A saga do médico/guerrilheiro/revolucionário/ícone/herói Ernesto “Che” Guevara tem sua primeira parte, intitulada Che – Parte 1: O Argentino (2008), estreando nos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira dia 27 de Março. Saga maior que a apresentada foi a necessária para conceber um roteiro no mínimo crível e realista para expor todas as minúcias por trás de uma figura histórica tão complexa. Algo parecido já tinha sido feita de forma extremamente bem-sucedida em Diários de Motocicleta (2004) que mostrou um Che da ingenuidade ao aprendizado encoberta pela poética visão concebida por Walter Salles. Quanto ao Che de agora foram necessários cerca de 7 anos de pesquisas. E as grandes cabeças por trás da vontade de contar esta história em película foram o porto-riquenho Benicio Del Toro e o norte-americano Steven Soderbergh. A frente das câmeras um dos grandes atores da nova geração hollywoodiana, com interpretações de destaque como as mostradas em Traffic (2000), Snatch – Porcos e Diamantes (2000) e 21 Gramas (2003). E por trás das câmeras outro ícone da nova geração com a premiada direção de longas como Sexo, Mentiras e Videotape (1989), Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento (2000) e o próprio Traffic, que uniu essas duas figuras ao premiar um como melhor diretor e o outro como melhor ator co-adjuvante no Oscar de 2001. Mas na análise final do conjunto quem merecidamente roubou a cena em Che foi Del Toro. Não é a toa que foi ele o ganhador de melhor ator em Cannes ano passado e Soderbergh não colheu qualquer louro. Afinal o filme é de Del Toro, é ele quem rouba toda a atenção do filme e a direção acaba sendo mera co-adjuvante distante e neutra. Bom para o ator que joga a todos mais uma vez seu grande potencial e ruim para o diretor que precisará de mais alguns Bubbles (2005) para mostrar o seu potencial alternativo e underground. E preparem-se para a parte 2, a Guerilha boliviana.
Depois de mais de 50 anos a frente das câmeras Clint Eastwood se despede do foco da câmera em Gran Torino (2008), pois agora sua intenção é apenas prosseguir com a direção de longas, algo tão bem sucedido em obras como Sobre Meninos e Lobos (2003) e Cartas de Iwo Jima (2006). Mas penso que Clint escolheu um péssimo roteiro para encerrar suas atuações cinematográficas. Gran Torino é uma história altamente americanoide recheada de clichês. É daqueles filmes em que ao visualizar as primeiras cenas você já consegue determinar o final. Sim o final de Gran Torino é óbvio, pois é possível adivinhar logo de cara quem vai herdar o velho carrão de Eastwood ao final das contas, basta ser um pouco esperto. Que diferença no roteiro de outro longa de Clint, o Menina de Ouro (2004) cujo final é altamente surpreendente! Outro ponto fraco é a atuação dos atores secundários, a exceção do excelente Christopher Carley que interpreta o Padre que insiste em arrancar uma confissão do personagem de Clint. Tanto os atores que interpretam a gangue, quanto os vizinhos, são todos muito fracos. Sei que a intenção do diretor era captar pessoas das etnias retratadas, mas um pouco mais de treinamento nestes traria uma performance melhorada. E finalmente vamos a interpretação máxima que é a que nos interesse, a de Clint Eastwood por ser justamente uma despedida. Clint arrasa, pois o personagem é feito sob medida para tudo que ele viveu em sua longa carreira. Sarcástico, violento, um grande anti-herói que está na aposentadoria e vive seu momento derradeiro. E é isto, apenas isso que vale Gran Torino, para dizer adeus a esta verdadeira lenda cinematográfica.
