Logo de cara já quero deixar claro um “pequeno” detalhe. Não, não vou me prender a ficar aqui comparando Beleza Americana (1999), consagração de Sam Mendes, com Foi Apenas um Sonho (2008) do mesmo diretor. Vou me limitar a dizer o seguinte. Em Beleza Americana os personagens eram alegóricos, funcionando como marionetes para uma crítica em tom sarcástico do imenso vazio existencial e moral da moderna sociedade norte-americana, cujos indivíduos tentam compensar essa situação com o seu viés consumista e manipulador. E ponto. Foi Apenas um Sonho vai muito, muito além disto. Um filme absolutamente maduro e perturbador, por justamente tratar uma situação tão parecida, as feias verdades por trás da beleza plástica do American Way of Life, mas de forma muito mais contundente, profunda e dramática. A temática de Foi Apenas um Sonho expressa esta profundidade na característica universal e atemporal que acaba abordando: os relacionamentos amorosos e a instituição casamento. Garanto que qualquer pessoa do planeta, não importa a cultura por trás das opiniões individuais, irá se identificar com os conflitos vividos por Frank e April. O casal é interpretado por Kate Winslet e Leonardo diCaprio. Apague da sua mente o blockbuster Titanic (1997) e o casalzinho idílico Jack e Rose. Aqui você vê o que teria acontecido se o galã não tivesse afundado junto com o navio. A coisa aqui agora é séria, tem emprego, carreia e filhos no meio. Se Kate sempre manteve uma excelente atuação a cada novo personagem, diCaprio finalmente conseguiu me surpreender em um papel sério. A química entre os dois está impecável, tanto nas cenas das muitas brigas viscerais quanto nos momentos de ilusão a dois em que ambos têm a esperança que a mudança para outro lugar, a romântica Paris, irá resolver todos os problemas do frágil e fracassado casamento. Pobre ilusão. Quantas famílias conhecemos que alimentaram as esperanças de que a mudança física pura iria mudar psicologicamente os envolvidos, sumindo com os problemas. Falta o olhar apurado para o interior dos problemas, a auto-análise e a força de se mudar as ações e atitudes, e não simplesmente trocar a posição dos móveis. Sem querer dar esperanças a ninguém, a conclusão do filme é absolutamente pessimista. A sensação que de nenhum relacionamento dará certo é uma certeza sufocante! Mas há uma esperança, no caso se fazer de surdo para o parceiro. Ai sim, e só assim, o casamento de Bodas de Jequitibá dará certo.
Como de praxe, temos as comparações de obras anteriores do diretor. Comparações duras e cheias de cobrança. A vítima de agora foi Sam Mendes que ganhou um Oscar logo com seu primeiro longa Beleza Americana (1999). Depois tivemos Estrada Para a Perdição (2002) e Soldado Anônimo (2005). Como você pode ver, 2 longas se passaram desde a consagração com o prêmio da Academia. Mas as cobranças agora parecem maiores, pois, o diretor (ironicamente um inglês de Berkshire) volta a destilar a sua crítica contra o American Way of Life. Robledo Milani do CineRonda já logo de cara escancara a superioridade do primeiro longa do diretor. “Foi Apenas Um Sonho tem muitas similaridades com o primeiro longa de Mendes, o muito mais bem sucedido Beleza Americana. Ambos falam do fim de uma realidade perfeita. Só que o que antes era provido de muita ironia e sagacidade, desta vez carrega apenas amargura e decepções. São personagens solitários, perdidos e muito infelizes. E o maior de todos é a esposa, uma mulher que sofre de depressão profunda e de grande insatisfação por não conseguir lidar com suas limitações. E, neste processo, termina por destruir todas as chances de paz e tranqüilidade daqueles que insistem em permanecer ao seu lado, com o marido e filhos. Eles tinham tudo para estarem realizados – uma boa casa, dois filhos saudáveis, uma gravidez à caminho, uma promoção no emprego – porém, quando algo está errado internamente, corroendo qualquer esperança, não há nada que venha de fora que possa mudar este quadro.” Pablo Vilhaça do Cinema em Cena faz a mesmíssima comparação. “Ao escrever sobre O Curioso Caso de Benjamin Button, apontei as preocupantes semelhanças entre aquele filme e Forrest Gump – algo que se tornava ainda mais relevante ao considerarmos que ambos haviam sido escritos pelo mesmo roteirista, Eric Roth. Pois algo parecido me veio à mente ao assistir a este Foi Apenas um Sonho, cuja análise impiedosa das