O argumento de superação do ser humano comum de O Equilibrista (2008) pode até parecer uma metáfora barata. Mas por trás destas intenções edificantes está imensa sombra de um atentado terrorista que chocou o mundo ocidental. Para Marcelo Hessel do Omelete esta seria a razão para o documentário ter triunfado em premiações mundo a fora. “Na foto, tirada do nível da rua, vemos lá no alto o pequeno Petit se equilibrando no nada, para a direita, ao mesmo tempo em que um avião cruza o enquadramento no sentido oposto, para a esquerda. Em momento algum do documentário de James Marsh são mencionados literalmente os ataques aéreos às Torres Gêmeas. Mas quando o avião aparece em cena, um avião qualquer em 7 de agosto de 1974, o choque instantâneo nos traz a 11 de setembro de 2001. São de embasbacar não só o talento, a vaidade e a teimosia de Philippe Petit, mas O Equilibrista não teria o mesmo valor -- não teria ganho Sundance, o BAFTA, o Oscar -- se não fosse a sombra das torres ausentes.(…) Um entrevistado diz que é como se as Torres tivessem sido erguidas para Petit. Pela forma como o filme romantiza o equilibrista francês, a declaração não parece longe da verdade. Não é o tipo de documentário, enfim, que se presta a imparcialidades. Ao final não fica claro como amores terminam, como amizades se desmancham, não ficamos sabendo sequer o que Philippe Petit achou dos atentados. O foco principal é edificar um mito.” Alessandra Ogeda do blog MovieSense exalta os momentos em que o documentário opta por uma reconstituição fictícia dos fatos. “Tem pessoas que pensam o impossível e conseguem realizá-lo. Por mais louco que o plano possa parecer na hora da concepção, do ‘insight’. É sobre a história de um sujeito que conseguiu o impossível -- e para muitos, o impensável -- que trata Man on Wire, um dos documentários pré-concorrentes do Oscar deste ano. A produção conta a história de Philippe Petit, o homem que com a ajuda de alguns amigos -- e outros colaboradores pontuais -- conseguiu, em 1974, o impensável: atravessar o vão que separava as Torres Gêmeas (ou o tão conhecido e extinto World Trade Center) como um equilibrista. Além de ser uma história interessantíssima, o documentário consegue algo nem sempre fácil neste tipo de produção: adotar, como em uma sinfonia, o tom exato da mensagem em cada detalhe da narrativa. Em outras palavras, tornar igualmente artística a parte ‘ficcional’ do filme, respeitando a ‘alma’ do trabalho do personagem retratado em todos os detalhes da produção. Realmente interessante.” E no texto de Charles M. Helmich no blog Plano-sequência há o relato do quanto de impressionante há nesta singela história. “Passados 34 anos, o cineasta James Marsh apresenta-nos O Equilibrista, documentário que nos leva até aos bastidores deste incidente que assombrou os nova-iorquinos. Nesta ocasião para assistir a um espetáculo e não a uma tragédia. Embora muitos casos semelhantes tenham acabado em tragédia, os desdobramentos de uma loucura como essa sempre rendem uma boa história. Philippe Petit felizmente teve um final feliz e sobreviveu para narrar os acontecimentos. (…) O documentário nos mostra os detalhes da ação em Manhattan e como um simples erro poderia ter transformado o espetáculo em uma morte bizarra. Com entrevistas detalhadas e emocionantes do protagonista e dos idealizadores do golpe, o cineasta conta-nos com emoção os desdobramentos da ação, desde o plano para se infiltrar no WTC até os momentos de perigo que cada envolvido passou dentro das Torres Gêmeas. Os erros, os acertos e as desconfianças entre os franceses e os americanos da trupe de Petit rendem uma história surpreendente, com momentos tensos e cômicos. Surpreende também, as imagens de arquivo captadas pelos amigos do equilibrista e por emissoras de TV na época.” Surpreendente. E você, homem-comum, vai deixar algum feito assim para a história?