O diretor norte-americano Ron Howard é praticamente uma cria de Steven Spielberg, não apenas por usar um boné que esconde a calvície, ao mesmo tempo em que proporciona um charme nerd. A trajetória cinematográfica de ambos é bastante similar. No caso de Howard, em seu currículo tem-se desde filmes “sessão da tarde” como Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984) e Cocoon (1985), até aqueles blockbusters muito americanoides como Apollo 13 (1995). Uma Mente Brilhante (2001) foi seu marco e consagração do Oscar em um filme de grande expressão artística. Mas então veio mais um filme para se alavancar o orçamento, O Código DaVinci (2006) que ficou muito aquém para os fervorosos fãs do livro, como eu. Que venha Anjos e Demônios sem os “mullets” de Tom Hanks. Nesse meio tempo Howard produziu e dirigiu em singelo filme denominado Frost/Nixon (2008), cujo tema é tão especificamente estado-unidense quanto Apollo 13. O republicano Richard Nixon foi presidente dos EUA durante a Guerra do Vietnã e em seu segundo mandato penou durante o escândalo de Watergate, no qual foi acusado de se envolver em um plano de espionagem das ações de campanha do partido democrata. Com a possibilidade de sofrer impeachment, renunciou e nunca mais conseguiu retomar como figura pública de respeito. Na outra ponta temos o britânico David Frost, apresentador de programas de televisão popularesco que, desejando tomar um rumo sério na carreira, resolve entrevistar o ex-presidente sobre o escândalo de Watergate. Para melhor dimensionar o contexto da entrevista imagine se Gugu Liberato após anos a frente do Domingo Legal resolvesse entrevistar Paulo Maluf o pressionando sobre seus infinitos escândalos de corrupção. Teríamos de um lado um apresentador popular, mas politicamente ingênuo, enfrentando um senhor político que responde o que quiser nas perguntas feitas. Montado o palco, temos o embate. Engolido no Oscar pelo fenômeno Jamal, resta aqui destacar a maior injustiça feita pela Academia, a de não premiar Frank Langella, intérprete de Nixon. Basta assistir os vídeos abaixo, a de trechos da entrevista original e do trailer do filme, para se arrepiar com a sua aula de atuação shakesperiana. Em certos momentos fica difícil delimitar se a sua atuação que foi brilhante ou o personagem do fracassado que tenta voltar à tona é que lhe dava a chance para se destacar. Fica a pergunta no ar…
Milk – A Voz da Igualdade (2008) de Gus Van Sant foi concebido para polemizar. Ainda bem, afinal nossa sociedade atual apesar de dizer que aboliu o preconceito as diferenças ainda torce o nariz ao ver pessoas do mesmo sexo andando de mãos dadas em um shopping de metrópole. Quanta hipocrisia. Mas de todas as polêmicas que vi serem levantadas a mais revoltante de todas foi a publicada no blog ZeroOitocentos. O blogueiro Mestre Zen relata o fato do dublador Marco Ribeiro se recusar a dublar Sean Penn em Milk por ser pastor evangélico. Por incrível que parece o mais impressionante não foi a postura do dublador, e sim a chuva de comentários que o post recebeu. Até o momento em que escrevo, o marcador contabiliza 94 comentários, muito deles pesados, necessitando de um estômago forte, tamanha a quantidade de preconceito que certas palavras emanam. Parabéns ao Mestre Zen por, na medida do possível, rebater os comentários mais ofensivos. Bem, voltando ao longa, penso que Milk cumpre bem seu papel em documentar a vida de uma pessoa que não morreu em vão. Mais que um mártir, Milk é um marco na luta política das minorias. Veja bem, das minorias e não para as minorias, afinal ela acordava suas táticas políticas com caminhoneiros, comerciantes, etc. e não apenas membros da comunidade GLS. Um exemplo de que a democracia está acima de interesses individuais e particulares, devendo-se valer a partir de um consenso geral e consenso não é necessariamente o que a maioria acha, mas o que a maioria concorda. Fica registrado aqui o Oscar de melhor Roteiro Original para Dustin Lance Black e o de Melhor Ator para Sean Penn, a única surpresa nesta última edição do prêmio da Academia. Muitos críticos apostaram todas as suas fichas em Mickey Rourke por O Lutador (2008) só que ao Sean Penn faturar o prêmio muitos desses críticos apoiaram a escolha da academia, pois afinal Rourke interpretou a ele mesmo enquanto Penn conceberá tão bem uma persona oposta a sua personalidade. E o que eu acho desta escolha da Academia? Não posso opinar completamente pois de todos os que concorreram a melhor ator não assisti O Visitante (2007) com Richard Jenkis. Porém você poderá tirar alguma conclusão nesse sentido ao ler a minha crítica a Frost/Nixon (2008). Aguardem… Enquanto isso aproveite o trailer de Milk.
