Surpresas do Mundo Subterrâneo

o-labirinto-do-fauno-1Sabe aqueles filmes que são uma total surpresa, aqueles que você vai ao cinema assistir sem nem ao menos saber direito a trama e acaba tendo a deliciosa sensação de ter visto um dos melhores filmes da sua vida? Pois é, isso aconteceu comigo em O Labirinto do Fauno (2006). A única coisa que eu visualizara do filme antes de vê-lo foram os outdoors com as assustadoras fotos do fauno, e hoje isso nem teria sido possível graças à esmagadora lei cidade-limpa que impera em minha cidade.  Portanto, com o pouco que eu sabia, achava que o longa era um terror e ponto. E cabe agora vaiar a distribuidora brasileira do filme que o vendeu como tal, fazendo com que muitas pessoas deixassem de ir ao cinema por conta disso. Mas ainda bem que tive um iluminado amigo cinéfilo que me aconselhou: “Vá e assista o Labirinto do Fauno. Não vou te contar nada sobre o filme e não procure saber sobre ele. Vá com o elemento surpresa e prometo que você não irá se arrepender.” Agradeço a ele até hoje. Ao vislumbrar o longa de Guillermo Del Toro seria muito fácil enveredar para o caminho comparativo com a trama de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. Mas a personagem Ofélia consegue enfrentar uma realidade muito pior do que um coelho branco gritando em sua orelha “É Tarde! É Tarde! É Tarde! É Tarde! É Tarde! Ai, ai. Meu Deus. Ai, ai. Meu Deus. É Tarde! É Tarde! É Tarde!”. Seria mais fácil estabelecer como referência Guernica, famosa pintura de Pablo Picasso sobre o bombardeio sofrido pela cidade espanhola em meio a uma Guerra Civil e a ditadura franquista. Ofélia parece querer fugir da triste realidade de bombas, assassinatos e crueldade para se refugiar como princesa no mundo subterrâneo. Mas esta é apenas uma das infinitas interpretações que podemos extrair do filme, e é justamente este aspecto do roteiro que dá força a ele, a ambiguidade entre o que é imaginado ou vivido. Vale ressaltar também o marcante aspecto visual do filme que possui uma impecável direção de arte (que engloba a cenografia), direção de fotografia, além dos figurinos e da maquiagem. E como é belo assistir tamanho espetáculo visual com um argumento tão bem amarrado e conduzido, estrelado por grandes e talentosos atores do cinema hispânico. Parabéns ao mexicano del Toro por sua obra-prima, e que venha O Hobbit com muito mais fantasia e deleite.

