Realidade Imutável?

Rio 40 Graus 2Nelson Pereira dos Santos figura dentro da história do cinema nacional como um dos maiores cineastas de nosso país.  Dirigiu mais de 20 filmes, dentre eles Mandacaru Vermelho (1961), Vidas secas (1963), O Amuleto de Ogum (1974), Na Estrada da Vida (1980), Memórias do Cárcere (1984) e Brasília 18% (2006), sua mais recente obra. Foi agraciado com diversos prêmios nacionais e internacionais, fundou a graduação de Cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras no ano de 2006 com a honra de ser o primeiro cineasta a alcançar este feito.Nelson é oriundo de família italiana, nasceu no bairro do Brás e foi criado no Bixiga. Mesmo formado em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco, o cinema sempre lhe despertou paixão e interesse ao freqüentar diversos cineclubes da cidade. Acabou escolhendo o Rio de Janeiro como lar e foi lá que, após ser assistente de direção dos diretores cariocas Paulo Wanderley e Alex Viany, filmou o seu primeiro longa Rio 40 Graus (1955) considerado precursor do movimento do Cinema Novo no país. O embrião do Cinema Novo se iniciou quando alguns cineastas e intelectuais se inquietaram com o fato de que os filmes produzidos no Brasil não debatiam questões sociais importantes para o momento. Além disso, os incomodava que boa parte das produções nacionais estavam ligadas a tentativa de elaborar algo glamurizado e hollywoodiano, o que seria oposto a realidade do país. Com Rio 40 Graus, Nelson fez uma obra que respondia essa inquietação ao apresentar personagens de várias classes e interagindo em diversas situações que transmitiam uma amostra da realidade social daquele período. A parti daí as bases do Cinema Novo foram se alicerçando nas premissas de que o filme deveria ser feito com baixo orçamento, com idéias simples de roteiro, usando pouco recursos fílmicos, porém criativos, e com temática ligada ao subdesenvolvimento. Além destes aspectos que despontaram no movimento do Cinema Novo, Rio 40 Graus possui uma forte veia documental ao apresentar o recorte do cotidiano de vários tipos próprios do Rio de Janeiro em um domingo de sol escaldante. A trama parte de um grupo de crianças moradoras do morro do Cabuçu que seguem pelos principais pontos turísticos da cidade vendendo amendoins. Estão presentes como cenário o Jardim Botânico, a praia de Copacabana, o Aeroporto do Galeão, o estádio do Maracanã, o bondinho do Corcovado e o Cristo Redentor. À medida que cada uma das crianças dispersa por estes locais nos encontramos com outras personalidades que se esbarram pelo dia-a-dia carioca: bons-vivants, guardas, marinheiros, aeromoças, apostadores, torcedores, jogadores, cartolas, fotógrafos, repórteres, políticos, sambistas, gringos, turistas. O interessante é notar que apesar da obra ter mais de 50 anos e ser contextualizada por expressões, hábitos, costumes e figurinos usuais à época, a câmera consegue transmitir conflitos que estão presentes no nosso cotidiano até hoje, seja pela universalidade da situação, como a moça que fica grávida e precisa de uma figura paterna para cuidar do seu filho, ou pela incapacidade do tempo em transformar um erro em acerto, como na situação dos cartolas que dominam o passe de jogadores tratados como mera mercadoria futebolística. Ao final das contas assistir Rio 40 Graus transmite a sensação de que revisitamos o passado de nosso país deslumbrando erros que nossa sociedade ainda não conseguiu corrigir, ou que estamos caminhando muito devagar para conseguir transformar.

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Clássico de Origens

Rio-40-Graus-3“O monumental trabalho desenvolvido por Nelson Pereira dos Santos em Rio 40 Graus, visto como marco inicial de um movimento que revitalizou o cinema nacional, é estupendo e merece reconhecimento eterno.”
Conrado Heoli -- CinePlayers

“Rio, 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, é o filme mais importante da história do país, influenciador maior do Cinema Novo e cuja estética realista de semi-documentário pode ser percebida nos principais filmes brasileiros desta década.”
Daniel Faria  -- Revista Wave

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Uma História de Amor e Sonhos