contradições entre a aparência idílica do ‘american way of life’ do subúrbio e a crua realidade subjacente remete diretamente a Beleza Americana, primeiro longa de seu diretor, Sam Mendes. E, do ponto de vista temático, o cineasta faz realmente o mesmíssimo filme, embora, aqui, decepcione por acabar não fazendo jus ao magnífico livro de Richard Yates no qual se inspirou, mesmo mantendo-se bastante fiel a este.” Luiz Zanin no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo foi o mais equilibrado na comparação entre os dois longas. “Foi Apenas Um Sonho, tradução que arranjaram para Revolutionary Road, é dirigido por Sam Mendes, de Beleza Americana e Estrada para a Perdição. Mendes não é exatamente uma unanimidade crítica -- o que talvez seja uma vantagem. Há quem o recrimine por caprichar mais na cobertura do que no bolo, ou seja, de fazer filmes em aparência profundos, mas sem grande substância. Talvez seja apenas implicância. É provável que seja isso mesmo. De qualquer forma, mesmo quem tenha restrições a Beleza Americana terá a chance de reformular julgamento com este Foi Apenas Um Sonho, em aparência um projeto mais simples.(…) De maneira sutil, Sam Mendes procura penetrar na intimidade da aparentemente sólida instituição familiar -- exatamente para implodi-la, como fizera em Beleza Americana. É extraordinário que não se consiga ver o que há de corrosivo em Foi Apenas Um Sonho. A começar pela atuação da dupla. Inútil dizer que ambos parecem superficiais, pois o que os acomete é, de fato, a doença da superficialidade.” Cabe seguir os conselhos de Zanin, parar de implicância e aproveitar a obra fílmica sem comparações que fogem de um viés saudável e ético.
O Critério de escolha do Clássico em DVD da semana obedece as mais diversas motivações. Pode ser indicação de alguém, votação ou mesmo porque “deu na telha” da blogueira aqui. Mas, no geral, procuro efetuar um link entre os dois lançamentos no Cinema que abordei com o filme disponível em DVD. E esta semana os dois filmes que ganharam posts, Austrália (2008) e Alguém que me Ame de Verdade (2007), apresentavam um ponto em comum muito importante: o debate ao preconceito, seja com relação à raça, religião, cultura ou o diferente. E não me restou dúvidas em falar para vocês a respeito de O Sol é Para Todos (1962) ao pensar em um filme clássico que abordasse de forma tão contundente e humana este tema. O filme é baseado no livro homônimo de Harper Lee, grande amiga de Truman Capote. Apesar de ser a única obra da autora, foi tão marcante que um prêmio Pulitzer era pouco, o necessário era mesmo transformar a obra escrita em obra fílmica. O diretor responsável pela façanha foi Robert Mulligan, mas a grande figura que alavancou o filme certamente foi Gregory Peck. Em 2003 o American Film Institute elencou uma lista dos grandes heróis da história do Cinema, e no primeiro lugar não figurava qualquer personagem da Marvel ou DC. Lá estava Atticus Finch, o ético advogado que fez Peck ganhar seu único Oscar em 1963. Cabe ressaltar também que naquele ano o longa não abocanhou mais nada além de melhor ator, roteiro adaptado e direção de arte, pois Lawrence da Arábia (1962) dominou nas categorias maiores. Pobre Peter O’Toole! Aquele seria a primeira das 8 vezes (!) em que seria indicado a melhor ator e não ganharia nada. Até que em 2003 a Academia finalmente resolveu honrá-lo com um prêmio honorário. Bem, voltando para O Sol é Para Todos, a construção do longa é em cima da visão de duas crianças sobre o sul racista norte-americano. O pai dessas crianças, Atticus Finch é o único advogado que topa defender Tom Robinson (Brock Peters), um negro acusado de estuprar uma jovem branca. Certamente o momento mais emocionante do filme é no julgamento quando Tom se defende contando sua visão do ocorrido. É de se arrepiar e correr lágrimas nos olhos da tamanha crueldade que a humanidade se submete ao deixar que o preconceito domine a sua visão de mundo. Outra vítima de preconceito é o personagem de Arthur ‘Boo’ Radley (o primeiro papel de Robert Duvall no cinema), um rapaz com problemas mentais que desperta grande curiosidade nos filhos do advogado. E a grande força do filme é justamente esse, a de enfatizar a visão infantil do filme, não como uma visão imatura, mas como uma visão ainda inocentemente despida de preconceitos e pré-julgamentos quanto ao novo, ao outro, ao diferente.
