. Realizado com o desafio de superar, ou mesmo se igualar, com o sucesso da produção anterior, não deve fazer feio nos cinemas simplesmente por apostar no que já deu certo. Sem correr riscos, não tem muito a perder. E os créditos finais já avisam: uma continuação está a caminho.” Continuação a caminho? Bem vindo à era das trilogias no cinema nacional. Com direito a pipoca e refrigerante combo.
Penso que devo aprender a não criar expectativas para as coisas, especialmente quanto à próxima obra cinematográfica daquele diretor que você tanto admirou. Como vocês podem ver pelo post de Canções de Amor (2007) do diretor francês Christophe Honoré, o filme foi muito marcante para mim. Viciei em sua trilha sonora e até comecei a fazer aulas de língua francesa! Quando soube que um filme novo do cineasta entraria em cartaz, não tive dúvidas de ir assisti-lo com toda a bagagem do longa anterior na expectativa. A Bela Junie (2008) até chega a repetir parte do elenco de Canções de Amor em sua trama. Grégoire Leprince-Ringuet continua no papel de estudante, mas se antes ele tinha dúvidas de sua sexualidade, neste ele é o aluno popular da sala que quer conquistar a belíssima nova aluna Junie. Clotilde Hesme antiga ponta do triângulo amoroso de Canções… agora faz apenas as vezes de uma bibliotecária de caráter duvidoso. E Chiara Mastroianni então? Filha de Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni chega a cantar em Canções…, mas sua participação em A Bela Junie se limita a sentar na mesa de um café e sorrir para a personagem principal. E só! Mesmo Louis Garrel como o professor que se apaixona por Junie, não vai muito além. Um desperdício para um ator tão bom. E A Bela Junie me pareceu justamente isso, um desperdício de atores bons e um diretor com uma sensibilidade crível. Talvez ele não tenha se superado, não por ter se repetido no elenco, mas pela indefinição de como aplicar seu estilo na nova trama. Canções de Amor era um filme musical e ponto. Pessoas cantando no meio da rua ali faziam sentido. Mas A Bela Junie era pra ser um drama/romance, não? Então para que colocar o personagem de Grégoire cantando antes do clímax? Ficou uma cena estranhamente mal-encaixada no contexto da trama. Ou talvez a má-encaixada ali era eu, sentada na cadeira da sala de cinema esperando algo que eu não iria encontrar…





