UP A BlogueiraO novo longa dos estúdios Disney/Pixar já carrega no seu subtítulo em português o tom de ação que a trama terá: UP – Altas Aventuras (2009). A promessa de que você verá em tela grande muitas cenas de perseguição, tensão, suspense e boa dose de adrenalina será devidamente cumprida. E tudo isto está lá, aliás muito bem concebido como todos os filmes da Pixar o são nos cuidados em cada detalhe do roteiro. Mas UP, acima de tudo, é uma história de amor, de sonhos frustrados e na busca incessante por realizá-los. No começo conhecemos dois pequenos sonhadores aventureiros que são uma menina ruiva e faladeira chamada Ellie e um menino gordo e introspectivo chamado Carl. Ellie compartilha com ele o segredo que um dia irá até a América do Sul para conhecer e viver ao lado das Cachoeiras do Paraíso. Em um corte temporal já vemos os dois personagens jovens e se casando e a partir daí temos a sequência mais bela e delicada que já vi em um filme, aquela em que para mim foi mais difícil segurar as lágrimas (você poderá vê-la no vídeo abaixo). Com apenas uma música incidental de fundo, vemos toda a história do casal se desenrolando, desde a compra da casa, a gravidez, o trabalho, o companheirismo e acima de tudo um resumo de quanto o dia-a-dia atribulado e vários pequenos incidentes fizessem com que o casal adiasse o sonho de conhecer as cachoeiras. Quando finalmente Carl compra duas singelas passagens para a Venezuela, sua companheira Ellie o deixa. Com isso é o velho e ranzinza Carl Fredricksen que domina a trama, com toda sua introspecção e solidão transformada em rabugice. Porém, por um acidente que pode o levar ao tão temível asilo, Carl decide embarcar na aventura de sua vida e quem o acompanha, mesmo sem querer, é o pequeno Russell, um garoto prestativo que se auto-denomina explorador da natureza mas que aparentemente nunca saiu do condomínio urbano em que vive. A partir daí temos toda a aventura que descrevi no início do post, com direito a um vilão com complexo de Moby Dick, Charles Muntz, que se tornou amargo e obcecado em capturar um espécime de ave na região da América do Sul que o velho e o garoto vão parar. Novamente enfatizo que qualidades técnicas não faltam nas animações da Pixar, mas o que mais as engrandecem são os roteiros sensíveis que tocam o público no sentimento certo, seja através de um peixe perdido em Procurando Nemo (2003), um rato que quer se tornar chefe de cozinha em Ratatouille (2007) ou a determinação de um pequeno e frágil robô em Wall-E (2008). Todas estas  histórias possuem um personagem em busca de um sonho, de uma transformação na vida. A diferença é que em UP isso toca ainda mais fundo pelo protagonista ser um humano como nós, com todas as frustrações e amarguras que carregamos. E como eu disse no começo, UP é uma história de amor e é de derramar lágrimas vermos Carl seguir sua jornada sem nunca abandonar o amor de Ellie, sempre conversando com ela através da casa, das fotos, dos objetos. A resolução, vocês já devem imaginar, mas o que vêm depois dela que é mais emotivo e sensível para os personagens e nós, espectadores. Quero finalizar dizendo que escrevo esse post 3 semanas após o lançamento do filme no país, então é provável que alguns de vocês já o tenham visto. Para estes, peço que deixem nos comentários o quanto o filme os tocou e porque. E para os que ainda não o viram espero ter convencido e sensibilizado para que não percam a oportunidade de ver essa jornada de aventura e transformação.

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Maturidade

UP A Crítica“UP é mais melancólico e muito mais maduro, capaz de agradar tanto às crianças que desejam rir de personagens mais engraçados, quanto aos adultos que já viveram boa parte de sua vida e compartilham de alguma parcela da melancolia que ronda Carl, sua casa e suas lembranças.”
Érika Zemuner – Pipoca Combo

“Palavras jamais fariam justiça à vida de Carl Fredricksen. Essa honra cabe apenas à Pixar.”
Érico Borgo -- Omelete

“Up é apenas uma animação com muito lirismo.”
Lola Aronovich – Escreva Lola Escreva

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Loucuras, loucuras e mais loucuras!