Neste post de A Crítica algo me impressionou demasiadamente: a absoluta ausência de críticas contundentes para o filme O Sol é Para Todos (1962). Cheguei a pensar em desistir de tratar deste longa, mas resolvi mantê-lo como um protesto e um pedido para que mais críticos dissertem sobre um dos filmes mais importantes na temática do racismo na história do Cinema. Para não passar em branco, resolvi compilar 3 posts e Luiz Carlos Merten em seu blog no Estadão. O primeiro trata do livro que serviu de base para o roteiro de Horton Foote “… quando descobri, debaixo da pilha na minha cabeceira, O Sol É para Todos, de Harper Lee (…) e embarquei no livro que deu origem ao filme de Robert Mulligan, no começo dos anos 60. Estou achando muito bonito. Harper Lee escreve com o que parece ser singeleza, mas na verdade é um exercício muito elaborado, porque o livro é contado do ângulo de uma criança, um dos dois filhos do advogado Atticus Finch, que no filme era interpretado por Gregory Peck. Vamos por partes, como diria o esquartejador. Harper Lee foi a amiga de infância que acompanhou Truman Capote na idade adulta, inclusive na fase em que ele escreveu À Sangue-Frio. Nunca vi uma foto da Harper Lee, ou se vi esqueci-me. Não quis nem olhar a orelha do livro, que talvez tenha uma, porque, para mim, agora, ela tem a cara de Catherine Keener, que fazia o papel em Capote, de Bennett Miller. Philip Seymour Hoffman era tão parecido, até mesmo fisicamente, com Capote, no filme, que eu não posso acreditar que Miller, tão fiel por um lado, ia escolher uma atriz que não tivesse nenhuma semelhança com Harper. Os dois, Capote e ela, vieram da mesma cidadezinha do Sul dos EUA. Foram para Nova York, ela nos anos 50. Harper Lee escreveu O Sol É para Todos (To Kill a Mockingbird), que ganhou o Prêmio Pulitzer e virou filme, anos antes que Capote, numa guinada em sua carreira de escritor, também fosse premiado com seu romance de não ficção, que virou filme de Richard Brooks. O Sol É para Todos é considerado um dos maiores romances da literatura dos EUA. Sua simplicidade é enganosa. As memórias infantis começam tênues – as brincadeiras em casa, na escola, as lembranças de um mundo que parece perdido, aquele Sul decadente em que senhores arruinados ainda vivem dos rendimentos de suas plantações de algodão e ex-escravos permanecem numa condição sub-humana, sem que seus direitos civis obtenham reconhecimento. Não falta nem o fantasma que habita a casa ao lado da de Jem e Stout Fincher, os filhos de Atticus Finch. Ele é advogado e vai defender um negro acusado de matar uma branca. O que está em discussão no livro é a construção da cidadania e da ética . Recomendo a leitura de O Sol É para Todos. ” No segundo post dele Merten fala da escolha do grande herói de todos os tempos do American Film Institute
“Anos atrás, não faz muito tempo, o American Film Institute fez uma enquete – americano adora listas – para apontar o maior, ou os maiores heróis do cinema americano. Esqueça Rocky, Rambo, o próprio John McClane, da série Duro de Matar. (…) Mas, enfim, não preciso me estender na lista porque quero dizer que o número um foi Atticus Fincher, ou Finch, o advogado interpretado por Gregory Peck em O Sol É para Todos, que Robert Mulligan realizou baseado no romance de Harper Lee. A escolha foi baseada na dimensão ética do personagem e esse voltar-se para a cidadania tenho impressão de que foi uma reação da crítica ao que representa a liderança de um cara como George W. Bush, que está enterrando, com