“Ando devagar porque já tive pressa / Levo esse sorriso porque já chorei demais / Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe / Só levo a certeza de que muito pouco eu sei / Eu nada sei / Conhecer as manhas e as manhãs, / O sabor das massas e das maçãs, / É preciso amor pra poder pulsar, / É preciso paz pra poder sorrir, / É preciso a chuva para florir…” O Menino da Porteira (2009) do cineasta paulista Jeremias Moreira Filho já começa assim, com a poética canção Tocando em Frente de Almir Sater e com um belíssimo plano-geral da boiada sendo tocada rumo a fazenda de Ouro Fino. Parabéns ao diretor de fotografia Pedro Farkas pelo êxito. As paisagens que serviram de locação ao longa são as de Brotas e Corumbataí no interior do Estado de São Paulo. É muito bonita a forma como a câmera passeia deliciosamente nos conduzindo a 1954, tempo em que o país era mais caipira que urbano e todos apreciavam um gostoso bolo de fubá com café enquanto se proseava com os compadres e comadres. Além de Almir Sater temos na trilha sonora Disparada de Jair Rodrigues e O Menino da Porteira de Sérgio Reis. O cantor que outrora fora o protagonista deste mesmo longa deu lugar ao sertanejo Daniel, certamente o pior no filme por ser um ator despreparado. Poderia ter se restringido a apenas cantar o que seria menos constrangedor para ele e quem assiste. Já o restante do elenco cumpre bem seus papeis, como Vanessa Giácomo, José de Abreu e Rosi Campos. Fiquei satisfeita de ver o ator Eucir de Souza no elenco, pois havia visto apenas uma atuação sua no curta Palíndromo de Philippe Barcinski e apreciado muito seu trabalho. Se Daniel se mostrou então um problema na avaliação geral do filme, outra questão que também prejudica o desempenho do longa é no que diz respeito a sua distribuição. O Menino da Porteira é cativo para quem se identifica com a vida simples do campo, tem lembranças delas aliadas ao fato de apreciar música sertaneja e filmes de faroestes. E certamente o públicos de grandes cidades, apreciadores do fast-food americano e dos cinemas de shopping Center não são o público do filme. O Menino da Porteira foi feito especialmente para as pequenas cidades do interior onde este modo de vida ainda se preserva, mas nestas cidades não há mais salas de cinema se é que um dia elas o tiveram. Uma pena então que um filme feito para este público não tenha chegado até ele. Vale chamar a atenção dos investidores para não deixar estas cidades carentes de cultura cinematográfica. E se eu reclamei da atuação de Daniel no longa, pelo menos fora dela ele fez uma ação muito interessante: reconstruiu o cinema de Brotas, sua cidade natal especialmente para a estréia do filme. Que sirva de exemplo… Enquanto isto, vamos tocando em frente!
Em 2002 o Cinema Nacional levou um tapa na cara, um tiro nas costas ou um tropeção em uma galinha? Eu diria as 3 coisas. Cidade de Deus (2002) certamente marcou positivamente público e crítica ao mostrar que ainda havia vida inteligente em nossa produção cinematográfica. E quem seria o grande mentor responsável por isto? Fernando Meirelles, que passou de um semi-desconhecido diretor publicitário a indicado ao Oscar. Mesmo sendo um filme de 2002 a poderosa Miramax conseguiu no Oscar de 2004 aliciar a indicação do longa nas categorias Fotografia, Edição, Roteiro Adaptado e Edição. E Meirelles foi um marco junto com Sofia Copolla, ele o primeiro diretor brasileiro indicado e ela a primeira mulher. Ainda havia na disputa Clint Eastwood e Peter Weir, mas aquela noite era do senhor dos anéis Peter Jackson e o retorno de seu rei. Antes de Cidade de Deus seus longas foram Menino Maluquinho 2: A Aventura (1998) e o excelente Domésticas (2001). Depois Meirelles conseguiu abarcar projetos hollywoodianos mas que permitiram a ele um forte toque pessoal. Falo de O Jardineiro Fiel (2005) que deu a Rachel Weisz o Oscar de Atriz Coadjuvante e Ensaio Sobre a Cegueira (2008) que teve a honra de abrir Cannes ano passado. Durante as filmagens de Ensaio, Meirelles alimentou um blog sobre as experiências no set. Em sua ficha de apresentação o diretor se auto-intitula como arquiteto. Seria ele então um mentor da arquitetura da imagem? Difícil atribuiu a Meirelles todo o crédito por ser cineasta apenas por uma faculdade. Analisando sua biografia na Wikipédia podemos ver o quanto ele sempre esteve em contato com a câmera, da infância a monografia percorrendo um caminho de aprendizado da linguagem cinematográfica mais pelo empirismo do que por academicismos. E é nisso que me instiga a pensar em como se faz um bom cineasta no Brasil: background, diploma ou networking? Se alguém souber por favor me avise, pois essa é uma daquelas perguntas que podem não me deixar dormir, ou terminar um post …