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Ofélia no Mundo do Fauno

o-labirinto-do-fauno-2Uma garotinha chamada Ofélia imagina ser uma princesa do mundo subterrâneo que precisa cumprir as tarefas designadas por um fauno para voltar ao seu lugar original. No seu chamado mundo real temos guerra civil e ditadura. Paradoxalmente, um dos aspectos mais instigantes do longa O Labirinto do Fauno (2006) é distinguir a realidade da ficção. Marcelo Carrard em artigo no Boca do Inferno esboça o que faz parte ou não do mundo da personagem principal. “O Mundo Real é marcado de cenas fortes de violência com direito a tortura, sadismo, hemorragias, mandíbula rasgada e posteriormente costurada e muitos tiros. O Mundo Imaginário vivido por Ofélia é marcado por descobertas muito intensas que começam a acontecer quando ela entra no Labirinto do Fauno, guiada por um misterioso inseto. O encontro com o Fauno e sua fantástica caracterização lembra muitos encontros de Contos de Fadas como os da Bela e a Fera e de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo, todos com um implícito conteúdo erótico. A transformação de um repelente louva-deus em uma fada lembra o encontro de Wendy com a Fada Sininho de Peter Pan, sem contar as leituras mais diretas e referentes como Alice no País das Maravilhas e As Mil e Uma Noites, com as referências contidas nas palavras do Fauno que afirma ser Ofélia uma Princesa do Mundo Subterrâneo.” As referências presentes do roteiro de Guillermo del Toro provavelmente foram as mais variadas possíveis, mas a mais evidente delas seria a do clássico de Lewis Carroll, como nos conta  Vinicius Vieira do Cranik “É impossível ver O Labirinto do Fauno e não se lembrar do clássico Alice no País das Maravilhas, não o desenhinho da Disney e sim o ácido livro de Lewis Carroll, tanto o filme do mexicano Guillermo del Toro quanto o clássico da literatura, nos colocam em uma viagem a um mundo que beira uma loucura, onde o certo nem sempre é muito certo. Alice vai atrás do coelho branco em sua toca, e lá acaba encontrando um mundo reinado sem piedade por uma rainha que não pestaneja antes de cortar alguma cabeças, do outro lado Ofélia é obrigada a viver em um mundo que não a quer por perto, onde ela é apenas a filha da mulher que carrega na barriga a próxima geração de um capitão da ditadura franquista dos anos 40 na Espanha, que faz de um moinho no meio da floresta seu mundo distorcido onde o certo e o errado é ditado por ele próprio. Do mesmo jeito que a garota loirinha do livro quer voltar para casa, Ofélia quer apenas alcançar um mundo mágico no qual seu pai a espera com status de princesa, seu lar de verdade.” Bruno Galiza em Cinema em Cena encerra a comparação de Ofélia com Alice no confronto base do quanto a realidade é no universo da personagem as vezes indistinguível do imaginado. “As influências mais do que claras de contos de fada (em especial Alice no País das Maravilhas, com direito a indumentária e portas miúdas), são um elemento metalinguístico forte, que gera um dos conflitos que move o filme: estará Ofélia imaginando tudo ou o fauno existe mesmo? As pessoas que vivem a sua volta, como Mercedes, uma das pessoas que trabalha na casa e esconde um segredo que mais tarde trará grandes consequências, diz a ela que faunos não são confiáveis e que acreditava em fadas na infância, mas que agora não crê mais nessas coisas. Sua mãe, que carrega no útero o filho homem do capitão, sendo esta, declaradamente, sua única utilidade no mundo, também grita que não existe magia, não existem faunos e que o mundo é menos bonito do que Ofélia o força a ser. Esta discussão, inclusive, torna mesmo o mundo encantado que só a menina conhece e para o qual luta para voltar um mundo feio, com criaturas decadentes e elementos de horror muito claros. O próprio filme sucede em se posicionar como um filme de horror, tanto psicologicamente (se Carmen morrer, onde vai parar Ofélia?) quanto em termos de imagens, mesmo estas se subdividindo em duas instâncias: o mundo real (pessoas sendo assassinadas friamente e através de meios cruéis por homens fardados) e o mundo encantado (criaturas devoradoras de crianças que têm olhos nas mãos).” Se é realidade ou fantasia na cabeça de uma garotinha aí está uma questão crucial para o longa. Mas ai está também o seu encantamento, pois conduzir o espectador a tirar suas próprias confusões instiga o mistério, a fantasia e a esperança.

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Sim, É Tudo Massinha!