fanfarras, aquilo que antigamente se chamava de ‘valores americanos’. O próprio Gregory Peck, que fazia o papel – e ganhou o Oscar –, era um sujeito do bem, que, além de grandes papéis – como esquecê-lo em A Princesa e o Plebeu e Da Terra Nascem os Homens, de William Wyler? –, deixou o legado de uma vida em que defendeu todas as boas causas. Contra a bomba, o macarthismo, em defesa da ecologia, dos direitos civis dos negros, Gregory Peck nunca foi menos que altivo, e ético, como Atticus Finch. O reconhecimento ao personagem foi também, um pouco, o reconhecimento ao ator, cuja cena de luta em Da Terra Nascem os Homens é um dos grandes momentos do western (e do cinema). Mas, enfim, acho que comecei a falar sobre o livro de Harper Lee para, no limite, falar sobre Robert Mulligan, que assinou a adaptação cinematográfica. .” E finalmente no terceiro post Merten trata da carreia do diretor Robert Mulligan
“Confesso que tenho um carinho muito grande por Robert Mulligan, que pertence a uma geração intermediária do cinema americano, aquela que veio depois da de Aldrich, Brooks, Fuller, Mann e Ray, nos anos 40 e 50, e antes da de Coppola, Pollack e Scorsese, nos anos 60 e 70. Mulligan veio da TV (como John Frankenheimer e Sidney Lumet) e estreou com um filme bem recebido, Vencendo o Medo, em 1957, mas logo em seguida parecia estar virando um faz-tudo em Hollywood (A Taverna das Ilusões Perdidas, O Grande Impostor, Quando Setembro Vier, Labirinto das Paixões, todos anódinos, quando não ruins). Salvou-o a parceria com o produtor, que depois virou diretor, Alan Pakula. Foram diversos filmes, ao longo dos anos 60, esculpindo heróis, na maioria das vezes, éticos e solitários – solitários porque éticos –, o que dificulta sua integração à sociedade americana. O Sol É para Todos, O Preço de Um Prazer, O Gênio do Mal, À Procura do Destino, Subindo por Onde Se Desce. São filmes urbanos,. com defeitos de construção, mas eu adoro o Gregory Peck como Atticus Finch, a Sandy Dennis como a professora naquela escola barra-pesada de Nova York (Subindo…) ou a Natalie Wood como a estrelinha Daisy Clover, declarando guerra a Hollywood (À Procura…). E, então, em 1969, algo se passou. Mulligan, diretor de pequenos filmes, de pequenos personagens, fez três filmes de gêneros que são os maiores de sua carreira – o western A Noite da Emboscada (The Stalking Moon), o romântico Houve uma Vez Um Verão (Summer of 42) e o terrorífico The Other (A Inocente Face do Terror), que é o filme mais perturbador sobre gêmeos, que já vi. Depois desse ápice, Mulligan descambou. Confesso que me poupei de ver Meu Adorável Fantasma, seu remake de Dona Flor, com Sally Field no papel de Sônia Braga – todo mundo falava tão mal que não quis conferir -, decepcionei-me com Clara’s Heart, apesar de Whoopi Goldberg no papel da babá jamaicana, mas me reconciliei com Mulligan, por uma última vez, com seu belo No Mundo da Lua, de 1991. Foi Mulligan quem lançou Reese Whitterpoon, como a garota de 14 anos que se apaixona por um rapaz mais velho em Louisiana, em 1957 – o ano em que ele estava virando diretor de cinema –, mas o cara prefere sua irmã mais velha. Era um filme tão bonito sobre a perda das ilusões, sobre o amadurecimento. Mulligan teve uma trajetória irregular, mas o que ele me deu de bom supera, e muito, seus erros. Ah, sim. Vocês podem ler o livro (O Sol É para Todos, da Cia. das Letras) e ver o filme (lançado em DVD). Garanto que vão gostar.” Fica a dica de Merten neste inédito post da crítica de uma opinião só.