Sempre quando discutimos a respeito do que seria uma cultura legitimamente brasileira, nos empurram goela à baixo o fato de que nossas origens são por si só multiculturais e multirraciais. Somos a mistura, por vezes inexata, do branco europeu, o negro africano e o índio sul-americano. Sendo assim, nada do que façamos culturalmente é original ou essa mistura toda é o que nos dá originalidade? Ao assistirmos o longa do diretor alagoano Cacá Diegues, Bye Bye Brazil (1979) nos encontramos em um momento em que a cultura brasileira parece se encontrar em uma imensa bagunça refletindo em um total falta de originalidade. O contexto político que está no pano de fundo da história é a ditadura militar, em um processo de transição entre os governos dos militares Geisel e Figueiredo. Teoricamente as coisas estavam abrandando e se redemocratizando. Mas culturalmente estávamos (ou ainda estamos) mais americanizados do que nunca. O cerne da história é de uma trupe circense denominada Caravana Rolidei (um aportuguesamento de Holiday) que circula pelo Centro, Norte e Nordeste do nosso país. E não pense que os grandes inimigos do insucesso da caravana em alguns locais seja outras trupes concorrentes. As “espinhas de peixe”, como são denominadas carinhosamente as antenas de televisão são as grandes vilãs da trupe trazendo ao filme uma interessante crítica à cultura de massa que a TV brasileira alienadamente proporciona. Na tela vemos cenas da novela global Dancin’Days com a rebolante Sônia Braga e fora dela vemos precárias baladas montadas tentando imitar esse ambiente de Os Embalos de Sábado a Noite (1977). E é nesse ponto de o terceiro mundo tentando, sem nunca conseguir ser o primeiro, acoplado a um ambiente de ditadura, que Bye Bye Brazil se assemelha ao longa chileno Tony Manero. Em ambos a televisão é um aparelho hipnotizador capaz de trazer uma falsa esperança alienada às massas, além de mostrar o predomínio da cultura estado-unidense que, não se esqueçam, contribuiu em forma de patrocínio financeiro para que a América Latina se calasse diante de opressora da ditadura militar para que toda ela não se tornasse uma Cuba socialista. Se no longa chileno essa submissão cultural se dá através de um indivíduo que quer ser o John Travolta, em Bye Bye Brazil a coisa é muito pior. Vemos índios ouvindo rádio e tomando coca-cola, sertanejos parecendo zumbis diante da TV e jovens se requebrando precariamente ao som de uma banda cantando Bee Gees a moda “embromation”. Situações bizarras dentro de um imenso Brasil sempre aberto a se transformar, não importando muito os rumos éticos dessa transformação. Para finalizar devo comentar do personagem que mais me chamou atenção no longa, o Zé da Luz interpretado pelo saudoso Joffre Soares. Com um rolo de película de O Ébrio (1946) e um projetor ele circula pelo sertão levando a magia do Cinema a seus moradores. Se antes ele fazia sucesso em feiras e afins, a Caravana Rolidei o encontra trocando a exibição do filme por um prato de comida. Nos faz pensar e comparar a situação atual da mídia cinematográfica no Brasil: presa nos shoppings , longe das periferias mas em um camelô perto de você.
O cineasta alagoano Carlos Diegues, ou Cacá Diegues, possui uma importante filmografia dentro da história do Cinema Brasileiro. Estão sob sua direção títulos como Xica da Silva (1976), Tieta do Agreste (1996), Orfeu (1999) e Deus é Brasileiro (2003). Em 1979 ele seria responsável por uma obra que mostraria que a transição ditadura/democracia em nosso país não traria grandes progressos a muitos brasileiros. Everton Amaro no blog Novo Tom
