Outro dia ao ler o blog no Estadão do crítico Luiz Carlos Merten fiquei intrigada com o adjetido dado por um colega seu ao filme A Bela Junie (2008). “Meu colega Jotabê Medeiros chegou hoje ao jornal disposto a ‘inticar’ comigo, ou seja, a me provocar. Disse que foi ver A Bela Junie e definiu o novo filme de Christophe Honoré como um Malhação existencialista, feito por um repetidor da nouvelle vague. Registrado a opinião do Jota, só para o caso de alguém querer polemizar -- eu adorei o filme do Honoré, mas, enfim, o que esperar de um cara como eu, que não gosta dos Coen?” A parte dessa polêmica de Merten detestar não considerar tão bons assim os filmes do Coen, resolvi investigar mais para ver se outros críticos sinalizaram essa comparação do longa de Honoré com a novelinha global. Edu Fernandes do Cine Pop o faz, de forma veemente. “Junie mudou-se de colégio depois da morte de sua mãe, já que terá que morar com seus tios. Chegando à nova escola ela faz novos amigos, é desejada por Otto, mas apaixona-se por seu professor de italiano. Pela sinopse acima, o leitor pode achar a história de A Bela Junie (La belle personne) muita parecida com o começo de temporada de Malhação. Para ter uma idéia do que o filme traz, basta imaginar o que aconteceria se a novela juvenil fosse produzida por franceses. A conclusão que se chegará será bem próxima do que realmente se passa nas telas.” Já Rafael Ferraz do blog Cinematoca até introduz esta comparação em sua crítica, mas afirma que o diretor vai muito além do que o mero folhetim de trama juvenil. “O primeiro ato de A Bela Junie parece até uma Malhação francesa. Alunos de uma escola secundária gastam mais tempo pensando com que coleguinha vão flertar/ficar do que com as próprias aulas. Contudo, o diretor Christophe Honoré tem um olhar bem diferente da novelinha global: enquanto um professor despeja o conteúdo da matéria, a câmera passa pelos rostos dos alunos, em silêncio. Eles não precisam falar nada. Os olhares já significam muito.” Pelo visto histórias estereotipadas dos conflitos da adolescência vão permanecer nas produções cinematográficas, sejam elas de tom pseudo-verossímel como o finado seriado Dawson’s Creek ou com os tons de dark-vampirismo de Crepúsculo (2008). Agora se isso é reflexo de que nossos adolescentes estão sempre passando pelas mesmas situações ou de que as produções áudio-visuais não estão sabendo acrescentar nada de novo aos conflitos juvenis, é outra história…
Já disse isso várias vezes e torno a repeti-lo neste artigo: ?gosto de analisar um filme embasado no período em que este foi lançado e não no período em que o assisti?. Por quê? Simples. Por uma questão de justiça e ética. Veja os efeitos visuais da clássica versão de ?O Dia em que a Terra Parou?, por exemplo. São todos obsoletos, desde a criação do OVNI sobrevoando os céus de Washington no início do filme, aos raios lasers disparados pelo robô gigante Gort que desintegram as armas dos militares. Não restam dúvidas de que os efeitos visuais do remake que teve a sua estréia nos cinemas mundiais no dia de ontém são bem mais convincentes (apesar de que a probabilidade de serem tão revolucionários quanto é bem pequena), mas deve-se levar em conta a tecnologia adotada para fazer os filmes na época, e a tecnologia utilizada atualmente.
Contudo, se por um lado os efeitos visuais de ?O Dia em que a Terra Parou? podem ser tidos como toscos nos dias de hoje, não há como negar a inventividade contida em seu roteiro. Apesar de contar com um clichê aqui e outro acolá, o longa dirigido por Robert Wise se revela a primeira ficção-científica sobre relações interplanetárias não ofensivas na história do Cinema (e se eu estiver errado, peço, por favor, que me corrijam). Fugindo de baboseiras do naipe de guerras interplanetárias, ou alienígenas que vêm até aqui com o único intento de destruir o planeta (e sejamos francos, por que um grupo de extraterrestres faria uma viagem longa e cansativa com o único propósito de nos destruir, sem mais nem menos? Pessoas como Dean Devlin e Roland Emmerich deveriam pensar nisso antes de criarem asneiras como ?Independency Day?) os roteiristas Harry Bates e Edmund H. North nos oferece aqui um protagonista extremamente interessante: o alienígena Klaatu, que vem à Terra em missão de paz, pedir apenas para que suspendamos o uso de armas nucleares, evitando assim uma destruição do planeta e, consequentemente, do sistema solar.
