Mariana Bonfim é amante da sétima arte. Já flertou muito com o cinema norte-americano, mas agora prefere affairs mais consistentes, como o cinema brasileiro, latino-americano ou europeu. Atualmente mantêm encontros periódicos com a argentina Lucrecia Martel, o espanhol Pedro Almodóvar e o brasileiro José Padilha.







Miguilim virou Thiago no Campo Geral de Mutum

quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Mutum

Mutum

“Mutum” (2007) da diretora carioca Sandra Kogut nos apresenta a sagarana de Thiago, um menino muito fluifim e ensimesmudo. Vive em seu canto apreciando pequenos detalhes do cotidiano, como o passar das formigas e as rebarbas da madeira. Toda essa suspirância e coraçãomente provocam a constante ira do pai, que repete várias vezes durante o longa que o menino aparenta superioridade com relação à família pobre e sertaneja. Na tentativa de brutalizar Thiago, o pai o obriga a ser enxadachim e até mimbauamanhanaçara. Sandra optou por descreviver a simplicidade das veredas, lançando um olhar documental num filme que poderíamos classificar como rural, raridade no cinema brasileiro atual que opta por apenas mostrar estórias urbanas. Todas as circuntristezas dos personagens são embaladas por uma nonada de trilha sonora, onde imperam apenas sons rasteiros, como a chuva, vento, gemidos, estourar de pipocas. Tudo muito simples e sensível, fazendo com que seja impossível ao espectador se mostrar passivo diante desta singela fábula que revive cinematograficamente todo o espírito de Guimarães Rosa. Nonada – nada. Sagarana – a maneira das fábulas, saga. Estórias – narrativa popular. Circuntristeza - tristeza que o circunscreve. Suspirância - suspiros repetidos. Coraçãomente – cordialmente. Descreviver - fusão de descrever com viver. Ensimesmudo – fusão de ensimesmado e mudo. Mimbauamanhanaçara – vaqueiro Enxadachim - trabalhador do campo que luta pela sobrevivência. Junção de enxada e espadachim. Fluifim – pequenino e gracioso. Junção de fluir e fino.

Extermínio em Massa na Sala de Edição

quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Nossa Vida Não Cabe Num Opala

Nossa Vida Não Cabe Num Opala

Para quem pensa que a edição de uma obra audiovisual envolve um interminável “corta-e-cola” de imagens, deveria voltar melhor os olhos para a editora Thelma Shoonmaker. É ela a responsável pela edição ágil e dinâmica dos filmes de Martin Scorsese, ganhando inclusive 3 Oscars por seu trabalho em “Touro Indomável” (1980), “O Aviador” (2004) e “Os Infiltrados” (2006). Uso a Thelma como exemplo para explicitar a importância da edição em um filme, pois é essa parte essencial na pós–produção que dá a vida ou sentencia a morte de um filme. No caso de “Nossa Vida Não Cabe num Opala” (2008) o filme foi terminantemente conduzido pelo corredor da morte cinematográfico. Li críticas, inclusive na Folha de São Paulo feita por Tino Monetti elogiando a edição de Willem Dias, denominando-a louvável. Me desculpem a humilde opinião dessa blogueira que já participou da edição de curtas, mas a edição de Willen é qualquer coisa menos louvável. Sabe quando você assiste aos filmes na televisão e a emissora corta ‘no nada’ para inserir um comercial? A edição de “Nossa Vida...” passa essa sensação de precariedade, além de se precipitar em colocar músicas erradas em horas impróprias. As interpretações dos atores (isso sim louvável) são assassinadas pelos cortes abruptos e a história acaba passando um vazio com a falta de objetivo e sentido. Juro que saí deprimida da sala de exibição, pois o filme tinha tudo para figurar com 4 ou 5 películas no MovieYou e acabou apenas com 2. Obrigada pela sentença, Willem Dias !

O Conflito Político de Caim e Abel

sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Meu Irmão é Filho Único

Meu Irmão é Filho Único

Se na história bíblica Caim tivesse inclinações em unificar sua tribo de maneira xenofóbica e Abel fosse a favor de formar uma comunidade movida pela protocooperação, provavelmente os desentendimentos resultantes no primeiro assassinato da civilização tivessem justificativas mais pautadas. Hoje no mundo os conflitos políticos resultam em guerras infindáveis e verdadeiras “saias-justas” diplomáticas que ONU nenhuma consegue resolver (vide as FARC e o atual conflito na Ossétia do Sul). E o que acontece quando as extremas diferenças ideológicas ocorrem com humanos consangüíneos? É o que se pode conferir em “Meu Irmão é Filho Único” (2008), filme italiano que explora os conflitos existenciais de dois irmãos. O mais velho é comunista que ergue o punho cerrado enquanto a outra mão segura um megafone durante as greves em sua fábrica. O caçula se torna fascista (literalmente) de carteirinha, pronto para jogar sacos de excrementos em esquerdistas (intelectuais, gays, cineastas e escritores) saindo de uma sessão de cinema. Não só no campo político como no sexual os irmãos diferem. O comunista é garanhão e promíscuo e o fascista, respeitando os ideais retrógrados, inicia sua vida amorosa com uma mulher madura. Até que (adivinhe?) eles se apaixonam pela mesma mulher e é nesse ponto óbvio que o roteiro peca. O filme poderia evoluir muito melhor e de maneira mais sincera se esse clichê não fosse executado. Mas tudo bem, pois o pequeno deslize é totalmente sobreposto pela excelência em todos os outros pontos da obra. Fique atento ao importantíssimo momento histórico que o filme aborda, o chamado “Maio de 68”, que já completou 40 anos. Tantos estudantes morrendo, tantos intelectuais protestando, tantos políticos prometendo. Pra quê? Para que continuemos a ter aqui no terceiro mundo cidadão alienados que digitam 5 números numa urna eletrônica sem ao menos saber pra que raios serve um vereador.
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