disserta mais sobre o contexto cultural que envolve o longa Bye Bye Brazil (1979). “O longa-metragem dirigido por Cacá Diegues mostra o Brasil da década de 70, período marcado pela ditadura militar. Nesta época o país passa por um processo de modernização. Com a vinda das multinacionais as condições culturais, sociais e econômicas são modificadas; modificações essas, que são fielmente retratadas numa aventura vivida pela Caravana Rolidei, percorrendo o norte e o nordeste do país, através da Trans-Amazónia. A globalização mudou a forma de agir, pensar e ser de todo o planeta terra, com os brazucas não poderia ser diferente. Em Bye Bye Brazil, é nítido os choques culturais recheados com um humor fino e esculhambado; índios usando bermuda e óculos Rainbow, bailes bregas tocando músicas americanas, a caravana rolidai com atrações de primeiro mundo; e ela, a própria, Betty Faria, nossa rainha do chanchada no papel de Salomé. (…) O Brasil retratado por Cacá Dieges -- não querendo ser um falastrão -- está virando uma bisca endomingada. Com a cultura multinacional criando um universo de desejo por bens de consumo, a perda de identidade é muito clara, principalmente quando o filme retrata uma super valorização de o que é vindo de outros países.” Jairo Ferreira no blog Cinema de Invenção faz apontamentos a respeito das regionalidades apontadas no longa. “O filme se passa no Nordeste, Norte e Centro do Brasil. Mas o Brasil todo não cabe em três regiões: o Brasil está em São Paulo, onde há nordestinos, nortistas, centristas, sulistas. O Brasil todo só coube num único filme, O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, porque a ação é passada em São Paulo, com todas as regiões sintetizadas na maior concentração industrial ou não do País. Mas Bye Bye também não é um filme sobre o que começa a acabar naquelas regiões. Se entendi bem, o que começa a acabar é o pessimismo e o que acaba de começar é o otimismo. (…) Não estou sendo irônico nem maldoso: estou sendo crítico. O filme de Diegues exibe uma má consciência do Brasil. Não sei se pior ou melhor do que aquela de Arnaldo Jabor em Tudo Bem (1978) tentando colocar o Brasil todo dentro de um apartamento! Turismo pretensioso é tão nocivo quanto sínteses parciais e equivocas que se tomam por abrangentes. De resto, não engulo a frase final de Bye Bye: ‘Ao povo brasileiro do século 21’.” Então que nos brasileiros deste novo século vejamos esta obra a que nos foi dedicada.
Entre os muros, é um filme que condensa na tela todas as possíveis situações que poderiam ocorrer em um ambiente escolar. Vai do professor que tem total controle sobre a turma ao que perde controle sobre essa. Os alunos falastrões aos mais recatados. O aluno problema. As reuniões de professores com a diretoria, para discutir sobre os métodos de punição dos alunos desajustados à cafeteira. A conversa entre Professores e Pais de alunos. Os conflitos pessoais aos quais os alunos fazem questão de dividir com seus professores, e os outros que não. Mas, é um filme, vamos falar dos personagens. Começando pelo Professor de Frances François Marin (François Bégaudeau), ele já entra na sala de aula pela primeira vez sabendo que não será fácil trabalhar com aqueles alunos, por isso os chama para o confronto a toda hora, puxando deles todo o seu conhecimento, ou desconhecimento por assim dizer. Dos alunos os destaques ficam por conta da Esmeralda (Esmerálda Ouertani), acho que a preferida de todo mundo, que é A debochada da sala, sempre junto de sua amiga Khoumba (Rachel Régulier), que só não é mais confrontadora que o aluno Souleymane (Franck Kelta), sempre sentado no fundão da sala, com voz ativa, a despeito de suas limitações em interagir de forma produtiva nas aulas, paracendo só conseguir se comunicar bem com Boubacar (Boubacar Thouré). Não só o imigrante chinês Wei (Wey Huang), é o deslocado no contexto de origem daquela sala, mas quase numa totalidade todos os alunos daquela escola da periferia de Paris. Já vi Mentes Perigosas, Ao mestre com carinho e Meu mestre, minha vida, mas acho que O filme de sala de aula é sem dúvida Entre os muros da escola.