Nos meus anos morando em república no interior de São Paulo cheguei a dividir o aluguel com uma garota que cursava Pedagogia. Sempre a indagava sobre a responsabilidade que um educador possui em um país tão sem educação, além de questioná-la se ela estava ciente de que se o nível educacional dos nossos cidadãos melhorasse tudo consequentemente melhoraria: a segurança, a saúde e até a política. E a futura pedagoga sempre desconversava, dizendo que dentro da sala de aula ela, seus colegas e mestres sempre discutiam isso sem chegar a lugar nenhum e que, além disso, ela estava cansada de ouvir os seus professores ensinarem metodologias e técnicas de aprendizado impossíveis de se aplicar em qualquer sala de aula normal. Em sua formatura a música de entrada dos graduandos era Another Brick in the Wall (Mais um Tijolo no Muro) do Pink Floyd, no qual o verso principal diz: We don’t need no education (Nós não precisamos de educação). E lá se conduziam rumo ao diploma mais 30 educadores desacreditados do próprio papel. O que Paulo Freire diria…? Em 1979 com o lançamento do álbum e em 1982 do longa The Wall dirigido por Alan Parker os britânicos do Pink Floyd polemizaram ao mostrar crianças sendo reprimidas por seus mestres e depois, literalmente, quebrando e queimando carteiras, livros e até professores. A música incita a pensar que não devemos nos sentir apenas mais um tijolo descartável no muro do sistema, afinal a capacidade individual podia ir além da palmatória. Pelo visto ainda não aprendemos isso. Mas agora pelo menos temos mais uma grande arma cinematográfica para nos mostrar que as coisas estão sim erradas. Trata-se do longa francês do diretor Laurent Cantet, Entre os Muros da Escola (2008), merecidamente premiado em Cannes ano passado e infelizmente um perdedor do Oscar de filme estrangeiro deste ano. O filme tem um poder no mínimo hipnotizante. Ele não apenas levanta polêmicas a respeito da fracassada metodologia de ensino que impera na atualidade como nos provoca uma regressão mental e temporal aos tempos em que sentávamos nas apertadas cadeiras como alunos, absorvendo a sabedoria dos mestres ou ignorando as lições, cegados pela ebulição hormonal. Não importa se foi no pré da sua terna infância, no colegial da revoltosa adolescência ou na maturidade da complexa universidade. Fato é que passamos no mínimo 15 anos de nossas vidas trancafiados dentro dos muros da instituição de ensino e a cada ano que passa sinto que se formam cada vez mais tijolos desconexos que não conseguem se inserir numa pseudo-proposta de sociedade justa, igualitária e democrática. Penso que a escola pode muitas vezes se comparar a um hospício, afinal somente sendo louco para trancafiar 50 cabecinhas pululantes entre quatro paredes de uma sala de aula. É obvio que se trata de um barril de pólvora prestes a explodir, e no último dia 11 de Março explodiu na Alemanha, assim como já explodira anos antes em Columbine, um fato que se tornou o instigante documentário Tiros em Columbine (2002) nas mãos do polêmico diretor norte-americano Michael Moore. E nas mãos de Laurent Cantet a sincera mágica do cinema transformou as duas horas e meias de Entre os Muros … em um mergulho na claustrofobia sufocante do fracasso e incapacidade. Instituição falida, valores invertidos e ética plastificada. No fim, o filme se mostra neutro, imparcial, com ausência de julgamentos, apenas se impondo como um recorte visceral desta explosão latente de fracasso. Ao final fica a inquietante reflexão de que falhamos como sociedade e que uma bomba muito maior vai explodir jogando fumaça, cinzas em tijolos em nossas cabeças, cabeças vazias pela esperança desfeita de que precisamos de educação. Precisamos, não?!