O filme indaga, a todo tempo, a imbecilidade de nossas guerras e coloca a nossa raça em um patamar imaturo. Apesar de simples, o filme sempre nos remete à reflexões extremamente inteligentes sobre o dúbio rumo que nossos líderes políticos tomam a fim de evoluírem suas respectivas nações. E falando em nações, é incrível vermos a coragem do roteiro que, em plena década de 50 (quando Hollywood vivia a sua Era de Ouro), apresenta críticas severas à política de governo bélica estadunidense.
?O Dia em que a Terra Parou? peca, no entanto, ao criar um desfecho ligeiramente previsível para o seu protagonista. Há uma cena inserida em seu terceiro ato (que é claro, não revelarei qual é, muito menos o que acontece) que nos faz pensar em um final mais dramático, mais imprevisível, mais fora do comum, entretanto, na hora H, Bates e North pulam para trás e conferem a Klaatu um final mais, digamos, corretinho. O que eu tenho contra finais bonitinhos? Nada. Só sei que um desfecho mais trágico faria com que a obra tornasse ainda mais forte a mensagem que almeja passar.
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Mais uma vez Ingmar Bergman realiza uma obra extremamente sensitiva abordando, sobretudo, questões existenciais. Mais uma vez tais indagações são levantadas minutos antes do óbito de uma pessoa. E por mais que estes questionamentos sobre a própria existência, realizados pouco antes da morte de um indivíduo, sejam um estereotipo nos filmes roteirizados e/ou dirigidos pelo maior cineasta da história da Escandinávia (vide ?O Sétimo Selo?, apenas para citar um exemplo), não há como negar que Bergman se reinventa a cada produção por si realizada. Se Antonius Block decidira jogar xadrez contra a Morte personificada a fim de prolongar a sua própria existência e aproveitar o tempo ganho para refletir sobre o sentido da mesma, Karin e Maria, ao verem a irmã Agnes agonizando, tomam ciência de sua invulnerabilidade e passam a fazer a mesmíssima coisa.
Maria reflete sobre um gravíssimo erro que cometeu durante sua vida. Em virtude de uma falha, enfadonha e artificial união conjugal, mesclada à sua visível imaturidade, a bela mulher trai o marido com um antigo namorado, resultando numa tentativa de suicídio do cônjuge, fato que viria traumatizá-la por toda a sua existência. Karin, no entanto, sempre fora uma mulher fiel, porém o seu apego aos bens materiais e a frieza de seu casamento (ainda maior que o da irmã) a transformaram em uma mulher fortemente racional, neurótica, frustrada e insensível. É de Karin que vem aquela que julgo a cena mais marcante do filme: quando a mesma pega um pedaço de uma taça estilhaçada e fixa o olhar para a mesma dizendo: ?___Isto é tudo uma mentira!?.
Conforme o leitor pôde reparar, tanto Karin, quanto Maria, são pessoas insatisfeitas com suas vidas. São mulheres infelizes por terem se apegado à hipocrisias morais e sociais (e nisso, o filme lembra muito ?Persona ? Quando Duas Mulheres Pecam?, meu Bergman predileto). A morte da irmã Agnes serve, não apenas para uni-las mais uma vez (sendo que Karin não nutria o menor afeto por Maria), como também para fazer as mesmas refletirem sobre o quão cruel fora a existência de ambas, o quão elas poderiam ter sido mais felizes e menos desgostosas consigo mesmas caso tivessem dado menos valor à posição social e se preocupado em manter uma relação mais afetiva entre si e a irmã moribunda. Concluindo, a fantástica obra de Bergman faz com que todos nós, espectadores, lucubremos sobre o excesso de racionalidade que as vezes conferimos à nossas vidas, a falta de atenção por nós atribuída até mesmo às pessoas mais próximas de nós e, acima de tudo, à submissão moral que nos impõem paradigmas cada vez mais frustrantes.