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Eu cheguei atrasado à sessão de O visitante, mas peguei a parte que é o ponta pé inicial da trama que é o primeiro encontro entre Walter Vale (Richard Jenkins) e o casal Zainab (Danai Jekesai Gurira) um músico sírio e Tarek (Haaz Sleiman) uma senegalesa vendedora de pulseiras trançadas. Em situação ilegal nos EUA, o casal viu como uma forma de refúgio o apartamento de Nova York do Prof. Walter, no total desconhecimento deste morador de Connecticut, que a principio os despeja de sua casa mesmo que de forma cordial, tendo em vista que estes só usaram o apartamento, pois foram enganados por um homem de nome Ivan. Quando Walter percebeu que o casal não tinha onde ficar os convidou para ficar enquanto não encontrassem um lugar melhor. O filme começa em ritmo lento com o súbito interesse de Walter pelo os dotes musicais de Tarek, o ensinando a tocar tambor, sendo até essa parte me levando a crer que seria um filme sem nada demais, só uma composição sobre choques culturais. Mas, aí a virada acontece quando num desentendimento no metro Tarek é preso. Aí que a filme ganha corpo para discutir o tratamento dispensado aos imigrantes ilegais nos EUA. Quem se diverte com a série criada por Joel Surnow e Robert Cochran, talvez não faça idéia do tratamento dispensado a imigrantes, que não cometeram crimes, mas são tratados da mesma maneira que terroristas. Essa gana em achar o “inimigo” criou uma loucura generalizada nos EUA. É “divertido” em séries e em filmes no fim das contas se torna o grande pesadelo para quem quer entrar pela janela na terra dos sonhos, ou mesmo quem possui o Green card. O desenho das torres gêmeas na parede no Centro de Imigrantes Ilegais no Queens, pode ser entendido até como uma metáfora para dizer que para os estrangeiros não houve mudança significativa nesse sentido, mas para os norte americanos sim. Mas, não só de xenofobia é feito o filme, o affair entre Mouna (Hiam Abbass), mãe de Tarek, e Walter ganha a viés de clássico do cinema.
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Quem Quer Ser Um Milionário?
Slumdog Millionaire
Reino Unido / EUA , 2008 -- 120 min
Drama
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco: Dev Patel, Irrfan Khan, Anil Kapoor, Madhur Mittal, Freida Pinto
Filmes de baixo orçamento têm surpreendido e recebido diversas indicações em várias premiações nos últimos anos. Foi assim com Pequena Miss Sunshine em 2007 e com Juno em 2008. Esses filmes chegaram como “zebras” no Oscar, concorreram a Melhor Filme, mas não levaram. Esse ano, Quem Quer Ser Um Milionário?, o filme “barato” da vez, chegou como surpresa e levou 8 estatuetas, incluindo a de Melhor Filme.
O filme mostra a história de Jamal Malik (Dev Patel), um garoto indiano de 18 anos, nascido na periferia de Mumbai, que participa de um jogo de perguntas e respostas de grande sucesso em seu país, uma espécie de “Show do Milhão” da TV indiana. Jamal vai se mostrando um excelente jogador e isso chama a atenção de alguns que pensam ser impossível um garoto pobre como ele saber todas as respostas. Para explicar de onde sabia cada resposta e provar sua inocência, Jamal vai contando diversos momentos de sua vida ao lado de seu irmão Salim (Madhur Mittal) e de seu grande amor, a garota Latika (Freida Pinto). A partir daí, o enredo do filme se desenvolve, na medida em que nos vai sendo mostrado de maneira bastante interessante o cotidiano nas favelas indianas e o destino de muitas das crianças que lá vivem. Nesse momento o filme nos faz lembrar um pouco da nossa realidade, a violência e a criminalidade que predomina em muitas das favelas brasileiras e o rumo que muitas crianças acabam tomando. Esse é um tema muito explorado no cinema brasileiro, por isso em determinadas partes temos a impressão de que estamos assistindo a uma produção nacional.
É um filme cheio de movimento, cores, tudo animado pela excelente trilha sonora, que explora bem os ritmos indianos. A história é ágil, permeada pelos flashbacks que contam a história da infância de Jamal, um vai-e-vem contínuo que visa nitidamente manter os espectadores ligados, sem jamais aborrecer. Esse ritmo frenético somado a uma boa dose de humor (mesmo em momentos bastante dramáticos, diga-se de passagem) são responsáveis por tornar o filme tão divertido e interessante.
Para manter esse clima tão intenso e colorido, o filme capricha nos efeitos sonoros e na fotografia. Isso é perceptível em cenas de grande movimentação, em que essa qualidade é colocada à prova. Aliás, o quesito fotografia é outra semelhança em relação a alguns filmes brasileiros, especialmente Cidade de Deus.
