O cineasta paulistano Eduardo Coutinho foi o grande responsável pelas mais importantes obras documentais das últimas décadas, tais como: Jogo de Cena (2007), O Fim e o Princípio (2005), Peões (2004), Edifício Máster (2002), Santo Forte (1999), Santa Marta – Duas Semanas no Morro (1987) e Cabra Marcado Para Morrer (1985). Após a experimentação realizada em algumas destas obras, temos em seu novo trabalho, Moscou (2009), a retomada da discussão dos limites entre realidade e ficção. Coutinho opta por mostrar ao público o mergulho do grupo de teatro Galpão de Belo Horizonte no ensaio de uma obra de ficção, no caso a peça Três Irmãs do dramaturgo russo Tchecov escrita originalmente em 1901. É possível determinar a parte realística da obra é quanto ao fato de um grupo de teatro ter a sua frente o difícil processo de ensaiar uma peça extremamente complexa em tão pouco tempo, três semanas no caso. Porém, durante todo o tempo de projeção, avistamos apenas os atores imersos em seus personagens interpretando situações fictícias. Questionei-me ao final se estava realmente diante de um documentário. Após uma reflexão minha conclusão particular foi negativa. A dúvida em classificar esta obra se instaura e a discussão fica como a ponta do iceberg de uma imensa provocação. Uma possível conclusão seria que Coutinho se propõe a pura e simplesmente apresentar um processo no qual não importa seu início ou seu resultado final e sim todos os intermediários percalços de sua composição. Mas são apenas conjecturas… Realísticas e Fictícias.
Em Junho de 2007 o jornal Folha de São Paulo noticiou que o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados havia permitido que um grupo de refugiados palestinos de origem iraquiana que viviam no campo de Al-Ruweished na Jordânia pudessem vivem no Brasil. Assim, em outubro de 2007 os diretores Stela Grisotti e Paschoal Samora viajaram para o Oriente Médio para registrar as 48 horas anteriores da viagem ao Brasil deste grupo e após nove meses, já no Brasil, o contato foi retomado para se constatar como estaria a vida destes palestinos sem pátria nas cidades brasileiras de Mogi das Cruzes – SP, Pelotas – RS, Venâncio Aires – RS e Florianópolis – SC. Este importante registro documental foi dividido em dois atos de meia-hora cada e pode ser visto no documentário de média-metragem A Chave de Casa (2009). Em diversos depoimentos temos contato com as diversas dificuldades vividas pelos palestinos em nosso país, que ultrapassam as questões de cunho cultural. Há o desabafo quanto ao fato do governo brasileiro apenas contribuir com os dois primeiros anos de aluguel e que, após este período, é necessário sobreviver com salários de no máximo R$500,00 dada a total ausência de inserção destas pessoas no mercado de trabalho de nosso país. Um dos entrevistados chega a brincar que com um salário assim, ele toma café no primeiro dia do mês e jejua nos outros 30. Mas o mais tocante é o depoimento de um refugiado que compara a sua vida ao mito de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo era considerado o mais astuto de todos os mortais por ter enganado a morte em duas ocasiões. Já na velhice, sua alma foi conduzida até Hades, deus do submundo, que o considerou um rebelde, lhe aplicando assim um penoso castigo: carregar uma grande pedra montanha acima, sendo que toda vez que se aproximasse do topo a pedra rolaria montanha abaixo. E assim seria por toda eternidade. Desta forma, uma tarefa que envolve um esforço repetitivo e inútil é denominada “Trabalho de Sísifo”. Com esta triste comparação tem-se ao final o predomínio de um o sentimento de vazio por vermos tantas pessoas separadas de suas famílias e ausentes de uma pátria que diversas gerações nunca a avistaram e podem nunca o fazer por questões políticas, econômicas, territoriais, culturais, religiosas e, porque não, desumanas.