Como um filme com praticamente premissa nenhuma, consegue ser tão bom, e nos surpreender? Pelo seu hilário, ótimo, original e exótico roteiro. O mesmo é o fator mais importante do filme. Na verdade, é o que dá mais crédito ao filme. Ele é simplesmente hilário e fantástico, com cenas absurdas, mas divertidas. Com cenas tão improváveis, mas tão improváveis, que isto é que nos faz rir. Quando pensamos que a situação não tem como piorar, o roteiro nos espera com uma surpresa a mais. Incrível! Fabuloso! Uma das melhores (se não a melhor) comédia do ano! Uma grande surpresa! O trio principal do filme se encaixa muito bem, numa sincronizada harmonia, onde a falha ou a falta de um ator ou personagem é coberta pelo outro. Ou seja, um ator completa o outro, e isto é muito bom! A parte técnica do filme é simples, mas consegue exercer muito bem o seu papel no filme. Somente há um erro em “Se Beber, Não Case”: as músicas. Não que sejam chatas, pelo contrário, as músicas que tocam no filme são músicas muito boas, mas o problema é que elas não foram bem empregadas. No começo, somos entupidos de músicas, de diferentes gêneros, diferentes cantores e ritmos, o que prejudicou um pouco o filme. Mas não a ponto de o deixá-lo mais inferior. Recomendo muito este filme. Se você estiver cansado, deprimido, triste, assista Se Beber Não Case, você se sentirá muito, muito melhor! Vale a pena!

Publicado por: Selton Dutra Zen

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A Erva do Rato

A Erva do Rato VocêA Erva do Rato fala de casamento de uma maneira bem diferente da habitual. Não estou falando dos dogmas, cerimônias e coisa e tal, mas da vida à dois, de sua rotina estafante e como um novo elemento na relação pode fazer diferença. No caso, um rato. Apresentar um cinema com uma proposta diferente da convencional não é fácil. A obra pode ser facilmente ser taxada de porcaria, sem que a pessoas compreendam que pode sim no cinema, alguém apresentar algo que se distancie da mensagem, da solução para o problema, ou seja, que simplesmente, jogue você para aquele ambiente inóspito na vida de um casal. Selton e Alessandra encarnam desconhecidos que foram unidos pela morte. Selton cada vez mais se especializa em tipos que se comunicam e incomodam outras pessoas, mas parecem estar imersos em um universo interior tão grande, como foi em Cheiro do Ralo, A Mulher Invisível, seriam os introspectivos que sabem se expressar. E uma evolução que já tinha percebido, em Jean Charles, que o Selton tem conseguido trabalhar melhor seu lado emotivo, realmente sou fã de Selton Mello e é o único grande ator brasileiro que eu realmente me identifico. Alessandra Negrini, exibe suas belas formas nuas que já figuraram nas páginas daquela Revista de Mulher Nua, e no popular, seria a única coisa que presta no filme. Pois, é difícil aceitar uma proposta tão diferente no cinema, talvez no teatro cairia como uma luva, mas parece que para muitas pessoas o cinema está aí para apresentar o que lhe é de seu agrado. Mas, eu tenho que concordar que faltou o tal pulo na trama, algo que imaginei ao ler a sinopse. Sua conclusão causou um mal estar em mim e no resto das pessoas da sala, mas aplaudo, Selton e Alessandra por segurarem a peteca até o fim.