O roteiro foi adaptado por Simon Beaufoy, baseado no livro “Q and A”, de Vikas Swarup. A direção é de Danny Boyle, cineasta e produtor inglês, também diretor de A Praia e Extermínio. Ele contou com um orçamento de US$ 15 milhões, o que é pouco, tomando como padrão as grandes produções hollywoodianas. Boyle disse que queria um filme que mostrasse a verdadeira cara da Índia. Por isso, optou por fugir um pouco dos estúdios de Bollywood e filmar em locações abertas, de grande movimentação popular. Isso contribui fortemente para dar mais realismo às tomadas externas.
O filme é, apesar de tudo que acontece com o pobre Jamal, alegre. Isso é uma característica até do próprio povo indiano, que, de modo parecido com os brasileiros, sofrem com a profunda pobreza, mas nem por isso deixam sua alegria se esvair, vivem cantando, dançando, mesmo sem motivos para festejar. Talvez tenha sido essa alegria incondicionada que tenha cativado tanto a crítica e público.
Quem Quer Ser um Milionário? é, sim, um grande filme. No entanto, acho que foi um pouco supervalorizado. Oito Oscars e quatro Globos de Ouro são muita coisa. Ainda acho que O Curioso Caso de Benjamin Button é melhor e merecia mais que seus três Oscars. Mas, afinal, Quem Quer Ser um Milionário? acabou sendo uma boa surpresa, pois consolidou os filmes de baixo orçamento no hall das grandes premiações. Os grandes que se cuidem, pois agora foi provado que mesmo com pouco dinheiro é possível se produzir um bom e competitivo filme. Enfim, até na indústria do cinema existe o tal do bom, bonito e barato.
Publicado por: Juliano Gadêlha -- http://www.cinematuto.blogspot.com/
Em 1977 enquanto as pistas se incendiavam e literalmente ferviam, na grande tela o longa Os Embalos de Sábado a Noite (1977) resumia a época: calças bocas de sino, trilha sonora disco, coreografias ensaiadas e (porque não?) uma certa dose de alienação e violência. E a figura central que representa todas estas características está no personagem Tony Manero interpretado por John Travolta, um ícone imitado e seguido por muitos, especialmente por um chileno, de nome não menos cômico, Raúl Peralta que mesmo aos 52 anos é obcecado em ser o tal personagem. Esta é a trama central do longa do diretor chileno Pablo Larrain Tony Manero (2008). Com um argumento tão tendencioso à comicidade, o diretor conseguiu mesmo assim gerar tamanha carga dramática e sufocamento que o filme se revela um imenso e profundo dramalhão. No início ficamos com pena de um senhor da periferia de uma pequena cidade chilena tentar ser a todo custo algo que ele nunca será, um galã de primeiro mundo. Apesar de toda alienação de querer se tornar uma estrela hollywoodiana a realidade que cerca o personagem insiste em lhe dar um tapa na cara da sua vidinha de terceiro mundo, afinal a trama se passa exatamente nos piores e mais repressores e violentos anos da ditadura de Augusto Pinochet no país. Mesmo assim Raúl insiste, e insiste tanto nesta idéia de “Meu Nome é Tony Manero” que durante a projeção ele acaba se revelando um nojento, asqueroso, violento e obsessivo psicopata. A cinematografia da perseguição implacável de Raúl ao seu objetivo metaforiza o sufocamento e aprisionamento através de vários closes fechados nas ações do personagem. Outro fator interessante se dá nas várias câmeras subjetivas que revelam a visão de mundo de Raúl, sempre embaçada no que está distante, apenas focada no seu pequeno objetivo de ser Tony Manero. No fim, a sensação que fica desta obra é de que ela poderia gerar muito mais do que conseguiu, porque ficamos absolutamente sem entender os objetivos do protagonista, e principalmente os objetivos do diretor. Mostrar a alienação para se fugir da repressão? A violência por trás da obsessão? Um existencialismo vazio? Só um pequeno aviso: Este filme é daqueles que se acaba em um corte abrupto e repentino, visando passar a sensação de “acabou por aqui e imaginem vocês mesmos o que acontece com o cara depois”. E, desculpe… mas não da pra imaginar nada. Só da vontade de sair do cinema e esquecer a cena asquerosa de Raúl cagando no terno de um oponente em um concurso de sósias de Tony Manero. Asqueroso e lamentável, assim como o longa.