O indigenista Vincent Carelli, atua a mais de 30 anos pelas aldeias de nosso país, chegando inclusive a trabalhar para a dita FUNAI (Fundação Nacional do Índio). A meu ver esta fundação, assim como o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), contribui de forma muito ineficiente para a proteção da natureza e das populações que vivem dela, afinal os interesses econômicos de fazendeiros, garimpeiros, madeireiros, usineiros, forasteiros e qualquer mais “eiros” que possam inventar parecem sempre estar acima de qualquer suspeita ou justiça para com esta questão sócio-ambiental. Durante 20 anos Carelli trabalhou em um verdadeiro vídeo-investigativo sobre o massacre de índios isolados que ocorreu na gleba Corumbiara ao sul de Rondônia. A área foi dividida e “concedida” para latifundiários durante o governo militar na década de 70. Estas terras totalmente inóspitas e inexploradas trazem fortes indícios de terem sido abrigadas por diversas tribos indígenas. De acordo com a legislação brasileira, se alguma tribo fosse encontrada a gleba não poderia se tornar outra coisa além de uma reserva indígena e ponto. Mas na falta da efetiva comprovação de presença indígena, o gado, e hoje a soja, podem infestar a região. Durante as 2 horas do longa documental vemos Carelli tentando provar a todo custo que os fazendeiros da gleba Corumbiara ignoraram qualquer lei e, literalmente, passaram por cima dos índios com tratores e balas. O cineasta demorou estas 2 décadas para finalizar e exibir o documentário Corumbiara (2009) pois havia a esperança de que se chegasse a um chamado “final feliz” em que se comprovassem os culpados e ocorresse a punição pelo massacre. Isto, é claro, nunca ocorreu. Com a exibição pública deste verídico retrato audiovisual no festival É Tudo Verdade deste ano volta-se a nutrir a esperança de que justiça seja feita, afinal genocídio é um crime que não prescreve mesmo após 20 longos anos.
Diários de Motocicleta e Che têm pelo menos uma coisa em comum no que tange a narração sobre Ernesto Che Guevara. Ambos os filmes te dizem: Você tem que estar do lado dele. Impossível, assistir a um filme sobre Ernesto sem querer estar na garupa da Poderosa, ou não querer ser um alistado no seu exército revolucionário. O envolvimento do espectador é fundamental. Benicio Del Toro está tão Che, quanto Val Kilmer está Jim Morrison em The Doors. Não há como desassociar as personas. Os trejeitos, a asma e a fala, tudo foi bem elaborado por Del Toro. Mas, devo dizer, que quem mais me impressionou, foi o ator mexicano Demián Bichir que interpreta um verborrágico Fidel Castro. É interessante a parte em que Fidel alerta o amigo Che, de este ser muito afoito, se arriscar no campo de batalha. Essa cena já traça o diferencial entre os dois, o quanto Fidel, sempre teve a visão de líder político e Che por sua vez o idealista que quer por em prática as suas ações. Se eu disser que Raul Castro é o papel da vida de Rodrigo Santoro, estarei mentindo, mas o rapaz faz bonito, em curtos momentos de projeção falando em espanhol. Posso dizer que é a melhor participação dele em filme estrangeiro. Abrindo um pequeno parêntese, fiquei feliz em ver a nossa Alice Braga no trailer de Território Restrito (Crossing Over, no original), filme que conta com a presença de Harrison Ford. Também vi trailer de Valsa com Bashir, sensacional. Mas, voltando, Che, O Argentino, demonstra tanto nos diálogos quanto nas ações armadas os passos da revolução cubana. Há também um ponto que quebra a narrativa linear que é o retrato do momento de sua presença na 19.ª Assembléia Geral das Nações Unidas de 1964, sendo sabatinado por jornalistas e lideres. É bom ver no filme, Che demonstrando os seus dotes como médico, algo muito mais acentuado em “Diários” , por motivos óbvios. E outra coisa que me agradou foi a atuação da atriz colombiana Catalina Sandino Moreno que interpreta a segunda esposa de Che, a cubana Aleida March. Assim quando ela entrou em cena de tão bela, já sabia qual seria seu papel na vida de Che, eu até então não sabendo desse fato pessoal na vida de Che. O filme é muito bem acabado na sua fotografia e as cenas “de ação”, funcionam muito bem. Se você questiona se Che é no fim das contas um usurpador, a última cena seria um tanto uma resposta para tanto. Nas palavras do próprio, não há uma revolução escondida, não há um revolucionário que não seja guiado por um sentimento de amor. E Steven Soderbergh demonstra muito amor ao cinema com esse filme. Estou ansioso em ver a segunda parte.