Em 1900 após dois séculos de colonização e devastação ambiental e racial, a Austrália se tornava independente do império britânico. E ao invés de apregoar uma política de integração, preferiu trocar o último termo e adotar a chamada “política de assimilação” para com o povo aborígene, que ocupava as terras do continente-ilha há mais de 40 mil anos. O método consistia em recolher (ou capturar?) crianças mestiças, geralmente filhos de mãe aborígene e pai europeu, conduzi-las para instituições católicas onde receberiam a lavagem cerebral religiosa visando “amansá-las”, para serem posteriormente encaminhadas para a adoção, por famílias brancas, é claro. Este triste fato, ocorrido entre 1915 e 1969, ficou conhecido para a História como “A Geração Perdida”. E hoje, 40 anos depois, um dos grandes diretores australianos da atualidade, Baz Lurhmann, joga para o cinema o papel de se desculpar publicamente pelo ocorrido com o épico Austrália (2008). Não que fosse extremamente necessário, já que há 1 ano atrás o atual primeiro-ministro australiano Kevin Rudd o fez oficialmente, mas de uma forma que não deixasse brechas para pedidos de indenização por parte dos Aborígenes. E o filme de Lurhmann também deixa a desejar como redenção ao ocorrido. Há o foco no romance entre a madame inglesa Lady Sarah Ashley (Nicole Kidman) e o ‘chucro’ condutor de gado, que não possui nome, apenas o apelido de Drover (Hugh Jackman). Também há a guerra para assombrar a vida feliz, idílica e bucólica do interior. Infelizmente o diretor deixou escapar pelos dedos a, sem dúvida, melhor parte e interpretação do filme. O ator-mirin Brandon Walters interpreta Nullah, menino mestiço que sofre um forte complexo de identidade por não ser nem negro (aborígene), nem branco (colono). Seus cuidados e ensinamentos serão disputados pela Lady e por seu avó, um importante aborígene que representa uma espécie de ‘feiticeiro’ (me desculpem por não saber o termo correto). Que o pequeno ator tenha uma vida cinematográfica longa e próspera graças a esta marcante interpretação, já que neste filme, infelizmente, Lurhmann fez a opção de deixá-lo apenas como um fio condutor mágico e místico da trama, ao invés de jogá-lo para o primeiro plano. Um erro crasso para um diretor sempre conhecido pelos inovadores e polêmicos Vem Dançar Comigo (1992), Romeu + Julieta (1996) e Moulin Rouge (2001). Faltou agora o pedido de desculpas por ter sido, pela primeira vez conservador e retrógrado. E ainda continua se devendo a Austrália um épico Aborígene de verdade, sem co-adjuvantes e estereótipos.