Presente na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo o longa chileno Tony Manero (2008) do diretor Pablo Larrain confundiu e desagradou a crítica. No blog O Fino da Mostra Ligia Hercowitz comenta quanto ao potencial que o filme teria com seu argumento, mas que foi totalmente mal desenvolvido durante a trama.
“Em Os Embalos de Sábado a Noite, Tony Manero, vivido por John Travolta, foi uma febre. Já no novo filme chileno, que leva o nome do personagem em seu título, ele não causa tanto impacto. (…) Com um começo estagnado, o filme é chato durante muito tempo. O enredo é feito para prender a atenção do espectador, mas não prende. A evolução dos fatos e do próprio personagem é entediante. Um roteiro que aparentemente promete grandes risadas chega a ser sem graça na maior parte do tempo. A última meia hora do filme consegue ser melhor do que o resto dele. Fica claro o momento que ele toma um rumo interessante, chamando a atenção de quem estava dormindo na poltrona até então(…) É um drama pesado (apesar de parecer, pelo título e pela história, divertido), mostrando um ambiente pobre e sujo da ditadura de Pinochet. E é em Tony Manero que Raul encontra sua escapatória de tudo isso. Se o filme fosse tão bom quanto o enredo, seria um sucesso absoluto.” Angélica Bito do Yahoo! Brasil Cinema questiona quanto a falta de objetivo na trama. “Tony Manero não tem ano definido; os fatos que servem de pano de fundo para datar esta trama são Os Embalos de Sábado à Noite em cartaz no Chile e a ditadura militar imposta por Augusto Pinochet após sua tomada do governo, em 1973. Por retratar um período de governo violentamente totalitário, Tony Manero deve se situar a partir de 1981, quando este regime foi implementado. Na realidade, o tempo é o que menos importa na narrativa, mas sim como ela é conduzida. Há algo de claustrofóbico no filme principalmente no fato dele acompanhar um protagonista tão descontrolado, violento e imprevisível. Aos 52 anos, ele não tem muitas perspectivas, nem mesmo objetivos maiores do que ganhar um concurso de dança na TV. Mesmos sabendo que pode estar velho demais para isso. É um vazio eterno em sua vida. Filmado em digital, Tony Manero tem algumas cenas filmadas na mão que tremem demais, o que acaba incomodando, mas não interfere em sua dramaturgia. O vazio do personagem incomoda, irrita, mas é proposital. Ficou faltando, no entanto, uma maior clareza nos objetivos do filme. Simplesmente contar uma história? Talvez. Mas parece ser vazio demais, mesmo quando se trata de um personagem tão perdido quanto o deste longa-metragem.” Desse jeito o diretor poderia então ter mudado o nome do personagem, e consequentemente do filme, para Tony Desespero.
Quer uma animação blockbuster para a família inteira se divertir e que ainda gere uma bilheteria absurda? Seus problemas acabaram! Basta pegar grandes longas de ficção-científica clássicos que tratam de monstrengos e aliens como Guerra dos Mundos (1953), O Monstro da Lagoa Negra (1954), A Bolha (1958), A Mosca (1958), O Ataque da Mulher de 15 Metros (1958), Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), O Ataque dos Tomates Assassinos (1978), E.T. (1982), Independence Day (1996) ou M.I.B. -- Homens de Preto (1997). Acrescente também piadinhas com a série Star Trek, os filmes do Rambo, o longa Dr. Fantástico (1964) de Stanley Kubrick e até uma referência ao documentário Uma Verdade Inconveniente (2006) de Al Gore. Esta lambança indigesta em forma de roteiro resulta em Monstros vs. Alienígenas (2009) a nova obra da Dreamworks. Particularmente classifico o longa como típica diversão pipoca. Era um domingo a tarde sem muito que fazer e com medo do meu Santos não se classificar no Paulista, então optei por levar minha priminha de 10 anos e minha mãe de quarenta e poucos para se divertiram com esta película. Ainda dei algumas umas risadas com elas durante a projeção. Mesmo assim tive que ouvir os insistentes pedidos de minha priminha de que ela quer que eu a leve para ver o novo filme da Hannah Montana. Consegui barganhar a medonha opção por Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Voltando aos monstrinhos e alienígenas, criticamente falando o roteiro além de misturar todas as referencias citadas ainda nos joga a típica lição de moral de “seja você mesmo, respeite as diferenças, e bla bla bla”. Realmente, não há nada nesta produção que chegue a profundidade existencial e filosófica de um Wall-E (2008) da Pixar. Uma pena que mais uma produção da casa concebida pelo mago Steven Spilberg esteja perdendo feio em qualidade para a lanterninha de mesa. Dúvida? Então confira o post deste blog (em inglês) SlashFilme CLICANDO AQUI e deixe depois um comentário aqui se a animação do ano não será Up!