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O média-metragem Sobreviventes (2009) de Miriam Chnaidermann e Reynaldo Pinheiro já implica em seu título a temática central da qual trata a obra: homens e mulheres que se julgavam mortas pelos outros ou por eles mesmos por passarem pelas mais tristes penações, mas que estão vivos para semear sua história. Temos um detento que sobreviveu ao massacre do Carandiru, um mendigo que saiu das ruas, uma viciada em drogas que está limpa, presos políticos que sofreram tortura durante a ditadura militar, um soropositivo que ainda vive graças ao coquetel de remédios, uma mulher que teve depressão pós-parto e foi internada em um manicômio, uma mãe que perdeu duas filhas em um desabamento de terra sobre sua casa, uma grávida que sobreviveu a um grave acidente de carro, um professor negro que muito lutou para vencer o preconceito racial e um bandido que virou escritor. As imagens são simples: as pessoas sentam em uma confortável poltrona de veludo verde que está dentro do que parece um túnel de tijolos e seus depoimentos são intercalados com cenas de um ensaio da companhia de teatro Oficina e imagens de trens paulistanos correndo pelos trilhos. Tudo para metaforizar e enfatizar as belíssimos e comoventes falas destes sobreviventes do que valorizar a imagem em si. Assista a este documentário de coração e mente aberta, pois cada um tem a sua história, mas alguns têm uma trajetória especial e exemplar.
Em 1917 o artista francês Marcel Duchamp exibia ao mundo um urinol de porcelana com a assinatura R. Mutt como obra de arte. Antes mal-compreendido, hoje a pequena obra é avaliada em 3 milhões de euros. A partir deste fato, temos ao redor do mundo diversos artistas filhos desse movimento que hoje classificamos como Arte Conceitual, na qual a idéia em si é o aspecto mais importante da obra, sendo a sua execução um mero detalhe secundário. E em nosso ‘Brasil, brasileiro,’ um artista plástico carioca é o grande responsável por representar nosso país conceitualmente. Trata-se de Cildo Meireles que em 2008 ganhou o “Premio Velázquez de las Artes Plásticas”, concedido pelo Ministério da Cultura espanhol, além de expor suas obras em uma mostra na Tate Gallery em Londres. E na edição deste ano do festival internacional de documentário É Tudo Verdade o artista está presente no longa Cildo (2009) de Gustavo Rosa de Moura. Diferentemente dos tradicionais documentários de biografias, Moura foca mais nas obras do que nas histórias de vida do artista. Desta forma, a sala de cinema se transforma em uma extensão das instalações concebidas por Cildo, em cenas que na maioria das vezes imperam o típico silêncio de quem aprecia uma exposição. Se o público nunca pode ir conferir pessoalmente o trabalho do carioca, poderá apreciar através do documentário obras como: Malhas da Liberdade, Eureca, Missões, Babel, Fontes, Inserções em Circuitos Ideológicos – 2.Projeto Coca-Cola, Desvio para o Vermelho, entre outras. O filme nos faz, então, refletir qual é o papel das artes plásticas hoje e como a arte conceitual é algo completamente democratizado em uma tese concebida pelo próprio Cildo. E se nos primeiros minutos a projeção pode passar a sensação de que teremos uma “ego-trip” do artista plástico, basta ouvir do próprio Cildo sua identificação com Michael Collins, astronauta americano que pilotou a nave na missão Apollo 11 e permaneceu dentro do módulo lunar enquanto Neil Armstrong e ‘Buzz’ Aldrin exploravam a lua: a chance de estar acima de todos na Terra ao mesmo tempo em que aprecia de perto o momento mais importante da história humana sem efetivamente participar dela, apenas como um mediador. Este é Cildo Meireles.
A rua em que você vive recebe o nome de uma pessoa? E se alguém lhe perguntasse quem foi o fulano que dá nome a via pública que você reside, saberia responder? Eu particularmente não. E pelo visto os moradores da Rua Henning Boilesen, bairro do Jaguaré na zona oeste da cidade de São Paulo, também não o sabem. É justamente assim que o documentário Cidadão Boilesen (2009) do jornalista Chaim Litewsk se inicia, ao questionar aos moradores da dita rua quem foi o administrador que tem seu nome ostentado pelas placas da via. À medida que a projeção avança, mergulhamos na biografia deste cidadão dinamarquês inicialmente apresentado como alguém que se considerava brasileiríssimo, que gostava de samba, mulatas e caipirinhas. Chegou ao Rio de Janeiro de navio