O diretor australiano Baz Luhrmann está longe de ser uma unanimidade, especialmente em seu novo longa Austrália (2008), como nos conta o blog ZeroOitocentos “O diretor Baz Luhrmann é um tipo muito simples: o famoso ame-o ou odeio-o. Basicamente ele faz o tipo de filme que as pessoas adoram ou abominam. Apesar de gostar como ele cria suas narrativas, tenho que admitir que ele fez um trabalho visualmente impecável, o que justifica o gasto absurdamente alto no filme -- e seu grande prejuízo nas bilheterias -- mas a forma de contar a história e até partes da história em si saíram meio tronchas. Uma pena para um diretor já tão consagrado com obras como o novo Romeu e Julieta ou Moulin Rouge. Todos perfeitos em seus papéis. Nicole Kidman é simplesmente linda e mesmo não tendo muito ‘recheio’ sabe encantar os homens, mas nesse filme seu papel era de ‘mulher forte e decidida’. Jackman não tem nem o que dizer. Em questão de atuação ele não deu nenhuma bola fora, não começaria agora. Drover é o típico personagem feito para ele: Wolverine galã. Ainda temos aparições de vários atores talentosos como Bryan Brown -- natural australiano -- e o Dilios de 300, David Wenham -- sempre em segundo plano -- dessa vez encarnando o bandidíssimo Neil Fletcher.” Breno Ribeiro do Pipoca Combo também lamente o desperdício de talento, energia e dinheiro nesta pretensão megalomaníaca de épico do novo milênio. “Ao longo de sua modesta carreira, Baz Luhrmann acabou sendo reconhecido por suas reinvenções. Aconteceu quando o diretor inovou ao trazer Montéquios e Capuletos como gangues rivais em uma Los Angeles moderna, em Romeu + Julieta e quando, no auge de sua criatividade, Luhrmann trouxe às telas o aclamado, psicodélico e inspirado Moulin Rouge, um musical inspirado na boêmia francesa de fins século XIX. Ainda que não possa ser chamada de recriação, o novo longa do diretor, Austrália, soa como uma homenagem a um gênero que, décadas atrás, era adorado: os romances épicos. Mas a impressão final, entretanto, não condiz com a realidade do filme.(…) Soando como uma espécie de …E O Vento Levou australiano, Austrália apareceria mais interessante (embora ainda inferior aos outros filmes de Luhrmann) se acabasse na metade de sua história, quando as trocas de gênero começam excrachadamente. Se fossem feitos dois longas ao invés de um – um para cada uma das duas grandes partes do projeto -, Austrália seria não só melhor, como também menos estafante. Suas longas duas horas e quarenta minutos de projeção cansam não apenas pelo ritmo arrastado, mas também pela sensação de que a história não merece todo esse tempo de nossas vidas. Logo, ainda que mantenha aspectos estéticos belos e normais para os padrões Luhrmann, o filme não convence ao final.” Pois é, não convenceu crítica e nem público já que o longa consta como o maior fracasso de bilheteria da temporada por ter custado muito e arrecadado tão pouco. Pelo visto teremos que esperar mais um pouco para que Luhrmann volte a polemizar e inovar, sendo incompreendido, mas também provocante.
No longa norte-americano Alguém que me Ame de Verdade (2007) duas professoras de uma escola multi-racial/cultural localizada no bairro do Brooklyn em Nova Iorque aceitam o grande desafio que vai além de ensinar aos seus alunos a tolerância e o respeito pelo diferente, pois elas mesmas são o símbolo máximo das guerras que a falta desses sentimentos pode ocasionar. Uma é judia ortodoxa e a outra muçulmana tradicional. E ao contrário do impossível elas desenvolvem uma sincera amizade. Não é a primeira vez que trato aqui no MovieYou de um filme a respeito do conflito entre judeus e muçulmanos, pois um tema similar foi adotado no longa Lemon Tree (2008). O ponto em comum em ambas as obras é a centralização de duas figuras femininas, cada qual pertencente ao universo étnico e religioso que lhe cabe. Mas ao contrário de Lemon Tree, no qual um muro ‘físico’ impõe e impede que o sentimento de cumplicidade se transforme em amizade, em Alguém que … as personagens fazem questão de derrubar este muro de preconceito. Não deixa de ser polêmico e ao mesmo tempo tocante. E não duvide da verossimilhança da história porque de acordo com o making of abaixo o roteiro foi inspirado em fatos reais. O filme foi rodado com baixíssimo orçamento, portanto não espere uma fotografia impecável. Também há falhas incômodas no roteiro, como a estereotipização do que seria uma vida fora da tradição rígida em que ambas vivem. Mas ao final fica sim no ar a mensagem de que um pouco de respeito e tolerância podem contribuir para uma humanidade mais harmônica, digna e respeitosa.
