Mariana Bonfim é amante da sétima arte. Já flertou muito com o cinema norte-americano, mas agora prefere affairs mais consistentes, como o cinema brasileiro, latino-americano ou europeu. Atualmente mantêm encontros periódicos com a argentina Lucrecia Martel, o espanhol Pedro Almodóvar e o brasileiro José Padilha.







Do, Ré , Mi, Fá … Manege a Trois !

quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Canções de Amor

Canções de Amor

Os grandes musicais sempre estiveram presentes na história do Cinema, com muita coreografia e gogó, como os mais recentes Moulin Rouge (2001) e Chicago (2002). Porém, nos últimos anos, estamos sendo presenteados com filmes musicais de visual naturalista e canções sussurradas, como em Apenas Uma Vez (2006) e Canções de Amor (2007). Neles admiramos a utopia de cantar declarações de amor de forma tão natural quanto um diálogo normalmente falado. Mas o que chama a atenção no francês Canções... do diretor Christophe Honoré, trilha sonora premiada de Alex Beaupain, é como é cantado esse sentimento entre os que pertencem ou não ao mesmo sexo. Há uma leveza tão graciosa e poética nos relacionamentos apresentados na obra que heteros, bi, homos e ‘maneges a trois’ passam na nossa frente com a naturalidade romântica típica de qualquer humano mais sensível. É muito interessante como os personagens tratam abertamente esses ‘amores diferentes’, mesmo não estando envolvidos neles. Fiquei me perguntado se o povo francês é menos preconceituoso que nós brasileiros, mas ao conferir o trailer do filme vi o quanto é poupada as cenas mais explícitas de homossexualidade, procurando com certa discrição não espantar um provável futuro espectador da película. Para mim o filme me trouxe uma leveza inimaginável. Não sei se foi o cenário de Paris, o sotaque francês cantado, o amor sem limites, ou tudo isso... Apenas sei que fiquei com vontade de sair pelas ruas aqui de São Paulo ilesa pois, mesmo tendo todo ano a maior Parada Gay do mundo, ainda me proporciona irritação ao jogar em meus ouvidos intolerantes piadas sobre a sexualidade alheia, que deveria não interessar a mais ninguém a não ser o próprio ser!

O Ego em Azul, Branco e Vermelho.

terça-feira, 16 de setembro de 2008
Trilogia das Cores

Trilogia das Cores ()
Krzysztof Kieslowski

Krzysztof Kieslowski! Sim, o nome polonês de um dos grandes diretores do grande Cinema Europeu de Arte é de pronúncia complexa. Eu mesmo penei até conseguir dizê-lo de forma decente. Mas não se espante com um nome difícil, achando que assistir a um filme dele pode ser ainda mais complexo. Admirar A Trilogia das Cores exige apenas uma cabeça aberta a ser cutucada psicologicamente. Não recomendo uma ordem específica para se assistir os três, muito menos que você resolva assisti-los seguidamente numa Maratona Kieslowski. Cada obra precisa de um intervalo de digestão e atropelá-la pode atrapalhar a compreensão necessária. Se optar a ordem cronológica de lançamento nos cinemas teremos A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994). Em cada um é transpassada uma belíssima fotografia de acordo com a cor a ser tratada no título. Porém as diferentes tonalidades são apenas detalhes metafóricos que imprimem os sentimentos envolvidos em cada obra, como melancolia, vingança e pecado. O filme Azul foi o responsável pela projeção internacional de Juliette Binoche, consagrando-a como atriz de expressão e proporcionando à ela a chance de se infiltrar no mercado Hollywoodiano, como o fez em O Paciente Inglês (1996) e Chocolate (2000). O Branco é, ironicamente, um filme regado pelo humor negro. Não vou me privar de evidenciar que este é o meu favorito da trilogia justamente por toda a tragicomédia que envolve o personagem principal. Também é o único que tem um personagem homem como protagonista. Finalmente temos o Vermelho fechando a trilogia ao ligar temas apresentados nos outros dois, como a solidão e o abandono de egos tão confusos quanto abalados. Se os personagens da trilogia passam por situações impactantes e, de certa forma, ‘acidentais’ como a morte e a perda, enfrentá-los revela uma fina casca que encobre a fragilidade pintada em 3 tons bem demarcados, mas que bem poderiam ser milhões de matizes sentimentais.

Se o Criador Aprovou a Criatura…

segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Ensaio Sobre a Cegueira

Ensaio Sobre a Cegueira

Quando um roteirista escreve a base da obra cinematográfica ele tem duas opções de escolha: O Roteiro Original, tirado exclusivamente de sua mente para transpor à grande tela; e o Roteiro Adaptado, escrevendo uma versão de algo já antes publicado. E não me questione se é comodidade ou pressão mercadológica, mas uma boa parte opta por adaptar livros! Alguns nascem prontos para virar filme, como O Código DaVinci de Dan Brown. Outros, por apresentar uma escrita complexa, demoram a ter sua transposição para o Cinema, caso de Perfume de Patrick Süskind. Mas a unanimidade é absoluta ao se afirmar que é muito difícil agradar aos leitores. Nossa infinita imaginação possibilita inúmeras opções imagéticas para a obra, e a visão do diretor NUNCA será igual a nossa. É só lembrar o quanto os filmes de Harry Potter e a saga de Senhor dos Anéis de Peter Jackson dividiram os fãs do livro. No caso de J.K. Rowling ela, criadora da obra escrita, aprovou todas as etapas da produção, principalmente a escolha do elenco e os cenários. Mas e no caso de J.R.R. Tolkien? Ele revirou no túmulo de felicidade ou tristeza? Por nossa sorte José Saramago apesar dos 85 anos continua lúcido e ativo para dar seu parecer. Não foram poucos os que quiseram transpor Ensaio Sobre a Cegueira para a tela, mas foi o nosso Fernando Meirelles que conseguiu o aval para o desafio. O diretor brasileiro é alguém em quem confio muito e em nenhum momento eu tive essa confiança abalada, já que Ensaio e Saramago são o livro e escritor presentes há tempos em minha cabeceira de favoritos. Nem mesmo quando soube da recepção fria em Cannes fiquei em dúvida. Pensei comigo mesmo “se o livro em si já é de difícil compreensão, imagine o filme”! Mas o que foi decisivo para a minha aprovação em topar assistir o filme foi o vídeo que o filho de Meirelles captou e jogou no YouTube, intitulado José Saramago assiste Ensaio Sobre a Cegueira. Para mim se o criador se emocionou, porque eu discordaria de quem inicialmente concebeu aquele universo da cegueira existencial “branca como um mar de leite”? Desculpe, seria pedante de mais da minha parte discordar de um ganhador do prêmio Nobel e, principalmente, de alguém que consegue destrinchar a alma humana em longos parágrafos sobrepostos de fluxo de consciência de almas perdidas em seu próprio ego.
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