Os aspectos técnicos do longa também são um primor. Formando uma perfeita aliança entre direção e fotografia (oscarizada, diga-se), Ingmar Bergman e Sven Nykvist realizam um filme visualmente inesquecível. O segundo conclui um trabalho fascinante e confere ao filme o tom angustiante inerente ao tema abordado por este. É surpreendente vermos que, mesmo trabalhando com cores bastante vivas (sobretudo a cor vermelha que é muito utilizada aqui), o mestre da direção de fotografia consiga ainda a façanha de criar um clima cada vez mais pesado, claustrofóbico e depressivo. Bergman, então, dispensa comentários. Seu trabalho aqui é um dos melhores de toda a sua magnífica carreira. Adotando a magistral idéia de trabalhar mais com as imagens do que com os diálogos (assim como Sergio Leone viria a fazer em ?Era Uma Vez na América?), o diretor sueco aumenta ainda mais a angústia presente em seu roteiro. O destaque fica por conta dos closes que ele realiza logo no início da obra, onde foca precisamente o ponteiro de vários relógios movimentando-se lentamente, técnica esta que colabora para que o filme nos transmita uma fortíssima dose de agonia logo em seu início.
Talvez a única falha do filme seja a falta de uma abordagem mais complexa no que diz respeito às personagens de Agnes e Anna (esta que, apesar de ser uma mera empregada, se mostrava mais preocupada com a moribunda que as próprias irmãs dela), uma vez que o roteiro destina pouco tempo para explorá-las devidamente (e mesmo que as desenvolva de maneira eficaz nas cenas finais, ainda assim não é o suficiente).
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Não é a toa que ?O Sentido da Vida? foi o último filme produzido pela trupe inglesa do Monty Python, afinal de contas, a decadência deste terceiro filme para ?Em Busca do Cálice Sagrado? e ?A Vida de Brian? é mais do que evidente. Contudo, todos os ingredientes do humor que eternizou o sexteto estão presentes neste longa sensacional: temos aqui tiradas inteligentes (vide a seqüência que satiriza o exacerbado número de filhos pertencentes a uma família residente em um subúrbio de Yorkshire), a exploração para lá de satisfatória do humor surreal e dadaísta (vide a seqüência divertidamente inconveniente que interrompe o filme para anunciar que estamos na metade do mesmo e o esquete do transplante de órgãos) e a banalização dos valores éticos, especialmente religiosos, no que diz respeito à postura conservadora adotada pela religião quanto às questões sexuais (vide a já citada cena da família domiciliada em Yorkshire).
As críticas costumeiras e imprescindíveis à confecção do humor Pythoniano também encontram-se presentes neste ótimo exemplar da comédia inglesa. Logo no início, o longa realiza um esquete satirizando à falta de atenção que o sistema de saúde inglês confere aos seus pacientes (é nesta cena que temos a famosa ?máquina que faz ?ping??), em seguida, temos uma condenação mais do que inteligente ao modo como a Igreja Católica centralizou o poder em suas mãos e nas mãos da classe dominante (e logo após esta cena contamos com o clipe da clássica música ?Every Sperm Is Sacred?) e daí em diante o filme dá alfinetadas em tudo aquilo que julga hipócrita, como, por exemplo, a maneira que o conservadorismo religioso impede o avanço científico e tecnológico, bem como o controle da natalidade.
