100 Mais Machismo
terça-feira, 28 de outubro de 2008

O Pântano (2001)
Lucrecia Martel
Mas porque raios o ser humano gosta tanto de listas dos 10, 100, 1000 ‘mais-alguma-coisa’?! Muito além da obsessão de Rob Gordon, personagem de John Cusak em Alta Fidelidade (2000), os críticos adoram rankear os ‘melhores filmes de todos os tempos’ em infindáveis listas encabeçadas ora por Cidadão Kane (1941) de Orson Welles, ou O Poderoso Chefão (1972) de Francis Ford Coppola. Neste ano a Revista Bravo! lançou uma edição especial com 100 Filmes Essenciais e minha percepção feminina não deixou escapar um triste fato regado a um preconceito arcaico da sétima arte. O Cinema é uma manifestação artística ainda predominantemente machista, pois dos tais 100 filmes da lista apenas um único título era dirigido por uma mulher! E lá estava, na 93º posição, O Pântano (2001) da cineasta argentina Lucrecia Martel, merecidamente destacado como o Clássico em DVD dessa semana. Com uma carreira ainda modesta composta por apenas 3 longas – além de O Pântano temos A Menina Santa (2004) e A Mulher Sem Cabeça (2008) – Martel já figura como diretora de destaque, tendo sido apadrinhada por nada mais nada menos que Pedro Almodóvar após o sucesso crítico de seu longa de estréia. Neste ano a cineasta argentina foi uma das convidadas ‘mais que especiais’ da FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), sendo muito assediada pela imprensa brasileira em diversas entrevistas. Numa delas concedida à Revista O Grito! Lucrecia renega toda e qualquer classificação dada a seus filmes ou à possíveis interpretações simbólicas feitas pela crítica, afirmando categoricamente: “Não há metáforas em meus filmes. As pessoas têm mania de procurar símbolos em tudo”. O fato é que não há como ficar imune aos filmes de Martel, especialmente O Pântano, onde todos os personagens estão reclusos numa evidente decadência moral e existencial. Tudo é muito úmido, apertado e sufocante. A trilha sonora é pontuada de barulhos incômodos como cadeiras se arrastando, crianças berrando, o telefone que ninguém nunca atende, a televisão eternamente ligada e o gelo tilintando nos copos. Os personagens se tocam o tempo todo e mesmo assim há uma clara repressão incestuosa no ar. Poderíamos dizer que tudo isso é uma metáfora da burguesia argentina, especialmente os da província de Ciénega, título original do filme e onde a cineasta nasceu. Mas respeitando a observação da cineasta, cabe admirar a obra despida de preconceitos, sejam eles machistas ou não.