coraline-a-blogueiraE eu que pretensiosamente enchia a boca para falar que O Estranho Mundo de Jack (1993) era uma criação exclusiva do Tim Burton, diretor cujo estilo mórbido e macabro consegue ser ao mesmo tempo encantador em sua trama e marcante em seu acabamento visual. Só para citar alguns de seus trabalhos temos Batman (1989) e Batman – O Retorno (1992), Edward Mãos de Tesoura (1990), A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999), Peixe Grande (2003), A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005) e Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007). Como eu dizia, se O Estranho Mundo de Jack estampa o nome do diretor penso que foi apenas por uma questão comercial e pelo fato do argumento do filme ser dele. Mas o verdadeiro responsável pela magia do visual stop-motion do filme é Henry Selick. E agora, 16 anos (!) depois somos presenteados com um novo vislumbre de visual gótico, mas agora muito mais profundo e existencial com Coraline e o Mundo Secreto (2009). Cabe destacar que nesses 16 anos Selick se dedicou também a concepção visual de James e o Pêssego Gigante (1996). A questão da demora também se deve ao fato de, mesmo com várias inovações tecnológicas e digitais, a técnica de animação em stop-motion ainda exige a arte quase artesanal de construir bonecos e cenários de massa de modelar e infinitamente fotografá-los, “mexer um pouco a massinha” e então fotografá-los novamente. Porém o resultado final é deslumbrante, fico imaginando se tivesse visto o longa em 3-D. E para não ficar apenas no campo visual do filme, a trama em si é muito profunda e instigante. O roteiro é baseado no livro homônimo de Neil Gaiman, que apenas conhecia por seus trabalhos na graphic novel Sandman. Cabe também ressaltar que já faz tempo que deixei de subestimar as animações como algo que cabe apenas no universo infantil. Prova disso são os questionamentos que nós adultos podemos tirar de produções como Wall-E (2008), Happy Feet (2006) ou Bee Movie (2007). Mesmo assim fiz questão de levar minha priminha de 10 anos para assistir Coraline comigo, tanto pela temática do filme ser mais “dark” e assim ela talvez perder o medo do escuro, quanto pelo fato da personagem ter a mesma idade que ela, o que poderia gerar como consequência uma identificação quanto aos conflitos que ambas vivenciam. Após a sessão eu estava tagarelando sem parar sobre o quanto havia gostado do longa, e minha priminha estava silenciosa. Questionei-a sobre o que achara do filme e ela apenas se limitou ao “achei legal”, mas notei o quanto ela estava quieta e pensativa, refletindo sobre o que acabara de ver. Excelente, pois mais uma criança sai do mundo de fantasia e a transporta para o mundo real, sem mentiras, falsidade, estupidez, subestimação ou irrelevância.

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3-D e Comparações

coraline-a-criticaComo era de se esperar, alguém se comprometeria a comparar o artesanal stop-motion de Coraline e o Mundo Secreto (2009) com as animações da Pixar. O Portal Cinema se detém justamente em comparar o trabalho de Henry Selick com os longas da Pixar. “Este Coraline exterioriza essa portentosa essência do cinema de animação, porque nos oferece uma bela história mágica que nos é contada através de magníficos efeitos visuais recheados de cor que sem ser sérios, conseguem transmitir uma amplitude de ideias a qualquer faixa etária. (…)As animações de Coraline podem não ter o pormenor das obras da Pixar ou da Disney, mas têm uma qualidade igualmente forte porque apostam na essência da imaginação, a magia do pensamento. É óbvio que Coraline não está ao nível de WALL-E ou Kung-Fu Panda mas sem ser um filme brilhante, consegue impulsionar a imaginação de qualquer espectador de qualquer idade através da sua agradável história e do seu fantástico visual.”  Já Débora Silvestre no Pipoca Combo faz a sua aposta que o longa configurará em 2010 como candidato ao Oscar de melhor animação. “ ‘Assim é… se não lhe parece’. Essa é uma boa frase pra definir Coraline e o Mundo Secreto (…) A animação é uma obra-prima que fica muito mais deliciosa se assistida em 3D. Com certeza, um forte candidato ao Oscar de melhor animação em 2010. Na tela do cinema, os dois mundos de Coraline ganham vida de forma espetacular e nos fazem pensar sobre o nosso próprio mundo e um suposto mais feliz.” E Janaina Pereira do Herói encerra manifestando a vontade de ver a obra em seu formato 3-D.  “O filme impressiona pelas cores fortes e riqueza de detalhes feitos com moldes, roupas e cenários reais. Coraline e o Mundo Secreto é a primeira animação stop-motion a ser filmada em 3D estereoscópico. Não assisti a versão 3D, o que não comprometeu em nada, mas dá vontade de ver tudo aquilo feito com tanta perfeição no formato para o qual ele foi concebido. Simpático e envolvente, o filme é para ver, rever e se apaixonar pela menina esperta de vibrantes cabelos e unhas azuis.” Fica a dica para apreciar o formato em 3D e cruzar os dedos para que Coraline realmente esteja entre os indicados ano que vêm, porque esse ano só deu WALL-E (2008). E  finalizo indicando o site Cabine Celular (antiga coluna do blog Cinema com Rapadura) onde Maurício Saldanha grava em vídeos suas impressões sobre o filme logo após a projeção. Veja abaixo suas primeiras impressões de Coraline.