A inteligência que estava contida em ?Em Busca do Cálice Ságrado? e ?A Vida de Brian? também está distribuída de maneira extraordinariamente bem dosada neste ?O Sentido da Vida?, é só observar a metáfora que a trupe faz sobre a origem da vida de acordo com a escala evolutiva de Darwins utilizando para isso efeitos especiais que transformam os seis integrantes do grupo em peixes dentro de um aquário, ou a cena onde temos uma homenagem a Ingmar Bergman e a sua obra-prima ?O Sétimo Selo? quando uma pessoa é enterrada na mesma praia em que o protagonista Antonious Block joga xadrez com a morte, seria o personagem encontrando a morte (não em sua personificada como no filme sueco) no mesmíssimo local.
Mas e quanto ao título ?O Sentido da Vida?, ele é realmente abordado? Bem, sim, mas muito pouco. É evidente que a principal intenção do longa é produzir um humor anárquico e fora de foco, mas há uma cena em especial onde o tema-título parece ser abordado, quando um garçom comenta: ?___ Minha mãe sempre disse que o sentido da vida é levar alegria às pessoas.?. Pois, sinceramente, creio que os Python levaram isso a sério e decidiram virar comediantes justamente por este motivo: levar alegria às pessoas e preencher o vazio existencial de suas vidas. Uma pena que um filme tão primoroso conte com algumas cenas de alto teor escatológico e sem graça alguma, como a enfadonha seqüência em que um grupo militar ruma à selva para recuperar a perna de um de seus soldados e, principalmente, a asquerosa cena envolvendo o Sr. Creosote, o homem mais gordo do mundo.
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Antes do espectador poder se deliciar com o ótimo ?O Sentido da Vida?, Terry Gilliam nos brindou com esse hilário curta que, apesar de ser muito mais longo do que deveria ser, conta com uma boa dose de humor non sense, revelando-se uma espécie de amostra do que poderíamos ver 17 minutos mais tarde no longa ?O Sentido da Vida?. O curta inicia-se criticando a forma como o capitalismo explora e escraviza o proletariado, vemos logo de cara uma eficiente sátira ao excelente épico de William Wyler, ?Ben-Hur?, e, posteriormente, ocorre um hilário motim. Daí para frente o curta vai se mostrando cada vez mais eficiente e o humor característico da trupe vai se tornando cada vez mais inteligente, seja demonstrando toda a sua criatividade (vide o modo como os velhinhos amotinados confeccionam suas espadas e as demais armas) ou o conhecimento de Gilliam em assuntos como economia (?___ E assim, a Crimson Permanent Assurance foi lançada ao mar das finanças internacionais.?). A Direção de Arte também é um espetáculo à parte. Note o cuidado adotado pela mesma ao montar um edifício inglês de arquitetura neoclássica ou um gigantesco prédio contemporâneo em Manhtattam. O que dizer então do cuidado que Gilliam adota ao conferir ao filme certos detalhes que o tornam cada vez mais engraçado, como é o caso das notas fiscais e rascunhos que ficam voando pelo cenário durante uma batalha? Infelizmente, o curta conta com alguns minutos a mais, tornando-se muito cansativo durante o seu desenrolar (só para se ter uma idéia, o mesmo era para ser um esquete inserido em meio ao longa ?O Sentido da Vida?, mas Gilliam o considerou extenso demais para tal e resolveu fazer do mesmo um curta metragem que deveria ser inserido antes da obra principal), mas não há como não notar a eficiência deste.
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O leitor provavelmente já deve ter visto em algum outro filme, série de televisão, ou até mesmo desenho animado, uma cena onde uma pessoa adentra um saloon empurrando a porta com toda a força, ou então alguma outra seqüência onde um indivíduo, após ter sido provocado dentro de um bar, desfere um soco em seu desafeto iniciando uma rixa no estabelecimento comercial, ou então alguma outra cena onde a câmera realiza um horizontal travelling acompanhando lateralmente o trajeto do mocinho e do bandido antes destes iniciarem um duelo. Pois é, todas estas seqüências foram originalmente exibidas no clássico western de Fred Zinnemann, ?Matar ou Morrer?, lançado oficialmente em 1952.