Tradição, família, religião, ortodoxia, preconceito, escolhas, destino, aceitação. Todas essas palavras permeiam o longa Alguém que me Ame de Verdade (2007), que trata de um tema extremamente polêmico, mas de uma forma leve e doce. O blog Cenas de Cinema da Cecília Barroso nos introduz um pouco da temática que permeia a trama.
“Desde que somos pequenos aprendemos que existem diferenças em nosso vasto mundo e entre os vários símbolos que as representam sempre há a imagem do ódio ancestral entre judeus e muçulmanos. Seja em tom de brincadeira como em filmes bobos a la Corra que a Polícia Vem Aí e Tudo para Ficar com Ele, quando o sinal maior de paz e fraternidade é um judeu e um muçulmano se abraçando, ou em momentos sérios e tristes como as guerras que ainda hoje acontecem entre os dois povos. O assunto dá muito pano para manga e muitas são as coisas que podem ser ditas sobre ele. Inclusive, o tema já esteve no cinema várias vezes, mostrando histórias de ambos os lados e abordando várias características. Mas em toda a minha bagagem cinéfila nunca tinha visto os dois povos da maneira que vi no filme Alguém que me Ame de Verdade. Diferente dos outros, a abordagem consegue ser criativa e traz ao espectador a realização de que por mais que se pregue a diferença, as coisas são muito mais próximas do que parecem.”
O blog Cinecartógrafo do Ricardo Prado elogia a opção feita pelo diretor e roteirista Stefan C. Schaefer do respeito a tradições tão intrínsecas de ambas personagens. “O mais intrigante é que, apesar de passar a impressão de ser um filme libertário, destes que mostra a personagem enclausurada em uma vida sem graça atrelada à religião para depois se libertar dela e viver a vida. E não é. O maior trunfo de Alguém Que Me Ame de Verdade é não julgar os costumes dos outros. Pode ser que o espectador (ocidental, é claro) fique com o sangue fervendo ao ver o destino das moças sendo escolhido como quem escolhe produtos num catálogo, mas o filme aborda a questão de forma amena e, mais importante ainda, não faz de suas personagens umas revoltadas, e sim, pessoas que acreditam na tradição de suas famílias.” Andy Malafaya do CinePlayers trata das falhas na trama, como a sua superficialidade e leveza excessiva.
“Infelizmente, o filme não se aprofunda muito nas raízes sócio-culturais de ambas e nos problemas que essa amizade não-usual poderia causar, uma escolha até certo ponto simpática por parte dos realizadores que deixam o filme leve e agradável, e seu final alto astral é de encher de esperança qualquer um que almeje um mundo mais pacífico. Ainda que possua eventuais falhas, como a histriônica personagem da diretora da escola e o uso de uma montagem errática quando Rochel conhece vários pretendentes – engraçadinha, mas contextualmente disforme -, o filme não deixa de levantar a bandeira da aceitação ao próximo, independentemente de credo, ou qualquer outro fator de exclusão social.” A conclusão que cabe é por mais pesado que seja o tema, sempre é possível tratá-lo com doçura e esperança. Basta lembrar de longas como A Vida é Bela (1997): idílicos, contundentes e transformadores.