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Corra, Verônica, Corra!

veronica-a-blogueiraPode ser mesmo que eu tenha pegado pesado na minha crítica a Se Eu Fosse Você 2 de Daniel Filho. Sendo assim, se não há problema nenhum no fato do Cinema Nacional produzir uma comédia de apelo popular com alta rentabilidade em bilheteria, qual seria problema que o diretor Maurício Farias proponha ao público um filme brasileiro de ação. Longe de expor efeitos especiais exagerados e pancadaria gratuita, o longa Verônica (2009) traz como pano de fundo a profissão de professor que se cruza com a de protetor de seus pupilos do mundo do crime. Na trama a personagem que dá nome ao longa é visceralmente interpretada por uma inspiradíssima Andrea Beltrão. A personagem-título é a típica professora de escola pública, cansada e abalada pela profissão maçante e desgastante. Ela precisa conviver diretamente com os milhões de problemas de um aluno de comunidade carente, como a fome, a violência e o envolvimento com o tráfico, com a criminalidade.  Mas ela nunca ia imaginar que precisaria correr de policiais e traficantes para proteger um pupilo seu. É difícil dizer se a personagem assumiu tamanha responsabilidade por senso materno de proteção da criança ou senso de cidadania, responsabilidade, moral e ética. Ela agarra na mão do menino e corre, corre e como corre. E é nesses momentos que deslumbramos o ímpeto de ação do filme. O longa Verônica pode até carregar alguns clichês dos ditos favela-movies (apesar de detestar usar esse termo tão pejorativo e simplista) como o uso de não atores e as tomadas de imensos planos-sequencias sobre barracos e suas caixas d’água azuis. Apesar da proposta de ser um filme de ação nacional, esqueça uma conclusão óbvia ou idílica para a trama. Ao final da película cabe a nós refletirmos a situação da personagem, de seu protegido e de toda nossa sociedade que está fortemente a mercê das forças de poder, sejam elas governamentais, policiais ou criminosas. Ao final é tudo uma mesma coisa, todos no fundo de poço lamacento escuro e sem saída.

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Eita Mulher Porreta!