O bang bang tem como principal atrativo o clima extremamente tenso que ele passa ao espectador logo no início. Em seus primeiros minutos já sabemos que a situação que o Marshall (uma espécie de delegado federal) Will Kane se encontra é de extrema urgência. A partir de então, temos uma estória contada em tempo real (outra inovação no Cinema) onde cada minuto desperdiçado aparenta ser de uma fatalidade irreversível ao protagonista da estória. A eficiente edição de Elmo Williams e a direção de Fred Zinnemann, no entanto, conferem ainda mais tensão ao filme e revela-se imprescindível para o resultado final do mesmo. Repare, por exemplo, na inteligente decisão que o diretor toma ao, sempre que possível e conveniente, realizar um close in em um relógio, mostrando o ponteiro deste se movendo lentamente.
Os personagens também são magistralmente desenvolvidos, principalmente se levarmos em conta o pouco tempo que eles têm em cena, e o protagonista, interpretado por Gary Cooper, é o que mais se destaca neste quesito. Longe de ser o esteriotipado xerife durão dos filmes do gênero, Will Kane mostra algumas ressalvas quanto à sua valentia, como na cena em que um personagem lhe pergunta se está com medo de morrer e ele, humildemente, responde que sim. Mas o grande destaque, no que se refere à exploração do protagonista, está nas atitudes do mesmo. Afinal de contas, por que Kane simplesmente não vai embora da cidade, ao invés de confrontar os bandidos, uma vez que ele já se encontra aposentado? Seria por motivos morais? Motivos pessoais? Amor à profissão? Ou talvez seria para proteger a sua própria esposa? E já que mencionei a personagem de Gracy Kelly, devo atribuir um destaque especial a essa, cuja função no filme não é simplesmente ser a bela e meiga mocinha indefesa do mesmo, mas sim conter uma participação crucial no final do longa, quando o resultado do embate poderia ter sido completamente diferente, não fosse por sua intervenção. ?Matar ou Morrer? é, de fato, o pai dos westerns xerife versus bandido e só isto já é o bastante para exigir de todo o cinéfilo uma conferida.
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Jean Renoir foi, inquestionavelmente, um dos nomes que mais serviu de inspiração aos Cinemas moderno e contemporâneo. Antes mesmo de Federico Fellini estabelecer um complexo e contundente panorama sobre as nugacidades adotadas e cultivadas pela alta sociedade a fim de preencher o seu vazio existencial, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em ?A Regra do Jogo?. Antes mesmo de Woody Allen traçar as fragilidades de relacionamentos amorosos alicerçados em um pseudo sentimento de amor, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em ?A Regra do Jogo?. Introduzindo o espectador em sua obra-prima máxima com uma majestosa sinfonia composta por Wolfgang Amadeus Mozart, o filho de Auguste Renoir (um dos pintores impressionistas de maior renome na história da Arte) nos apresenta à filosofia adotada por ele quando o assunto em pauta é o amor: tal sentimento é rotativo e por este motivo é cada vez mais comum nos depararmos com indivíduos de todas as castas sociais que cometam adultérios.
Considerado um dos filmes cults de Arte mais importantes de todos os tempos, ?A Regra do Jogo? utiliza de pano de fundo para retratar a filosofia adotada por Renoir uma suntuosa casa de campo no interior da França onde alguns aristocratas e seus respectivos empregados se unem durante um final de semana para caçar coelhos e faisões. A partir de então somos convidados a conhecer e a conviver, durante dois ou três dias, com um grupo de pessoas fúteis e materialistas. Todos os personagens do longa têm fortes desvios de caráter, porém, se vêem obrigados a maquiar isto perante à sociedade hipócrita e falsa onde vivemos. Homens traem suas esposas, mulheres traem seus maridos, todos alegam que a mentira é uma característica inerente ao ser humano, pessoas se apegam a medidas frívolas e nulas a fim de preencher o vazio existencial presente em seus insossos cotidianos e, no final… bem, no final (um dos desfechos mais imprevisíveis e surpreendentes da história do Cinema) ocorre uma tragédia, tragédia esta que nos faz lucubrar sobre até quando falsos moralismos cristãos irão imperar em nossas vidas (conforme diz um personagem do filme: ?___ Corretos estão os mulçumanos que têm um harém ao seu dispor e podem dedicar o verdadeiro amor à mulher que mais ama, sem precisar desprezar as demais).