O leitor
by.Queiroz
O leitor é um filme de amor ou filme político? Depende de quem assistiu. Os que se identificaram com o garoto do primeiro ato que se relaciona com a mulher mais velha ou os que dão mais importância ao julgamento ocorrido no segundo ato. Sinceramente não sei. Teve um crítico do Jornal O Globo que estragou o filme para mim, por contar um detalhe importantíssimo da trama. Eu concordo com você que o público sozinho poderia chegar àquela conclusão sem a necessidade de flashbacks, mas com pessoas como você literalmente contando, fica mais difícil considerar o filme relevante, você não acha?! Bem, voltando, sobre o 1.° ato, dá para perceber bem o procedimento padrão das mulheres com homens mais jovens: Olhar distante, tem a situação sob controle, nunca dizem ?Eu te amo? e sempre deixando visível a possibilidade de terminar aquilo na hora que elas quiserem. Dando a outra face também há de se perceber o breve deslumbramento dos homens com as mulheres com mais experiência (isso independente de idade), tendo com pouco tempo de relacionamento, já achar (idiotas) que viverão a vida inteira juntos, sem mal se conhecerem profundamente. Há uma cena em que Hanna (Kate Winslet) e Michael (David Kross) comem em determinado restaurante com mesas ao ar livre e a garçonete chega para o Michael e diz: ?Espero que sua mãe tenha gostado?, e ele não nega, mas quando ele volta a ficar ao lado de Hanna faz questão de beijá-la na boca para demonstrar que é sua. Quando chegamos ao segundo ato quando descobrimos onde a guardinha de trem foi trabalhar depois de ser promovida, e isso praticamente causar a separação do casal, mesmo que na absoluta ignorância de Michael, este então estudante de direito separado a um bom tempo, vê sua amada sentada no banco dos réus nos Julgamentos em Nuremberg. O terceiro ato, foi o que pegou para o filme. Ralph Fiennes fazendo o papel do Michael mais velho, aquilo ali não dava para engolir de forma alguma. Thomas Kretschmann seria uma melhor escolha para o papel. Para quem não lembra, ele é o Oficial Wilm Hosenfeld que ajuda o Pianista interpretado por Andrien Brody no filme de Roman Polanski. O Lorde Voldermort não convenceu, ainda mais quando vemos Hanna (Kate Winslet) de cabelos brancos na sua frente. Aquilo ali… A estória é muito boa, mas uma pena que a Hanna não seja a protagonista, daria espaço para discussões até mais profundas sobre o filme, no que diz respeito ao seu aspecto político.
Publicado por: QUEIROZ -- http://escritosmalditos.blogspot.com/
Sabe aquelas conjecturas que todo ser humano gosta de fazer, o famoso E SE…? Pois bem, para o Clássico em DVD da semana temos uma teoria e tanto para tratar. A da edição do Oscar que rendeu 11 estatuetas para James Cameron e companhia no longa (e bota longa nisso) Titanic (1997). Era um calmo domingo, 3 de Março de 1997. Concorriam a melhor filme o dito cujo e mais Ou Tudo ou Nada, Melhor é Impossível, Gênio Indomável (alias trocaria fácil a indicação desse por Boogie Nights, o melhor de Paul Thomas Anderson) e Los Angeles – Cidade Proibida. Todo mundo sabe que a aventura molhada e afundada de Jack e Rose levou a melhor. Mas já que estamos tratando do famoso E SE…? quem teria levado então tantas estatuetas para casa se por algum infortúnio do destino James Cameron não tivesse concebido a sua ambição megalomaníaca em forma de navio de luxo? A resposta pode estar nas famosas listas de 100 melhores filmes de todos os tempos que muitas publicações nacionais e internacionais fazem. Se você pesquisar pela internet algumas delas, dificilmente achará a presença de Titanic nela. Mas a de Los Angeles – Cidade Proibida será uma constante. A vitória esmagadora de Titanic foi uma caduquice dos velinhos da Academia? Pode até ser, pois eu nunca vi Rocky – Um Lutador (1977) ou Crash (2005) em alguma lista de melhor filme apesar de ter ganhado a premiação. Isso nos faz chegar à triste conclusão que a premiação não passa de um grande lobby ao invés da neutralidade crítica. Talvez seja por isso que o Brasil nunca tenha conseguido levar um Oscar, mas em outras premiações como a Berlim ter sido consagrado. Bem, mas quanto ao Los Angeles – Cidade Proibida não fica a dúvida de sua qualidade, recriando com precisão o espírito dos grandes filmes noir e com as mais marcantes interpretações das carreiras de Russel Crowe, Guy Pearce, Kevin Spacey e Kim Basinger. Destaque também para o roteiro de Brian Helgeland que conseguiu transformar o livro de James Ellroy em algo tão cinematograficamente coerente. Assista sem temor, pois nesse longa você não precisar de lencinhos de papel para a hora que o ‘gãlanzinho’ morrer deixando a amada viva e com saudades… deixe essas coisas para o Cameron…






