Publicado por: QUEIROZ -- http://escritosmalditos.blogspot.com/

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Decadência Humana

Che 2 - A BlogueiraEm março deste ano estreou nos cinemas brasileiros a primeira parte da saga do cineasta norte-americano Steven Soderbergh sobre o ícone comunista Ernesto Che Guevara denominado Che – Parte 1: O Argentino (2008). E hoje, depois de 6 meses de um vácuo que só se explica comercialmente, estréia Che – Parte 2: A Guerrilha (2008) explicitamente como uma ponta solta da primeira história que, enfatizo, deveria ter sido mantida como uma obra única.Neste capítulo, dois rostos novos no elenco me chamaram a atenção. O primeiro foi a da atriz Franka Potente, do clássico undergrond Corra Lola Corra (1998) e do blockbuster A Identidade Bourne (2002) interpretando a guerrilheira Tânia. E o outro foi o de Lou Diamond Phillips que ficou famoso nos anos 80 interpretando o cantor de fama meteórica Ritchie Valens em La Bamba (1987). Mas quem continua lá como absoluta alma do filme é Benicio Del Toro interpretando Che. Esteticamente há diferenças nítidas entre a primeira e a segunda parte. A primeira é muito mais a-linear, intercalando cenas preto e branco e coloridas, buscando construir  dentro da trama o mito que Che se tornou. Já a segunda parte se mostra mais lenta, tradicional e linear, sem grandes recortes temporais e uma fotografia mais uniforme, que serve para justificar tanto o amadurecimento do homem Che em termos de idade como pela dissolução de sua fama e ideais já terem sido espalhados por toda América Latina naquele momento. Novamente vemos uma guerrilha sendo montada, agora no interior da Bolívia, e mesmo as táticas de avanço sobre o inimigo mostram uma aparente maturidade.  Uma das incongruências entre os personagens centrais no desfecho de Che Parte 1 é evidenciado pela diferença no momento em que Fidel e Che estão vivendo no filme 2: enquanto Che está lá, no campo de batalha continuando a luta por justiça social, Fidel é mostrado em uma breve cena como um estadista confortável em seu cargo , durante uma festa de luxo em que ele está bem vestido e conversando alegre e despretensiosamente com duas belas moças sobre o segredo de se preparar um bom mojito. Outras cenas também fazem com que se compreenda a nova visão de Che agora na luta boliviana. Se antes ele não aceitava homens muito jovens, agora ele aceita de bom grado um menino de 16 anos no moviemento. O seu discurso de convocação perante os combatente bolivianos é o mesmo perante os cubanos, com a realidade de que muitos morrerão, passarão privações e fome. Mas na primeira parte ele era feito de forma acalorada e nesta segunda ele tem um tom de alguém mais velho e cansado. Aumentando o clima de derrocada, em diversos momentos o grupo se mostra desunido perante coisas banais como latas de leite condensado. Se os cubanos eram motivados e a população campesina apoiava os guerrilheiros, neste os bolivianos se mostram dispersos e com camponeses mais desconfiados e propensos a manipulações dos membros do exército de entregarem os guerrilheiros. Aos poucos o cansaço, a desunião, as doenças e denúncias vão abatendo tanto o grupo como Che, que tem sua asma atacando novamente, seu burro de carga que não quer prosseguir caminho, e a malária que o deixa ainda mais abatido. E na outra ponta o exército boliviano como vilão maniqueísta que com a ajuda pontual da inteligência americana, seja em pistas ou em equipamentos, vai se aproximando de Che rumo a sua derradeira captura, execução e exibição, tal qual qualquer livro de história relata. Tem-se então neste capítulo final um grande ícone, que apesar de sua grandeza ideológica, se enfraquecendo e padece rumo a morte física. Soderbergh optou por encerrar seu longa com a decadência do homem, sem deixar muito claro o quanto o mito ainda sobrevive. Ou talvez a avaliação esteja desconexa pelo intervalo de metade de um ano em que ocorreu o lançamento de cada uma das partes. Fica o pensamento: Obras únicas não se dilaceram e mitos, mesmo que humanos, sempre estarão vivos no imaginário coletivo de todos.

Che – Parte 2: A Guerrilha 3 Comentários
Avaliação Final

Che 2 - A Crítica
“O diretor Steven Soderbergh preferiu não comprar a polêmica, e apenas segue com clareza um roteiro baseado nos diários do próprio guerrilheiro, mostrando que o seu não é um filme de guerra, apenas a história de um homem determinado em busca de seus ideais.”
Jean Garnier -- Amálgama

“O fracasso desta segunda parte do épico de Steven Soderbergh era previsível, especialmente pela necessidade imposta por seus realizadores de conceituar a obra como um filme diferente de Che.”
Daniel Dalpizzolo – CinePlayers

“Um líder correto, exigente e frágil. É assim que a segunda e última parte do filme de Steven Soderbergh mostra o revolucionário Ernesto Guevara de la Serna.”
Darlano Didimo – Cinema com Rapadura

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A Floresta como Mente Depressiva