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Ao criticar um determinado filme detesto ter que compará-lo a uma outra obra qualquer do mesmo gênero, mas no caso de ?Cassino? e ?Os Bons Companheiros? não há como fazê-lo de modo diferente. Por que? Porque os mesmos foram produzidos nos mesmíssimos anos 1.990, roteirizados pelos mesmíssimos roteiristas, dirigidos pelo mesmíssimo diretor, editados pela mesmíssima editora, estrelados pela mesmíssima dupla de atores (apesar de que este longa conta apenas com a dupla De Niro e Pesci. Ray Liotta, infelizmente, ficou de fora do elenco, quebrando o magnífico trio de ?Os Bons Companheiros?), narrados pela mesmíssima estrutura narrativa e focados no mesmíssimo tema: a máfia. Contudo, há uma diferença básica entre este longa e o dirigido por Scorsese em 1.990: a escalada social de seus protagonistas. Se em ?Os Bons Companheiros? Henry Hill se torna um hábil narcotraficante e, ainda assim, não consegue atingir os mais altos patamares da máfia (uma vez que ele não possui ascendência italiana), em ?Cassino? Sam “Ace” Rothstein (apesar de judeu) se torna um poderoso diretor de uma das propriedades mais lucrativas de sua organização. O resultado da obra? Se por um lado o longa protagonizado por Robert De Niro não se revela tão eficiente, cativante e dinâmico quanto o longa protagonizado por Ray Liotta, por outro lado ele nos realiza uma abordagem mais complexa sobre o apogeu e a queda de seu protagonista (e se você acha que o personagem de Liotta era regado de vantagens, espere só até ver o personagem de De Niro).
A direção de Scorsese é, como de praxe, perfeita e repleta de ângulos e movimentações sensacionais realizados por sua câmera. Note a presteza adotada pelo diretor enquanto este filma a seqüência que ilustra o processo desenvolvido pelos funcionários do cassino dentro da sala de contagem, fazendo uso de todas as espécies de travellings existentes. E o que dizer então da breve cena onde temos a impressão de ter uma câmera dentro de um canudo utilizado para cheirar cocaína? As atuações também estão todas fantásticas e o trio de atores principais conta com uma química simplesmente fenomenal (apesar de estar longe de ser tão boa quanto a dinâmica desenvolvida pelo trio Liotta, De Niro e Pesci em ?Os Bons Companheiros?). O roteiro se revela bastante competente não só ao abordar o apogeu e a queda de seu protagonista, conforme já fora previamente mencionado, como também ao retratar toda a corrupção e a imundice ética e moral presente nos cassinos de Las Vegas. Infelizmente a edição de Thelma Schoonmaker não se encontra no mesmo nível dos demais aspectos do filme. Longe de realizar um trabalho tão eficaz quanto o que fora realizado em ?Os Bons Companheiros?, Schoonmaker deixa de ?cortar algumas gordurinhas? que certamente confeririam ao filme um tom mais ágil e vivo, algo mister a uma obra desta espécie.
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Dentre os filmes de Kurosawa que já tive a oportunidade de assistir, este ?Rashomon? talvez seja o que melhor comprova a genialidade deste como diretor (o que não quer, necessariamente, dizer que seja o seu melhor filme, uma vez que considero ?Os Sete Samurais? um longa ligeiramente superior a este). Logo no início da obra de 1.950 somos brindados com movimentações de câmera para lá de fantásticas. Repare na cena em que um lenhador ruma até o bosque para recolher lenha e Kurosawa o acompanha com um horizontal travelling, fazendo, logo em seguida, o rápido e conveniente uso de um vertical travelling. Posteriormente o diretor posiciona a câmera de um modo que possamos acompanhar o personagem através de um ângulo lateral de 225 graus a sudoeste e, por fim, volta a realizar novamente um horizontal travelling, só que desta vez mais ágil e ousado (pela maneira como impetra o bosque) que o anterior.