veronica-a-criticaVerônica (2009) foi um dos poucos lançamentos nacionais neste início de 2009, juntamente com o estrondoso sucesso comercial de Se eu Fosse Você 2 (2009). Como nos conta Angélica Bito Yahoo! Brasil Cinema, o filme tem como proposta se lançar como um filme de ação nacional, que sempre optou por oscilar entre drama e comédia apenas. “Na cinematografia brasileira, não há muito espaço para filmes de ação -- em comparação aos dramas, por exemplo -, tão populares quando falamos de Hollywood. Verônica, novo longa de Maurício Farias (O Coronel e o Lobisomem), tenta explorar esse vazio. Tenta, mas não consegue. Salvo pela excelente atuação de Andréa Beltrão -- que abandona a já consagrada carreira relacionada às atuações cômicas para construir uma personagem cansada do magistério -, o filme pode ser considerado uma perda de tempo. Principalmente pelo roteiro, que não se sustenta, levando o espectador mais do que o tolerável às referências que busca no cinema de John Cassavetes e seu Gloria (1980).” O Blog Cinema Falado de Luciano Ramos dá crédito imenso à Andréa Beltrão como a grande força por trás do longa. “Além da atuação do estudante Matheus de Sá (nas fotos com Andréa), outro mérito é o trabalho da própria Andréa Beltrão (Rio de Janeiro, 1964) que atribui vida real à personagem, representante dessa categoria profissional tão desrespeitada pela sociedade brasileira, aviltada pelo estado, ignorada pelas elites econômicas e esquecida pelo cinema. Farias dirige corretamente, com segurança nas seqüências de ação e suspense. O único ponto fraco de Verônica está mesmo na dramaturgia, que não consegue encontrar um desfecho para a trama à altura da maneira como foi aberta, levantando tantas questões tão importantes para o país.” Diego Benevides no Cinema com Rapadura arremata com seu comentário engrandecendo a força que Beltrão imprimiu em sua personagem como compensador pra um filme que no todo não faz jus a sua interpretação. “Andréa Beltrão é a responsável por trazer a grandeza de Verônica à tona. O filme não é inovador e pode-se até imaginar o desenrolar dos fatos e os conflitos que Verônica e Leandro passarão, mas é a competência e naturalidade de Beltrão que dá relevância à trama. Verônica nunca deixa de ser interessante. Leandro, mesmo sendo o motivador de tudo, acaba ficando em segundo plano. Ali é a história de uma brasileira que precisa correr para viver. Verônica corre quase a la Corra, Lola, Corra. O que é mais importante observar da história é como a protagonista precisa se virar dentro de uma sociedade cujas regras nem no papel estão.(…) O produto final dá um gostinho de que aquilo já foi visto, mas que mesmo assim valeu a pena acompanhar a virilidade de Verônica, a protagonista. É de grandes personagens que o cinema nacional precisa. Não adianta inserir violência, sexo e drogas para fazer sucesso. O que adianta é ter a consciência de que um grande personagem pode oferecer uma ótima história. Verônica o faz, mesmo que não completamente.” Como Beltrão declarou em entrevista a Folha de S.P. talvez ela consiga mesmo o que tanto almeja, ser a Bruce Willis do cinema nacional.

O Passado como Alimento dos Loucos

crepusculo-dos-deuses-a-critica1A década de 1920 foi extremamente marcante para a história do Cinema. Em apenas 10 anos o público de todo o mundo contemplou o auge e a decadência do dito cinema-mudo. Alguns astros e profissionais do cinema souberam ser resilientes às mudanças impostas pela indústria e continuar em uma trilha bem sucedida, a exemplo da Greta Garbo e do diretor Cecil B. DeMille. Mas outros tantos ficaram para trás amargurando o fracasso e o esquecimento. E foi este gancho que o diretor e roteirista Billy Wilder aproveitou para fazer sua grande obra-prima, Crepúsculo dos Deuses (1950). A trama se passa exatamente no contexto histórico do cinema clássico hollywoodiano, já sonoro mas ainda preto-e-branco e com personagens predominantemente fumantes graças ao lobby das indústrias tabagistas. O longa possui cenas absolutamente lindíssimas e marcantes, como a do corpo de Joe Gillis (William Holden) boiando como um espectro fantasmagórico na piscina da mansão de Norma Desmond (Gloria Swan). Alias é dela boa parte do mérito e força do filme, afinal a personagem é assustadora, não como um filme de terror, mas quanto à triste constatação de como o tempo e a ilusão podem limitar os olhares e apagar qualquer noção de realidade. Norma era uma estrela do cinema-mudo esquecida (assim como sua intérprete), mas que estava insanamente louca para voltar aos holofotes. Tão insana que seu mergulho na ilusão funciona como um turbilhão sufocante que arrasta todos a sua volta, como seu serviçal Max von Mayerling (Erich von Stroheim) que alimenta e reforça as paranóias da patroa. Outro ponto alto do filme é a presença de antigos profissionais do cinema-mudo como Anna Q. Nilson, Ray Evans, Jay Livingston, Hedda Hopper e H.B. Warner, todos exercendo os papéis de si mesmos como fracassados e esquecidos, Algo totalmente triste e melancólico. Estas participações especiais têm seu ponto forte em duas figuras. A primeira delas é Cecil B. DeMille, interpretando ele mesmo como o diretor a qual Norma ainda credita o seu retorno triunfal. E a outra dela é a do ator Buster Keaton. Impressionante como em poucos segundos e alguns olhares ele transmite o seu jeito de fazer rir em suas grandes obras, como A General (1927). Me fez recordar uma cena de Os Sonhadores (2003) de Bertolucci, que se passa em 1968, em que Matthew (Michael Pitt) e Theo (Louis Garrel) discutem quem foi melhor, Chaplin ou Keaton. Uma discussão que perdura até hoje entre cinéfilos, provocante debates tão calorosos como o enfrentamento entre torcedores de times de futebol rivais. E esta ao final é o grande trunfo de Crepúsculo dos Deuses, presentear os cinéfilos com grandes menções da história do cinema mantendo o tom crítico e totalmente verossímil. Bem, fica aqui então a minha dica para quem deseja fugir da fantasia em torno da áurea carnavalesca. Sem ilusões, cheia de anseios e desprovida de sanidade.