com apenas alguns trocados no bolso, que logo foram roubados. Com raiva da cidade mudou-se então para São Paulo onde seus conhecimentos como administrador e contador o levariam a crescer ao patamar de presidente do grupo Ultra Gás. Um homem esportista, simpático e eloquente. Quem não consideraria este cidadão Boilesen uma pessoa de boa fé? E é aí que somos apresentados a depoimentos que colocam em xeque esta imagem. Para quem dormia nas aulas de história esta parte do documentário pode ficar mais difícil, pois é falado do golpe militar de 64 e da repressão contra grupos de filosofia “comunista”. Sob forte influência dos ideais revolucionários de Che Guevara, grupos que iam contra o regime militar começaram a se estruturar em guerrilhas urbanas, pois acreditavam que apenas através da luta armada o povo conseguiria tomar o poder. Se Cuba conseguiu, o Brasil também poderia. E foi ai que o lado obscuro de Boilesen se revelou. Através de diversos depoimentos são reveladas de forma grotesca o ódio que o dinamarquês sentia pelos comunistas. Nunca foi comprovado, mas há suspeitas que ele junto com outros membros do empresariado brasileiro teriam financiado a chamada Operação Bandeirantes (OBAN), um órgão responsável pela repressão aos grupos terroristas de esquerda. Em resumo: TORTURA. Ex presos políticos relatam a presença do então presidente da Ultra-Gás assistindo as sessões de torturas revelando um lado extremamente sádico. E este sadismo teria aflorado na tenra infância. O documentário atravessa o atlântico rumo a Dinamarca onde tem-se acesso a documentos como o boletim de escola de Boilesen. Em um deles o professor relata que ao castigar alunos por uma briga durante o recreio o pequeno Boilesen teria assistido com um espantoso prazer seus colegas serem castigados. É de se arrepiar… Mas o que causa mais indignação é a conclusão de que nada pode ser provado e ninguém nunca será punido. Historicamente a ditadura e suas torturas ocorreram “ontem”, muitos envolvidos e vitimados estão vivos e não há novo governo democrático nenhum que esteja disposto a mexer neste vespeiro. Que se apodreçam as lembranças então, como as placas lá da ruazinha de Jaguaré estão a enferrujar pelo tempo, o descaso e o esquecimento.
Seres humanos normais choram, brigam, sentem raiva, tristeza, inveja, agonia e tudo mais de negativo que o nosso lado obscuro possa nos revelar. Poppy, não… Ela pertence a um tipo de ser que paira no extremo oposto a isto, talvez pertencente a uma variação desconhecida do homo sapiens. Esta inglesa de 30 anos segue uma filosofia de vida totalmente positiva: Só vê o lado bom das coisas e das pessoas, está sempre otimista, solidária, altruísta. Em resumo vive Simplesmente Feliz (2008). O novo filme do diretor Mike Leigh se revela um marco diferencial nos temas abordados em suas tramas anteriores. Segredos e Mentiras (1996) e O Segredo de Vera Drake (2004) eram fortemente dramáticos, com carga de culpa e revelações de suas personagens. Agora o segredo é revelar qual é a teoria da atração que faz Poppy se alegrar com tudo. Parece resenha de obra de auto-ajuda, não é mesmo? Porém em uma análise psicológica mais profunda é difícil classificar se a personagem sofre de uma espécie de patologia que a faz anestesiar seus sentimentos. E ao afinal das contas esta felicidade absoluta ou excessiva funcionaria como escudo as mazelas da vida. Se for irritante a forma como Poppy escolhe se proteger da feiúra do mundo, não podemos apontar o dedo e acusá-la. Se quiser então aponte o dedo quem nunca virou a cabeça se esquivando de olhar para um mendigo, fechou o vidro do carro na cara de uma criança pedinte, pulou a parte de política do jornal ou ao ver alguém sendo assaltado pensou “não é comigo”. É fácil acusar alguém que leva ao extremo se defender das desumanidades. Mas pior ainda somos nós que hipocritamente levamos um sorriso cínico ignorando o que há de errado no mundo, afinal não é conosco… Nunca! Voltemo-nos então ao nossos cascos de protecionismo e tchau Poppy, vá ser feliz de verdade em outro planeta que aqui na Terra pessoas como você são falsamente irritantes. Se fica difícil classificar quem se protege de quem , no fim é melhor concluir que no fundo nos protegemos de nós mesmos, ninguém quer sofrer e ponto. E o outro? O outro que seja feliz no seu quadrado. E cada um no seu…
Qual é o humor necessário para se ver um filme como Simplesmente Feliz (2008) do diretor britânico Mike Leigh?