Mas o grande trunfo do filme fica por conta da filosofia pessimista adotada por este a fim de abordar a maldade e o egoísmo inerentes à raça humana. Utilizando de pano de fundo para tal o assassinato de um nobre e o atentado violento ao pudor cometido contra a sua esposa, o longa conta com uma primorosa edição que, além de alternar entre passado e presente de maneira sensacional fazendo com que o mesmo ganhe muita dinamicidade e não se revele nem um pouco cansativo, apresenta quatro historietas que narram quatro pontos de vista diferentes em relação ao crime de um modo um tanto o quanto imparcial e detalhista, unindo-os ao final da trama de uma forma simples e nada confusa. Os diálogos são magistralmente fenomenais e, juntamente com o brilhante roteiro, nos faz refletir sobre o quão cruéis e egoístas podemos ser, voluntária ou involuntariamente falando. Por outro lado, em sua cena final, o filme também nos mostra que, apesar de toda a maldade presente em nossa raça, há também gestos benevolentes capazes de tirar parcialmente a humanidade do estado de putrefação que esta sempre se encontrou.
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Certa vez, ao comentar sobre ?O Escafandro e a Borboleta?, mencionei que na próxima ocasião em que me fosse questionada uma posição sobre o que viria a ser, verdadeiramente, Arte, eu aconselharia que o filme de Julien Schnabel fosse assistido, pois, desta forma, a pessoa poderia ter uma idéia mais clara de como realmente seria a minha resposta. Entretanto, falando (ou escrevendo, como ocorre agora) objetivamente, creio que Arte vem a ser o modo como uma pessoa (no caso, o artista) externa os seus sentimentos de maneira individual ou global, tomando por base o mundo em que vive (vale utilizar também um outro mundo qualquer para tal, contanto que sejam empregadas metáforas que nos remetam, direta ou indiretamente, ao mundo onde vivemos, como é o caso de ?O Senhor dos Anéis?, para citar apenas um exemplo). Em ?O Encouraçado Potenkim? o roteirista e diretor Sergei Eisenstein certamente fez Arte, pois externou toda a sua visão com relação ao sentimento esquerdista característico da Rússia de 1925.
Tomando como pano de fundo a revolta dos amotinados a bordo do cruzador Potenkim, em 1905 (período em que o povo russo ainda era subordinado a um Czar), Eisenstein capta todo o sentimento anti-burguês que densamente marcou aquela época. O modo como o motim é retratado aqui faz com que todos nós sintamos na pele a mesma revolta que os marujos locais sentiam. Não há como não nos identificarmos com os mesmos e, de uma certa forma, nos transportamos para dentro da película, almejando fazer parte de toda a ação de uma forma direta. A luta dos protagonistas do filme inspira um sentimento de liberdade jamais visto no Cinema outrora (e confesso que, dentre os demais filmes a que já assisti (e isso inclui até mesmo as obras que foram posteriormente produzidas a ?O Encouraçado Potenkim?), nenhum outro inspirou-me tal sentimento de um modo tão profundo). É a Luta de Classes marxista elevada à sua máxima potência, é a justa revolta de marujos trabalhadores contra seus oficiais autoritários, é o vital e direto embate entre classe baixa e classe alta, operários e burgueses, subordinados e subordinantes.