Crepúsculo dos Deuses 1 Comentário
A Metalinguagem da Cinematografia Fracassada

crepusculo-dos-deuses-a-blogueiraA metalinguagem é aquela figura de linguagem que exprime a situação em que a obra fala sobre a concepção de si mesma. No caso de Crepúsculo dos Deuses (1950), Billy Wilder faz um filme que fala sobre a indústria cinematográfica, mas em seu viés de fracassado e esquecimento. No blog Crítica de Radamés Manosso comenta essa opção feita pelo diretor. “Crepúsculo dos Deuses é cinema falando sobre cinema. Alguns de seus personagens são figuras reais como o diretor Cecil B. DeMille, que representa a si mesmo. A meta arte (arte que fala sobre si mesma), costuma dar maus resultados, mas não é o caso de Crepúsculo, pois o filme não gira em torno do umbigo do artista. É uma história universal sobre a decadência que calhou de ter artistas como personagens. Isso faz sentido porque o artista de cinema é um dos que mais sofre com a decadência e o competitivo mundo do cinema costuma deixar muitos na soleira da porta amargando o fracasso ou o esquecimento.” Kamila Azevedo no blog Cinemateque comenta também a presença de atores que foram grandes estrelas do cinema mudo. “Produzido em 1950, Crepúsculo dos Deuses é, antes de tudo, uma crítica ao lado sombrio do ser humano e à indústria cinematográfica hollywoodiana (especialmente ao fato de como ela descarta seu passado rapidamente). No entanto, mais do que isso, o filme é uma lição de como se fazer cinema. Em tela, vemos personagens fracos e moralmente ambíguos, uma direção de arte luxuosa, participação de nomes conhecidíssimos (como Buster Keaton, a jornalista Hedda Hopper e o diretor Cecil B. De Mille) e gravações em ambientes externos reais (e não recriados em estúdio). Com certeza, é um dos melhores filmes produzidos por Billy Wilder e uma obra que rendeu algumas das cenas mais clássicas do cinema – só para citar uma: o momento final do filme, em que uma lunática Norma Desmond olha para as câmeras, prestes a brilhar por uma última vez e diz: ‘All right, Mr. De Mille, I’m ready for my close up’. E Breno Lemos Pires no blog Luzia – Crítica de Cinema finaliza congratulando o diretor Billy Wilder pela maestria desta obra. “Nos arredores daquele mesmo boulevard, em que o sol se põe, um mito aparentemente inabalável é vulnerabilizado, trazido ao patamar da humanidade e perde o encanto, a ponto de parecer desumano. Esse trabalho hercúleo foi executado com maestria por Billy Wilder — diretor de obra vasta e plena, que circulou por vários gêneros e estilos de filme e encontrou em Sunset Boulevard uma obra-prima. O que ele desmitifica? O Olimpo do cinema mundial: Hollywood.” E que tal aproveitar o Carnaval para desmistificar a intocável Hollywood? Boas pipocas carnavalescas.

