Mariana Bonfim é amante da sétima arte. Já flertou muito com o cinema norte-americano, mas agora prefere affairs mais consistentes, como o cinema brasileiro, latino-americano ou europeu. Atualmente mantêm encontros periódicos com a argentina Lucrecia Martel, o espanhol Pedro Almodóvar e o brasileiro José Padilha.







O Meu Aborto, O Seu Aborto !

sexta-feira, 12 de setembro de 2008
O Aborto dos Outros

O Aborto dos Outros

A primeira vez que tive contato com o filme de Carla Gallo, O Aborto dos Outros (2008), foi lendo a coluna da redatora-chefe da revista Época, Ruth de Aquino. Para mim aborto sempre foi uma questão exclusivamente feminina e que não há amparo legal atualmente no Brasil para quem opta por aborto (exceto estupro e má-formação) por dois motivos muito claros. Primeiro: a nossa lei sobre aborto de 1940 é claramente arcaica e machista, impedindo o direito feminino de decisão. Segundo: o Brasil não tem nível de educação suficiente para que o aborto seja considerado como última opção dentro de um planejamento familiar consciente, e não como método contraceptivo. O filme da diretora paulistana vem justamente cutucar nas feridas abertas pela questão. As situações mais chocantes mostradas no filme para mim foram a da menina de 13 anos estuprada a caminho da escola. Mesmo grávida, pediu uma Barbie de Dia das Crianças para a mãe. Teve o direito legal de abortar, mas sem antes deixar de ser destratada pelo escrivão que registrou seu Boletim de Ocorrência, a “alertando” que iria ser difícil ela conseguiu o direito na justiça. Não só conseguiu como assistimos a todo seu sofrimento e impacto psicológico durante o processo de contração induzida dentro de um hospital público de qualidade. Outro caso a se pensar é o da empregada doméstica que tomou um remédio abortivo e foi parar quase morta no hospital. Foi denunciada por uma vizinha e acabou ficando 1 semana algemada na maca! Temos aí o nosso abismo social do Brasil. As mulheres ricas vão a açougues de luxo, e pobres ficam desumanamente algemadas. Onde está a lei “neutra” nesses casos? Só cabe a Deus olhar por nós, mulheres. Pois se aborto é pecado, creio que Deus sabe o sofrimento que é ser mulher aqui na terra, principalmente neste sub-mundo que é Brasil, e que Ele se disponha a nos perdoar por poupar nossos filhos de sofrer as injustiças dessa terra desumana.

