A rua em que você vive recebe o nome de uma pessoa? E se alguém lhe perguntasse quem foi o fulano que dá nome a via pública que você reside, saberia responder? Eu particularmente não. E pelo visto os moradores da Rua Henning Boilesen, bairro do Jaguaré na zona oeste da cidade de São Paulo, também não o sabem. É justamente assim que o documentário Cidadão Boilesen (2009) do jornalista Chaim Litewsk se inicia, ao questionar aos moradores da dita rua quem foi o administrador que tem seu nome ostentado pelas placas da via. À medida que a projeção avança, mergulhamos na biografia deste cidadão dinamarquês inicialmente apresentado como alguém que se considerava brasileiríssimo, que gostava de samba, mulatas e caipirinhas. Chegou ao Rio de Janeiro de navio com apenas alguns trocados no bolso, que logo foram roubados. Com raiva da cidade mudou-se então para São Paulo onde seus conhecimentos como administrador e contador o levariam a crescer ao patamar de presidente do grupo Ultra Gás. Um homem esportista, simpático e eloquente. Quem não consideraria este cidadão Boilesen uma pessoa de boa fé? E é aí que somos apresentados a depoimentos que colocam em xeque esta imagem. Para quem dormia nas aulas de história esta parte do documentário pode ficar mais difícil, pois é falado do golpe militar de 64 e da repressão contra grupos de filosofia “comunista”. Sob forte influência dos ideais revolucionários de Che Guevara, grupos que iam contra o regime militar começaram a se estruturar em guerrilhas urbanas, pois acreditavam que apenas através da luta armada o povo conseguiria tomar o poder. Se Cuba conseguiu, o Brasil também poderia. E foi ai que o lado obscuro de Boilesen se revelou. Através de diversos depoimentos são reveladas de forma grotesca o ódio que o dinamarquês sentia pelos comunistas. Nunca foi comprovado, mas há suspeitas que ele junto com outros membros do empresariado brasileiro teriam financiado a chamada Operação Bandeirantes (OBAN), um órgão responsável pela repressão aos grupos terroristas de esquerda. Em resumo: TORTURA. Ex presos políticos relatam a presença do então presidente da Ultra-Gás assistindo as sessões de torturas revelando um lado extremamente sádico. E este sadismo teria aflorado na tenra infância. O documentário atravessa o atlântico rumo a Dinamarca onde tem-se acesso a documentos como o boletim de escola de Boilesen. Em um deles o professor relata que ao castigar alunos por uma briga durante o recreio o pequeno Boilesen teria assistido com um espantoso prazer seus colegas serem castigados. É de se arrepiar… Mas o que causa mais indignação é a conclusão de que nada pode ser provado e ninguém nunca será punido. Historicamente a ditadura e suas torturas ocorreram “ontem”, muitos envolvidos e vitimados estão vivos e não há novo governo democrático nenhum que esteja disposto a mexer neste vespeiro. Que se apodreçam as lembranças então, como as placas lá da ruazinha de Jaguaré estão a enferrujar pelo tempo, o descaso e o esquecimento.
Rua Henning Boilesen
Mariana Bonfim24 de março de 2009





















Gostei muito da história deste filme.
Realmente é um excelente motivo para um documentário.
Vou procurar!
Olha, se o Romeu Tuma é senador, que mais que eu posso esperar, não é mesmo? Pelo menos a placa não é tão ofensiva quanto isso.
Infelizmente, ele nunca consegui se defender das acusações. Acusar um morto é fácil.