A direção de Eisenstein é um ponto que torna a temática do filme ainda mais forte do que ela já é por si só. Realizando ângulos fantásticos durante a obra inteira (repare no modo como o diretor posiciona a câmera e cria várias tomadas aéreas durante o motim, ou na maneira como o mesmo foca, em uma única tomada, a clássica cena em que centenas de pessoas descem desesperadamente a escadaria de Odessa), o cineasta russo também mostra total competência no que diz respeito à riqueza de detalhes de ?O Encouraçado Potenkim?, conforme ocorre na seqüência em que, a fim de oferecer ao espectador uma prévia justificativa dos atos que os amotinados viriam a cometer, o diretor realiza um estratégico close em um pedaço de carne sorteado de vermes, retratando o quão inumanos eram os maus tratos pelos quais os marinheiros da época passavam (a propósito, há uma seqüência, logo no início do filme, onde vemos todos os marinheiros dormindo em um cômodo extremamente desconfortável e apertado; uma cena parecida com esta viria a ser utilizada no início de ?Mestre dos Mares ? O Lado Mais Distante do Mundo? com o mesmo propósito). Vale citar também o cuidado que Eisenstein atribui a uma outra cena cujo propósito também é preparar o espectador para uma revolta que viria a acontecer. Refiro-me, é claro, à seqüência em que os amotinados enviam o corpo de um marinheiro que fora morto, pelo simples fato de reivindicar comida, às praias de Odessa. Tal cena viria a causar a revolta de milhares de pessoas que passariam a se aliar aos amotinados do Potenkim e, juntos destes, se revoltariam contra as autoridades locais, fato que deu origem ao conhecido massacre nas escadarias de Odessa.
E já que mencionei tal seqüência, não há como deixar de conferir um único parágrafo deste texto apenas para descrevê-la individualmente. Se ?O Encouraçado Potenkim? conta com um motivo (além dos demais que já foram supracitados e de alguns outros que virão a ser citados mais tarde) que, definitivamente, colaborou para que o mesmo fosse imortalizado, este motivo diz respeito à chocante crueldade conferida em sua mais clássica cena: ?o massacre nas escadarias de Odessa?. Imagine você, caro leitor, vivendo no ano de 1925, em uma época onde o Cinema possuía exatos 30 anos de existência e, mesmo já tendo produzido, há dez anos atrás, um épico violento (e não digo ?violento? no sentido visual da palavra, mas sim no que diz respeito à forte descriminação racial inserida no contexto do filme) do naipe de ?O Nascimento de uma Nação?, se depara com algo tão frio e cruel quanto o massacre civil realizado pelas autoridades russas em Odessa. Não é de se estranhar que tal seqüência tenha marcado gerações inteiras, afinal de contas, é algo que nos transmite repulsas e aflições até mesmo nos dias atuais (imagine então na época em que o longa fora lançado, onde o Cinema era bem mais, digamos, puro e inocente). A dramaticidade de tal cena (que fora reproduzida anos mais tarde em um formato um pouco diferente no longa ?Os Intocáveis?) se torna ainda mais poderosa após vermos uma mãe carregando nos braços o filho, que acabara de ser pisoteado, suplicar clemência às tropas czaristas, que não se conscientizam com o pedido. A propósito, se alguém me pedisse para citar uma única imagem que resumisse o filme inteiro, esta certamente seria a eleita.
Por fim, encerro este texto comentando outro aspecto que fez de ?O Encouraçado Potenkim? um longa inovador e marcante: a edição do mesmo. Sobrepondo inúmeras imagens a fim de construir uma narrativa seqüencialmente estruturada, Eisenstein cria aqui uma revolucionária edição que conclui magistralmente a manipuladora (e digo isto no sentido positivo da palavra) função de conferir ao seu público o sentimento de afronta que o cineasta realmente desejava transmitir ao mesmo. ?___ E tal manipulação não torna o filme todo um tanto o quanto parcial?? ___ Me pergunta o astuto leitor. E eu respondo esta pergunta empregando, para tal, uma outra pergunta: ?___ Existe uma forma de retratar tal barbárie de modo imparcial??. Seria o mesmo que exigir de Steven Spielberg uma abordagem imparcial do holocausto retratado em ?A Lista de Schindler?. E, neste caso, Eisenstein não apenas criou uma verdadeira obra-prima, como também, da mesma forma que Steven Spielberg, colaborou imensamente com a humanidade, possibilitando que um dos atos mais imbecis que a nossa espécie já fora capaz de cometer ficasse eternamente gravado em nossas mentes, para que assim façamos o possível a fim de evitar que barbaridades de tal natureza venham a ocorrer novamente.
Publicado por: Daneil Esteves de Barros -- www.cine-phylum.blogspot.com





