“Resumo de Slumdog Millionaire: É quando o Show do Milhão encontra o Caçador de Pipas na Cidade de Deus.” Recebi esta mensagem pelo Twitter e na hora a frase se fixou em minha mente. Não vi O Caçador de Pipas (2007). De qualquer forma não pude deixar de levar como referência ao filme de Danny Boyle a obra Cidade de Deus (2002) de Fernando Meirelles. Câmera perseguidora e edição de alto impacto são apenas alguns dos aspectos que me fizeram recordar do longa brasileiro. Me desculpem aqueles que julgam que uma obra não tem nada a ver com a outra, porém não pude me conter ao ver uma galinha sendo seguida pela câmera por alguns instantes durante a correria dos pequenos indianos pela favela em uma das primeiras cenas do lomga. Aquilo era Cidade de Deus sim! E não julgo outros que fizeram essa mesma comparação, afinal este filme nacional foi merecidamente um marco no cinema mundial, se tornando referência para muitos outros diretores. Os 4 Oscars que Cidade apenas concorreu, Slumdog faturou em dobro. Talvez pelo filme ser parcialmente falado em inglês, ou talvez porque fosse a ‘hora-certa’ para a Academia finalmente aceitar para o seu hall um filme de visual moderno que mostra pobreza da humanidade , tanto material quanto moral, de forma nua e crua. Isso o longa inteiro, a exceção do final fantasioso e cheio de alegres coreografias, respeitando as origens bollywoodianas. Para não ficar apenas nas referências externas, pode-se tirar alguma comparação também de Trainspotting (1996), a primeira grande obra do cineasta britânico Danny Boyle. Em Slumdog temos a cena em que o nosso pequeno herói Jamal mergulha no monte de fezes para poder conhecer o famoso ator Amitabh Bachchan. A cena me remeteu diretamente aquele em que Ewan McGregor mergulha na imunda privada cheia de excrementos para pegar as drogas que caíra lá. Ambas despertam um grande sentimento de asco com um baque incrível de a que ponto o ser humano se sujeita para justificar suas necessidades físicas e psicológicas. De qualquer forma, todos os filmes que citei são verdadeiros ‘tapas na nossa cara’ quanto à realidade, e Slumdog também o faz. Diferentemente dos outros há neste longa uma certa aura mística de magia e destino rodeando Jamal, o herói que passa a infância e juventude em prol de recuperar seu grande amor. E para isso ele não apenas enfrenta os grandes percalços que sua vida sofrida na favela impõe, como tem como maior desafio provar que não trapaceou no programa, algo tão ou mais difícil do que ter conseguido a proeza de responder as perguntas acertadamente. A primeira vez que eu ouvi falar de Slumdog Millionaire foi ao final do Globo de Ouro deste ano quando o filme, assim como no Oscar, faturou as categorias principais. Pesquisei sobre ele e descobri que não havia qualquer previsão de que o filme estreasse no país e nem ao menos uma distribuidora que estivesse a fim de fazê-lo. Agora com 8 Oscars, ele estreou em circuito comercial na última sexta-feira juntamente com o Blockbuster Watchmen (2009). Pode ser que a novela global Caminho das Índias ajude a emplacar a sua bilheteria. Espero, sinceramente, que o que atraia as pessoas ao cinema não seja os prêmios ou a temática comum a uma novela, e sim as reflexões quanto a sociedade que estamos moldando com ricas mansões que são engolidas pelas periferias que se impõe relembrando aqueles que insistem em a ignorar, que sim eu existo e estou aqui dividindo a mesma existência que você.
