Mariana Bonfim é amante da sétima arte. Já flertou muito com o cinema norte-americano, mas agora prefere affairs mais consistentes, como o cinema brasileiro, latino-americano ou europeu. Atualmente mantêm encontros periódicos com a argentina Lucrecia Martel, o espanhol Pedro Almodóvar e o brasileiro José Padilha.







100 Mais Machismo

terça-feira, 28 de outubro de 2008
O Pântano

O Pântano (2001)
Lucrecia Martel

Mas porque raios o ser humano gosta tanto de listas dos 10, 100, 1000 ‘mais-alguma-coisa’?! Muito além da obsessão de Rob Gordon, personagem de John Cusak em Alta Fidelidade (2000), os críticos adoram rankear os ‘melhores filmes de todos os tempos’ em infindáveis listas encabeçadas ora por Cidadão Kane (1941) de Orson Welles, ou O Poderoso Chefão (1972) de Francis Ford Coppola. Neste ano a Revista Bravo! lançou uma edição especial com 100 Filmes Essenciais e minha percepção feminina não deixou escapar um triste fato regado a um preconceito arcaico da sétima arte. O Cinema é uma manifestação artística ainda predominantemente machista, pois dos tais 100 filmes da lista apenas um único título era dirigido por uma mulher! E lá estava, na 93º posição, O Pântano (2001) da cineasta argentina Lucrecia Martel, merecidamente destacado como o Clássico em DVD dessa semana. Com uma carreira ainda modesta composta por apenas 3 longas – além de O Pântano temos A Menina Santa (2004) e A Mulher Sem Cabeça (2008) – Martel já figura como diretora de destaque, tendo sido apadrinhada por nada mais nada menos que Pedro Almodóvar após o sucesso crítico de seu longa de estréia. Neste ano a cineasta argentina foi uma das convidadas ‘mais que especiais’ da FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), sendo muito assediada pela imprensa brasileira em diversas entrevistas. Numa delas concedida à Revista O Grito! Lucrecia renega toda e qualquer classificação dada a seus filmes ou à possíveis interpretações simbólicas feitas pela crítica, afirmando categoricamente: “Não há metáforas em meus filmes. As pessoas têm mania de procurar símbolos em tudo”. O fato é que não há como ficar imune aos filmes de Martel, especialmente O Pântano, onde todos os personagens estão reclusos numa evidente decadência moral e existencial. Tudo é muito úmido, apertado e sufocante. A trilha sonora é pontuada de barulhos incômodos como cadeiras se arrastando, crianças berrando, o telefone que ninguém nunca atende, a televisão eternamente ligada e o gelo tilintando nos copos. Os personagens se tocam o tempo todo e mesmo assim há uma clara repressão incestuosa no ar. Poderíamos dizer que tudo isso é uma metáfora da burguesia argentina, especialmente os da província de Ciénega, título original do filme e onde a cineasta nasceu. Mas respeitando a observação da cineasta, cabe admirar a obra despida de preconceitos, sejam eles machistas ou não.

Vítimas Sociais, Culpados Capitais

sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Última Parada 174

Última Parada 174

Pude conferir antecipadamente em uma sessão exclusiva o longa Última Parada 174 (2008) dirigido pelo cineasta Bruno Barreto. Depois da exibição tivemos um bate-papo com o diretor, onde os melhores momentos foram compilados como entrevista e você pode conferi-la no site Armadilha Poética onde atuo como colaboradora. Minha percepção sobre Barreto alterou completamente antes e depois de ver o filme e conversar com ele. Apesar de admirar o ativismo de O Que É Isso, Companheiro? (1997), considerava-o um diretor superficial, especialmente ao conferir Bossa Nova (2000) e O Casamento de Romeu e Julieta (2005). Mas durante o longa fiquei hipnotizada com a música e a profunda catarse conduzida pela trama. Apesar da crítica afirmar que não há nenhuma novidade, classificando-o como mais um ‘filme-favela’ que isenta as classes AB de culpa, não consegui enxergar a obra por esse viés. Para mim o longa funciona muito bem como amostra da possível realidade vivida por Sandro. E não adianta afirmar que o filme expia a culpa dele nessa história. Para mim ficou claro que a perda não foi apenas para a vítima que morreu nessa tragédia, foi para todos os envolvidos e seus familiares, a polícia e a sociedade como um todo também perderam com isso. Sinal de que os tempos não mudaram é o que ocorreu agora com Eloá. Mais uma vez a polícia se equivocou escancarando para todas as camadas da sociedade como sua incompetência nos torna vítimas vulneráveis a pessoas descontroladas emocionalmente, sejam eles Sandros, Lindembergs, Nardones, Cravinhos, Richthofens ...

É uma Longa História… Onde Tudo Começou…

sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Patti Smith: Sonho de Vida

Patti Smith: Sonho de Vida

... No caso, o surgimento do rock feminino (ou feminista?). Terno e suspensórios, gravata e chapéu na cabeça. Poderíamos até estereotipar Patti Smith simplesmente por seu visual. Mas o documentário Patti Smith: Sonho de Vida (2008) em cartaz na 32º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo nos conduz além das lendas e do senso comum que se criaram a cerca de um dos maiores ícones da contracultura. Confesso que senti os 108 minutos de película de arrastando um pouco, 2 horas que pareciam 4! Mas depois refleti que a estética do documentário como um todo reflete intrinsecamente a personalidade da artista, ativista, mãe, mulher, Patti. A fotografia oscila de pontuais cenas coloridas a uma dominância do preto-e-branco. A edição acende e apaga a vida e o cotidiano, que hora aparece totalmente agitado com protestos anti-bush e shows viscerais e em outros momentos é pacificado pela proximidade com a família e a filosófica oriental. Mesmo sem conhecer muito de sua carreira, me surpreendi cantando algumas músicas marcantes para a história do rock, além de rir muito com a imitação que ela faz do amigo Bob Dylan (você pode conferir um pouco no trailer abaixo). De qualquer forma, fãs de punk ou folk, pros-Obama ou McCain, fica a recomendação de tentar entender um pouco dessa personalidade que mais parece um bando de cavalos selvagens descontroladamente a galope por um grande e imenso campo deserto de idéias e atitudes.

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