Crepúsculo dos Deuses Seja o 1º a comentar
Um Soco Direto na Mente

o-lutador-a-blogueiraLembro-me com clareza a primeira vez que vi um filme de Darren Aronofsky. Foi em 2004 quando eu morava no interior de São Paulo em uma cidade chamada Rio Claro. Eu fazia faculdade lá (vocês nem imaginam do que) e confesso que foi um choque cultural imenso sair da megalópole paulistana e ir morar em uma cidade que possuía apenas 2 (!) salas de cinema. A minha redenção era meu vídeo-cassete e o fato da locadora ser a poucas quadras da república. Outra coisa maravilhosa era o Centro Cultural da cidade que possuía um cine-clube sempre com filmes interessantes escolhidos de acordo com um tema mensal, e naquele mês especificamente o tema era drogas. Foi ali que vi Trainspotting (1996) pela primeira vez… Calma, eu sei que este longa é do Danny Boyle. É até bom eu estar contando essa história aqui agora, pois quando eu fizer o post do Quem Quer Ser um Milionário? (2008) eu não preciso repeti-la. O impacto foi fulminante e a interpretação de Ewan McGregor absolutamente marcante. Mas na semana seguinte o filme do cine-clube era Réquiem Para um Sonho (2000), esse sim de Darren Aronofsky. É muito difícil descrever, mas a sensação física e psicológica de quando assisti ao filme foi a de que eu tinha levado um grande murro no estômago e de que minha mente não conseguiria processar certas coisas com clareza por um bom tempo. E neste último domingo, 15 de fevereiro de 2009, enquanto eu estava dentro de uma sala de cinema “escapando” de um jogo do São Paulo e Corinthians, que mais tarde descobri que terminara empatado e com brigas ao final, eu sentia a mesma sensação que em 2004 eu tive naquele cine-clube. E desta vez não era a carreia de  Ellen Burstyn que Aronofsky ressuscitava, era a de Mickey Rourke. As cenas mais chocantes são as das infindáveis e coreografadas lutas que Randy “The Ram” Robinson encena. E possível sentir cada suspiro decadente e cada grito de liberdade que ecoa de sua mente sufocada por uma opção de vida que está pra lá de estagnada. Cabe citar especificamente a cena em que ele luta com Necro Butcher, um lutador profissional que interpreta ele mesmo no longa, assim como muitos outros que aparecem no decorrer da trama. Há tanto arame farpado, grampos e sangue que fica difícil dizer se a maior dor de Ram é a que ele sofre dentro do ringue, ou é a dor de ser negado tanto pela filha quanto pela stripper (Marisa Tomei) que ele ama platonicamente. É um filme duro, sufocante e instigante. Nos leva a refletir como as escolhas feitas em nossa vida vão culminando como um gargalo a medida que envelhecemos, nos restringindo, nos assustando e nos desumanizando.