“Quem Vigia os Vigilantes?” Esta foi a pergunta do dia na última sexta-feira dia 6 de Março. Não sei ao certo o que aconteceu, mas nos twitters, blogs, Orkuts, MSNs e afins todos comentavam do ‘filme-gibi-do-momento’ Watchmen (2009). O assunto se espalhou de tal forma que se assemelhava a um verdadeiro vírus contaminando a tudo e a todos a sua volta. Sinceramente, antes de sexta-feira, eu não estava dando a mínima atenção para o lançamento do filme, sem qualquer esboço de ansiedade ou excitação. Afinal eu ainda carregava Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) como melhor referência da transição entre quadrinhos e tela cinematográfica. Mas como eu disse, o vírus Watchmen com o seu smile manchado de sangue estava a solta. Ouvi o Nerdcast sobre o filme, conversei com o Mestre Zen me revelando sua empolgação para conferir o longa e a vontade de também assistir ao filme começou a despontar. Foi quando eu li na Wikipédia sobre Alan Moore, o grande responsável por tudo isto. Tudo isto além de Piada Mortal, Do Inferno, A Liga Extraordinária, Constantine, V de Vingança… Outro fator que pode ter contribuído para eu não ter desenvolvida imunidade ao vírus do smile é que, confesso, adoro filmes de super-heróis. Os bem-feitos, é claro. Pois bem, as 16h da última sexta-feira olhei para minha carteira, conferi se tinha trocados suficientes para poder pagar uma meia-entrada no cinema e peguei o trem rumo ao Watchmen, literalmente (trem é o meu meio de transporte nesta metrópole caótica). Ao comprar os ingressos faltava uma hora para o início da sessão e sem perder tempo fui à livraria mais próxima direto para a prateleira das graphic novels e nesta uma hora antes do início da sessão eu li os dois primeiros capítulos de Watchemen, ou melhor, devorei-os. Fui para a sessão e … E calma que eu ainda não vou contar o que eu achei do filme. : ) (olha o vírus smile ai). Saí da sessão voltei para a livraria e continuei devorando a obra até o fechamento desta. Mas não teve jeito, tive que levá-la para casa e ficar até umas 2 da manhã até terminar o último quadrinho, aquele do smile com o ketchup na camiseta. Resultado final? Acho melhor não soltar um palavrão aqui no MovieYou, então fica subentendido. A graphic novel em si já renderia um zilhão de posts com todo seu aspecto visual e inovador nos idos de 1986, quando eu ainda era apenas uma criancinha de 1 ano nas suas fraldas, aprendendo a andar sem cair. Realmente um desafio “infilmável” à altura de o Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien. Mas se Peter Jackson conseguiu o impossível e nos apresentou uma obra-prima cinematográfica, Zack Snyder, que foi responsável pelo excelente 300 (2006) de Frank Miller, apresentou um resultado bastante primoroso. Palmas especiais para os roteiristas David Hayter e Alex Tse que conseguiram captar a essência da obra original e criar uma trama que respeitasse o seu espírito original mesmo sem incluir muitas sub-tramas da obra original. Temos o essencial na tela, o que já é mais que suficiente para nos deliciarmos com a história de heróis tão humanos e ambíguos em suas ações. Heróis sem maniqueísmos, que envelhecem, fazem sexo, sentem medo e enlouquecem como qualquer mortal. Mesmo o Dr. Manhattan, o semi-Deus da trama, nos prova que há muito sentimento de raiva ou amor em cada um de seus átomos de um azul reluzente e ofuscante. Elogios também para a trilha sonora, hora pontuada de muito rock’n roll e hora proporcionando momentos cômicos. Menção honrosa para o diretor de fotografia Larry Fong pela beleza das cenas, principalmente a da abertura do filme que faz um paralelo da carreira dos Minute Men com a história norte-americana. Como podem ver, um filme cheio de perfeições. Vamos então agora aos erros, e eles recaem justamente na escolha do elenco. Billy Crudup (Dr. Manhattan), Jeffrey Dean Morgan (Comediante) e Jacke Earle Haley (Rorschach) foram escolhas extremamente acertadas, pois cada um tem características físicas que cabem ao personagem, além de terem mergulhado muito bem em suas personas. Mas as escolhas de Malin Akerman (Júpiter) e Patrick Wilson (Coruja) não se mostraram acertadas. Não que eles sejam maus atores, mas são jovens (e magros) de mais para personagens quarentões fora de forma. Porém o maior erro de todos no elenco foi Matthew Goode (Ozymandias), além de também ser muito jovem e magro, o ator deu um ar muito canastrão ao personagem, lembrando que nos quadrinhos este herói apesar da idade ainda era muito forte e sempre aparentava um ar sério. Bem, como reflexão final devo dizer que a experiência de ter sido ‘catequizada’ pelos Watchmen foi muito importante para expandir meu conhecimento cultural no universo dos quadrinhos. Guardarei com carinho especial a graphic novel, orgulhosa de um dia poder dá-la para meu filho lê-la. Espero que ele possa se deliciar com um tema tão atemporal. Quanto ao filme, fica a vontade de vê-lo e revê-lo a procura de novos aspectos que muitas vezes passam despercebidos quando admiramos a obra pela primeira vez. Fica a dica, e cuidado, pois você pode ser o próximo a pegar e espalhar o vírus smile… : ) .