Monstros VS Alienígenas (2009) mais uma vez coloca a Dreamworks em um patamar de bom estúdio de animação pela qualidade técnica, mas faltando certa dose de ousadia e inovação. Janaína Pereira no site Herói aponta algumas falhas no roteiro deste desenho. “Como toda boa animação, tem personagens carismáticos e um roteiro bacana. Talvez falte um pouco mais de aventura aqui e humor ali – afinal, é uma comédia de ação. Mas podem ficar tranquilos: certamente a garotada vai gostar, e os adultos também. (…) Um dos pontos altos do filme é a referência a outras produções, como ET – o Extraterrestre, de Steven Spielberg. A qualidade da animação é boa, embora os humanos não pareçam reais. E, ainda que a versão original conte com atores que ‘incorporaram’ com perfeição os personagens (Kiefer Sutherland, o Jack Bauer, também está no elenco), a dublagem brasileira dá conta do recado. Monstros vs Alienígenas está longe de ser arrebatador como Shrek e Madagascar, sucessos anteriores da DreamWorks, mas é um filme que cumpre sua função: diverte e agrada toda a família. E não perca os créditos finais, pois é lá que está uma das cenas mais engraçadas, uma piada envolvendo o presidente dos Estados Unidos. Até porque piada com presidente americano em filme americano é, quase sempre, divertida.” Thiago Siqueira do Cinema com Rapadura também aponta certos pontos positivos do roteiro, principalmente as referências de longa visando atrair a atenção dos adultos presentes na sala de projeção. “Monstros Vs. Alienígenas, animação que pega diversos conceitos de vários filmes sci-fi clássicos e os transforma em uma aventura animada com bastante estilo e muito humor, sem esquecer a clássica lição de moral no final. (…) Assim como as ficções científicas que pipocavam nas telas nos anos 1950, o roteiro de Monstros Vs. Alienígenas é bastante simples, não tendo grandes reviravoltas. No entanto, o texto do longa foi arrumado para acomodar diversas e ácidas referências ao mundo sci-fi, brincando com os clichês do gênero, do mesmo modo que a franquia Shrek fez com as fábulas.(…) Embora tais referências sejam encaixadas de maneira adequada e desenvolvidas pelo roteiro, é provável que parte destas não sejam nem notadas pelas crianças, pois é óbvio que esse universo da ficção científica não é tão acessível a elas quanto o das fábulas.” Érico Borgo do Omelete
novamente comenta o fato do roteiro ter dado ênfase aos efeitos 3-D. “A produção segue à risca a receita de sucesso das animações recentes. Mistura humor inteligente, uma pitada de besteirol e ação empolgante. No mix, inclui ainda uma sátira política divertida. (…) Fica a ressalva, porém, à falta de ousadia narrativa. O filme é seguro demais, joga limpo, dentro das regras. Falta a ele a veia contestadora dos longas da Pixar ou mesmo a inovação artística de outras produções da casa, como Kung Fu Panda. Há uma lição de vida obrigatória ali, mas é um tanto maçante. Ainda que o roteiro não tenha sido esquecido, é óbvio que o foco ficou mesmo nos efeitos 3-D -- que, vale dizer, são incríveis mesmo. De qualquer maneira, fica espaço de sobra para inovar no próximo. Sim, porque mais do que bons personagens, história na média e efeitos inovadores, Monstros vs. Alienígenas um filme extremamente bem-sucedido em criar um universo. E, você sabe, a palavra ‘universo’ em Hollywood é sinônimo para ‘franquia’, portanto, espere novos monstros em breve nas telonas…” Aguarde, em um cinema perto de você.






