Anticristo A BlogueiraPolêmico e contraditório, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier sempre utilizou métodos pouco ortodoxos durante a concepção de suas obras cinematográficas. Seja respeitando as características minimalistas estabelecidas pelo Dogma 95 (movimento criado por ele e hoje desaparecido) ou pela direção de atores “terrorista” que traumatizou grandes estrelas hollywoodianas do porte de Nicole Kidman ao ponto de nunca mais aceitarem trabalhar sobre a tutela de Trier. Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003) são seus trabalhos de maior destaque junto ao grande público.  No primeiro, Trier soube extrair da exótica cantora islandesa Björk uma interpretação forte e marcante. No segundo, chocou público e crítica ao se utilizar de uma linguagem limpa e teatral para relatar sua visão irônica de como o país mais imperialista da atualidade, os Estados Unidos da América, é uma terra de cruéis oportunidades. Nos últimos 2 anos, o diretor passou por uma forte crise depressiva e como válvula de escape de suas tristezas jogou na tela do Festival de Cannes o resultado final de sua paranóia: Anticristo (2009). Dividido entre vaias e aplausos, o longa chega agora no Brasil causando o mesmo estrago de choque e incompreensão entre cinéfilos e críticos de cinema. A sinopse do filme é a de um casal que, durante um fervoroso ato sexual, não percebe que seu pequeno bebê está caminhando em direção a janela, em direção a morte. Após o enterro, a mãe cai em profunda depressão e o marido, psicanalista profissional, resolve utilizar seus próprios métodos para curar a esposa, algo que qualquer profissional da área condenaria, pois a ética básica de muitos terapeutas é manter o distanciamento familiar e emocional. A técnica que o marido resolve utilizar é a de conduzir sua esposa para a cabana da família no meio da floresta chamada Éden, onde ele nutre a esperança de que irá curá-la de seus traumas.Os personagens não têm nome, são designados apenas como Ele e Ela. Ele é encarnado por Williem Dafoe, um ator que sempre se mostrou acima da média em suas interpretações, mesmo como “vilãozinho de quinta categoria” em blockbusters do naipe de Velocidade Máxima 2 (1997). Ela é Charlotte Gainsbourg atriz inglesa que atuou no excelente Não Estou Lá (2007) e que depois de Anticristo entrou na minha lista particular de “atrizes corajosas” graças a entrega explícita de sua personagem, a exposição máxima a que é submetida e a competência arrepiante de sua interpretação. Não é a toa que foi agraciada como melhor atriz pelo papel em Cannes, apesar de toda vaia à obra de Trier como um todo, especialmente na cena em que uma raposa de computação gráfica profetisa a frase “O Caos Reina”. Apesar da comicidade em se ver este pequeno canídeo tagarelando, ele possui sua importância simbólica dentro do filme. A raposa representa as contradições inerentes do ser humano em sentimentos de Independência/Comodidade, Passividade/Destruição, Medo/Audácia, todas características de comportamento oscilante que os personagens de Ele e Ela esboçam durante todo o filme. Há também outras simbologias distribuídas pela trama que ajudam a justificar o desenrolar do enredo. A ponte que Ela é obrigada a transpassar para se livrar de seus traumas representa a passagem do mundo sensível ao mundo ultra-sensível ou, no caso, a passagem de seu estado de letargia depressiva para a agitação psicótica. Para provar esse desvio de um estado a outro, em determinado momento do longa Ela usa uma roupa amarela contrastando com azul. O amarelo representa seu estado de intensidade e violência, enquanto o azul simboliza o vazio e o frio. Em outra cena um gavião passa voando sobre diversas samambaias. A samambaia, típica de ambientes úmidos, também está associada à transformação. Já o gavião é um animal cuja fêmea é mais forte que o macho, representando casais em que a mulher domina a relação. E é a partir daí que vemos a reviravolta na trama. Se antes Ele a tentava dominar com seus métodos de psicanálise, Ela que passa a comandar a situação ao torturá-lo de uma forma que faria inveja ao Jigsaw de Jogos Mortais (2004). Ao final, Ela se torna uma bruxa que Ele precisa queimar para que seus traumas e medos acabem. Feito isso, Ele deslumbra as figuras da Raposa, do Corvo, do Cervo: Contradição, Morte, Renascimento. Fim da história. Se concordarmos que tudo o que passou na tela durante a exibição de Anticristo é uma metáfora explícita do processo depressivo de Lars Von Trier, podemos concluir que o longa nada mais é do que a condução do espectador a estados depressivos, se utilizando de simbologias e da linguagem cinematográfica dominada pelo diretor. E se a vontade de Trier era ser provocativo ao ponto de incomodar a todos que vissem o filme, seja pelo baque, espanto ou nojo e explicitar todo o processo depressivo vivido, então sim, o diretor conseguiu o que queria. Nota máxima para o longa, mesmo com a raposa tagarela.

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Desprezível e Desprezado

Anticristo A CRÍTICA

“ Pisa em falso: passa uma falsa mensagem misógina”
Angélica Bito -- Cineclick

“Possivelmente o filme mais chocante que você verá este ano. Informe-se bem antes de ir ao cinema. Pode ser que você não queira assisti-lo.” Mauricio Stycer - iG

“É como se O Albergue tivesse um filho com A Professora de Piano…”
Érico Borgo – Omelete

“Ele é apenas uma experiência amarga que alguns de nós talvez não queiram enfrentar.”
Rodrigo Carreiro -- CineReporter

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