Esta semana o MovieYou estará recheado de posts heróicos. Além de contar como foi a experiência de conferir Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) na sala IMAX, falarei como foi a minha catequização rumo ao universo Watchmen (2009) e fazer meus apontamentos de como Danny Boyle uniu Hollywood e Bollywood na história de Jamal, o herói da periferia indiana graças a um programa de TV em Slumdog Millionaire (2008). Faz exatamente um mês que Batman estreou na única sala IMAX do país, localizada no shopping Bourboun na capital Paulista. Preparem-se curitibanos, pois os próximos serão vocês. Bem, a novidade da projeção em IMAX já seria grande por si só. Mas Batman foi a maior bilheteria do país ano passado sendo então assistido e re-assistido por muitos, afinal se trata de um grande filme com uma trama deliciosamente mirabolante. Por isso mesmo conferi-lo na sala IMAX denotou tempo para se conseguir um ingresso antes que eles se esgotassem e dinheiro, pois para despender os R$30,00 para se ter esta experiência foi necessário um “pequeno” ajuste no orçamento mensal. Seguindo recomendações, me sentar na penúltima fileira da sala, que devo dizer está muito longe de ser gigante. Já a tela, toma o espaço quase completo da parede. É exatamente esta desproporção entre tela grande versus sala pequena que causa desconforto para quem opta por sentar nas fileiras da metade da frente da sala. As luzes desligaram, o trailer de Monstros vs. Alienígenas (estréia prevista para 03/04/09 no país) passou e ao, finalmente, começar o longa a empolgação subiu no mesmo nível que os ruídos iniciais da maravilhosa trilha sonora de Hans Zimmer invadiam a sala. A primeira cena, a do assalto e apresentação do Coringa, seria uma das 6 gravadas com a câmera IMAX trazendo a tal experiência total em alta resolução. Mas acho que as pessoas que ainda entraram no começo da exibição na sala carregando suas pipocas e fazendo com que suas cabecinhas tapassem parte da tela não sabiam disso. Mesmo assim foi incrível. A cena do caminhão tombando na pista também trouxe experiência máxima, até porque ninguém mais cometeria a heresia de ficar entrando e saindo da sala, ou seja, sem cabeças para atrapalhar a visão. Heresia sim, pois afinal pagar tamanha quantia em dinheiro para entrar ou sair depois que o filme começou e ainda atrapalhar os outros. Sinceramente, nem que eu estivesse muito apertada para ir ao banheiro eu conseguiria desgrudar os olhos da grande tela. As duas horas e meia se passaram e a sensação final foi de êxtase. Nem parecia que era a sétima vez que eu via o longa, se é que minhas contas estão certas. A conclusão final foi ótima: Filme excelente com a projeção que merece. Não adiantaria nada desperdiçar uma tecnologia como aquela em um roteiro vazio, assim como muitos outros filmes que foram renegados as salas normais mereciam ter suas versões em IMAX. Vida longa ao sistema no Brasil, mas, por favor, com um preço que caiba em nosso bolso brasileiro que espero que nunca desista de ver bons filmes na tela grande apesar de toda tentação da pirataria.





















