A solidão nas grandes metrópoles tem provocado em seus habitantes as mais variadas crises existenciais, prato cheio para qualquer psicanalista que mantenha sua clínica em grandes capitais. E se aproveitando desta tendência rumo a loucura coletiva, o Cinema Brasileiro apresenta alguns víeis destes conflitos em filmes como O Outro lado da Rua (2004), O Signo da Cidade (2007) e Não Por Acaso (2007). Mas nenhum deles é tão voyerista e sacana quanto o que é mostrado na Porto Alegre de Ainda Orangotangos (2007) do diretor Gustavo Spolidoro. Com (literalmente) uma câmera na mão e a idéia fixa na cabeça de gravar tudo em um único plano -- seqüência, o cineasta segue o dia de diversos personagens que se esbarram pela capital gaúcha. Sejam eles japoneses, negros, homossexuais, evangélicos, mudos, bêbados ou sádicos, todos recebem o mesmo olhar trêmulo de quem observa com atenta curiosidade sarcástica. A problemática da intimidade solitária em cidades super povoadas vem à tona em pequenas ações que beiram o surrealismo fantástico digno de um Fellini, mas com diálogos e interpretações tão naturalistas quanto de qualquer Altman. A universalidade é tão evidente que até o diálogo sobre futebol das lésbicas poderia ser travado em qualquer país que nunca soube muito bem o que é bater uma bola de verdade. Se você já foi, mora ou conhece de alguma forma Porto Alegre ignore os pontos turísticos mostrados. Atente ao filme como quem vê um experimento de laboratório, onde cientistas anotam em pequenas pranchetas todo o comportamento de um bando de símios transloucados que por não saber conviver muito bem dentro da coletividade isolam – se com sua própria banana, seu próprio ego.
Do Cruzamento de Altman com Fellini Nasce um Orangotango!
Mariana Bonfim2 de setembro de 2008




