O Bergman Nosso de Cada Filme

quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Gritos e Sussurros

Gritos e Sussurros (1972)
Ingmar Bergman

No dia 30 de Julho de 2007 o diretor Ingmar Bergman veio a falecer. Na época eu ainda trabalhava em uma grande locadora aqui de São Paulo e a morte do cineasta sueco trouxe comoção para funcionários e clientes, ainda mais quando no dia seguinte também veio a falecer o italiano Michelangelo Antonioni (Blow-Up 1966). Apesar deste fato, demorei quase um ano para assistir um filme de Bergman (e ainda não assisti nenhum de Antonioni, que vergonha...). Era Maio deste ano e estava desenvolvendo com outros colegas o curta Os Outros baseado em um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges. Como metáfora do conflito existencial e inspiração fotográfica, sugeri que assistíssemos O Sétimo Selo (1957). A admiração foi imediata e o resultado do curta satisfatório, como você pode conferir no YouTube. No dia 15 de Julho, próximo ao aniversário de 1 ano da morte do sueco, fui conferir uma mostra Bergman no HSBC Belas Artes. Acompanhada de um amigo também muito cinéfilo, após a exibição de Gritos e Sussurros comentamos ironicamente o quanto o filme é “leve como uma Sessão da Tarde”. Ironicamente mesmo, pois ao final da película o peso e a dor são enormes, principalmente com o contexto da cena em que Karin (Ingrid Thulin) nos revela porque não gosta de ser tocada por ninguém. Após a sessão fomos presenteados com a palestra de Luiz Carlos Merten grande conhecedor e admirador da obra bergmaniana, recém vindo da experiência de Farö, ilha sueca onde Bergman está enterrado. A palestra e o filme em si me tocaram em diversas questões do que é hoje um Cinema de Autor e a influência do sueco em outras obras fílmicas. Ainda hoje são poucos os que roteirizam e dirigem suas próprias obras, como Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar e Sofia Coppola. Mas cada vez mais a indústria força para que essa duplicidade seja quebrada. Aliás, as próprias escolas de Cinema e Audiovisual não possibilitam que o aluno aprenda as duas funções, forçando uma grade horária em que as matérias de Direção e a de Roteiro acabam no mesmo horário. Tudo por uma estúpida pressão mercadológica. Forçar a morte do Cinema de Autor é como se impedíssemos um pintor de assinar seu quadro, ou um escritor de publicar seu livro. É, em resumo, a morte de uma importante característica da Arte e Cultura Cinematográfica. Quanto às influências bergmanianas, listei duas principais. Cenas de Um Casamento (1973) inspirando uma onda de divórcios e filmes como Beleza Americana (1999) e Entre Quatro Paredes (2001). E a mais bela e poética, o polonês Krzysztof Kieslowski com sua A Dupla Vida de Véronique (1991) relembrando diversos aspectos psicológicos de Persona (1966). Finalizo este post com essas recomendações e sugerindo um vídeo no YouTube, Woody Allen On Ingmar Bergman (Parte I e II), em que durante uma entrevista o cineasta nova-iorquino analisa o direto sueco.   Bons conflitos existenciais para vocês.

Mundo Cão sem Idiossincrasias

segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Linha de Passe

Linha de Passe

Nas primeiras cenas de Linha de Passe (2008) Sandra Corveloni interpretando a doméstica grávida Cleuza lança seu olhar para a janela, em um ângulo que captura todo o seu semblante poeticamente. Seu rosto emana as dores do parto, misturado com a preocupação com os outros filhos que correm alto risco de se perderem por um mundo cão e miserável, que não esboça esperanças de melhora. Apenas esse único gesto cheio de metáfora e significado justifica o prêmio de melhor atriz no último Festival de Cinema de Cannes para Sandra. Atriz teatral, vivia sua profissão em cima dos palcos integrando o grupo TAPA e eventualmente dando aula nos CEU’s (escola modelo da prefeitura de São Paulo). O prêmio francês foi uma surpresa totalmente bem-vida, pois a atriz não pode ir a Cannes se recuperando de um aborto espontâneo de seu segundo filho. Diferentemente da vida real, sua personagem está grávida pela quinta vez depois de 4 meninos. E é a partir deste jovem elenco masculino que todo o jogo da trama se desenrola, encabeçada pela mãe. O atacante do time é Dario, interpretado por Vinícius de Oliveira que foi descoberto por Walter Salles em Central do Brasil (1998). O personagem está completando 18 anos, momento crucial em que vê suas chances de ser selecionado em uma peneira futebolística irem para escanteio. José Geraldo Rodrigues vive Dinho, o irmão que se prega como evangélico, mas que ao decorrer do longa fica na linha tênue entre a perveção e a honestidade. João Baldasserini atua como o motoboy Denis, que cruza as vias urbanas em busca de dinheiro para o sustento do filho e as diárias de motel com sua chefe. O mais novo e diferente dos 3 irmão é Reginaldo, o ator-mirim Kaique Jesus Santos . Único negro do clã, passa o dia de ônibus em ônibus à procura do pai, motorista da frota. Todos os personagens apresentados, sem exceção, apresentam todas as idiossincrasias existenciais despida de maniqueísmos. E é nisso que está a força do filme de Walter Salles e Daniela Thomas. Na guerra contra a pobrez,a a procura de uma chance e de seu lugar no mundo, todos tentam desentupir a pia de toda sujeira, de um jeito malandro, brasileiro e humano.
Páginas: Anterior 1 2 3 ...9 10 11 12 13 14 15 16 17 Próxima