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A Fênix Rourke

o-lutador-a-critica2Não deu outra. A crítica como um todo monopolizou suas opiniões quanto ao longa O Lutador (2008) enfatizando o quanto este fez com que o decadente ator Mickey Rourke ressurgisse das cinzas como a boa e velha Fênix. O Blog Cinema & Afins Destaca o favoritismo a melhor ator para o prêmio da Academia. “É difícil não comparar o filme com a própria biografia do ator, afinal no auge nos anos 80, ele resolveu se dedicar ao boxe profissional , e desde lá , foi fazendo papeis pequenos em filmes pequenos. Em 2005 ressurgiu das cinzas para participar filme Sin City, a adaptação de uma história em quadrinhos de Frank Miller, aonde encarnou o papel de Marv e  com seu rosto completamente desfigurado  (decorrente as cirurgias plásticas)  o personagem caiu como uma luva (com perdão o trocadilho)  para  Rourke. Mas só agora em uma atuação poderosa  ,e premiada  ( o ator já abocanhou o globo de ouro e o Bafta  e tem grandes chances de ganhar o homenzinho) , aonde suas emoções  são guiadas pelos os olhos,  Mickey Rourke  pode colocar pra sempre o seu nome na história do cinema.” Neusa Barbosa do CineWeb afirma que não foi apenas a carreia de Rourke que ressurgiu, mas também a do diretor Darren Aronofsky. “O Festival de Veneza é palco de grandes lembranças para o diretor Darren Aronofsky. Em 2006, pelas vaias – merecidas- que teve de ouvir contra o desastroso A Fonte da Vida. Um filme que fez pensar que seu talento, revelado em Pi (98) e Réquiem para um Sonho (2000), havia se esgotado. Na edição de 2008 do mesmo festival, Aronofsky renasceu íntegro desse desastre com a consagração de O Lutador, que não só arrancou aplausos desde sua primeira sessão como venceu o Leão de Ouro. O outro fênix que renasceu brilhantemente das cinzas com este filme poderoso foi seu protagonista, Mickey Rourke. Na pele de Randy ‘the Ram’ Robinson, brilha um Mickey Rourke irreconhecível, fisicamente destruído, aparentando mais do que os seus 56 anos, com longos e desgrenhados cabelos louros, que em nada lembra o galã do hit sensual Nove e Meia Semanas de Amor (86) e o jovem ator promissor de O Selvagem da Motocicleta (83) . Um detalhe que serve à perfeição ao seu personagem, um lutador de luta livre envelhecido, doente e com carreira e vida pessoal em queda livre. É a volta por cima de Rourke, também, cuja carreira mergulhou no ocaso há anos, apesar de alguns ocasionais bons momentos, como a participação em Sin City (05).” E finalmente, Rubens Ewald Filho no Blog da Redação no UOL disserta todo o seu desprezo pela figura de Rourke, e da injustiça que pode estar sendo feita ao lhe entregar a estatueta dourada. “Embora em momento nenhum admita que tudo aquilo é mentiroso, nem tenha qualquer pretensão em denunciar qualquer coisa, sua opção foi mostrar aquele mundo pelo ponto de vista de um lutador decadente, quase patético, no fim de carreira -- recurso muito usado em dezenas de filmes de boxe. Também mantém a dignidade deles, nunca os deixa cair na caricatura, sempre respeita as figuras como seres humanos. E, a bem da verdade, o filme não daria certo com outro ator a não ser Mickey Rourke. Imagine, por exemplo, Dwayne “The Rock” Johnson, no lugar dele. A questão a discutir é se Mickey é o personagem ou o ator. Como Hollywood adora um retorno, fica difícil separar as coisas. (…) Mas ele é um exemplo de como destruir uma carreira. Porque foi justamente o que fez Rourke, um cara que pirou, que se autodestruiu. Logo depois, largou o cinema para virar boxeador, apesar de ter mais de trinta anos. Enfim, o resultado você vê agora em seu rosto, que é deformado, reconstruído, trazendo a marca de seus erros e descaminhos. Virou um monstrengo, uma figura que no entanto não perdeu seu tom pretensioso. Que continua acreditando no mito que ele mesmo inventou e que o diretor Darren Aronofski soube tão bem utilizar.Não sei, porém, se isso é interpretação e merece prêmio, porque ele não construiu um personagem. Simplesmente, foi ele mesmo.”  Se Rourke foi ele mesmo ou interpretou algo, não deixa de ser uma imenda redenção, uma segunda chance para alguém que quase desistiu de si mesmo no círculo de auto-destruição e auto-flagelação.