Daniel Esteves de Barros assume no início de sua crítica no Cine-Phylum que provavelmente estaria de mau-humor aquele dia e que o filme não o ajudara em nada para melhorar isso e ainda concluiu: “O filme estranhamente ganha muito ritmo em seu final. Além de explorar o instrutor de auto-escola Scott de um modo mais cativante (e confesso que ri bastante quanto à teoria dele acerca de ocultismo envolvendo um monumento em Washington e o modo como utiliza Lúcifer e os outros dois anjos caídos, Enharah e Raziel, para atribuir uma alcunha aos três espelhos retrovisores de um veículo) o roteiro ainda consegue se mostrar bastante interessante. A comédia ridícula dá ar a um pequeno drama bastante satisfatório. As atuações de Sally Hawkins e Eddie Marsan se revelam monstruosas (e não é culpa deles se os seus personagens são extremamente caricatos) e dignas de uma indicação ao Oscar (ao contrário do roteiro que, nem nos meus sonhos mais bizarros, teria tal honra concedida). Mas é justamente quando o filme se torna interessantíssimo que ele, infelizmente, se encerra abruptamente. Enfim, mais um engodo dentre os muitos engodos cometidos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deste ano.” Charles M. Helmich do CinePlayers
“Para interpretar a contagiante professora Poppy, a atriz Sally Hawkins precisou buscar muita pureza de espírito. Vestida em roupas espalhafatosas com cores berrantes e botas de couro de cobra, sua personagem parece ter saído de algum filme do Almodóvar, indo parar acidentalmente no espectro cinzento de Londres. Solteira e despreocupada, a protagonista do filme Simplesmente Feliz leva a vida numa boa sem se importar com a rabugice do seu diretor na escola primária e as crises de insegurança da irmã mais nova. Seu jeito maquinal e saltitante, sempre com um sorriso preso no rosto nem sempre contagia as pessoas. Por vezes, surte efeito contrário. (…) Olhando de maneira superficial, a professora Poppy tem tudo para nos aporrinhar. Seja numa conversa à toa com um mendigo ou quando se veste de galinha e começa a cacarejar dentro de uma sala de aula, tudo nela parece sem sentido. Acontece que a questão é simples. Amar a profissão com intensidade, ver o lado bom das coisas, sentir-se bem como solteira e não se deixar afetar pela infelicidade das outras pessoas é meramente um instinto de sobrevivência para a protagonista.” Se a irritante felicidade é proteção então vamos nos devorar de ilusão e esquecer de tudo e todos, vivendo simplesmente felizes? Difícil, impossível, desumano…
Desta fez a minha linha de raciocínio foi concordante com a da crítica. Abaixo como resumo, duas opiniões críticas de que o projeto Che, que tem sua primeira parte estreando esta sexta no país sob o título de Che – Parte 1: O Argentino (2008), recebe todo e qualquer mérito graças ao intérprete do guerrilheiro Benicio Del Toro. No site O Povo On-Line temos essa primeira exaltação do trabalho do porto-riquenho. “Che está lá, lutando diante dos olhos do público. (…) E o guerrilheiro está lá porque Benicio está lá. Inteiro, tomado por um personagem cuja história o ator levou anos pesquisando. Para del Toro, Che sempre foi um projeto imprescindível. Em Che, o projeto de del Toro funciona. O de Soderbergh patina. Ora exageradamente ameno, ora sutilmente real. Ameno quando visa unicamente lançar confetes à já excessivamente incensada figura do mito. E sutil quando trata das contradições do homem. Ao contrário das inconsistências que marcam o trabalho do diretor, o de del Toro é perfeito.” E na Revista Cinética trata um pouco mais da neutralidade passiva adotada pelo diretor Steven Soderbergh. “Ainda que Che Guevara, grande ícone da luta revolucionária e da resistência contra a opressão, tenha se tornado já no século 20 um item de consumo banalizado, é espantoso que sua imagem sirva agora, em 2008, justamente para desmantelar uma idéia de projeto político, sua grande crença. É o que ocorre em Che, o filme de Steven Soderbergh, sem que isso indique necessariamente uma postura adversa do cineasta para o seu objeto biografado, mas sim o fato dele ter sido rodado num momento histórico em que, já se absorvida a falência dos projetos, avilta-se um quase fim da história, num ceticismo que torna aberrante qualquer idéia de revolução, mudança e processo político. Che lançado aos leões da arena romana da história. Não parece ser uma opção deliberada de Soderbergh, que em entrevista defendeu a perenidade do símbolo de rebeldia e idealismo de Ernesto Guevara. O próprio distanciamento adotado pelo diretor (que não deixa de ser uma medida preventiva de um artista norte-americano que terá, inevitavelmente, o olhar do outro) é também um grande respeito à figura de Che. Por outro lado, esse cuidado quase isonômico que parece reproduzir sem julgar os acontecimentos e os personagens é enganoso, porque essa quase isenção documental é puro efeito e acaba por amplificar uma idéia de aula ministrada por Soderbergh sobre Ernesto Che Guevara e sua vida política.” Não existe documentário sem pequenas inverdades e não existe análise história sem imparcialidade. Realmente Soderbergh errou feio.




















