Antes proibidos ou subliminares, os filmes que abordam a homossexualidade de seus personagens estão cada vez mais partindo para um conceito poético e existencial. Má Educação (2004) do diretor espanhol Pedro Almodóvar e Brokeback Mountain (2005) do chinês Ang Lee são apenas alguns exemplos de como pessoas que apontam para esta opção sexual, ainda muito vitmizada pelo preconceito, não precisam ser representadas de forma caricata e afetada, como em A Gaiola das Loucas (1996). Em La León (2007) do diretor argentino Santiago Otheguy, há a clara opção de mostrar como o gay é marginalizado rumo à exclusão implícita e, portanto, solitário em seus desejos. O protagonista Alvaro (Jorge Román) vive numa humilde comunidade de pescadores, ilhados em sua localização geográfica e tradições, onde o machismo disfarçado em partidas de futebol esconde sentimentos reprimidos do antagonista Turu (Daniel Valenzuela). A fotografia em preto-e-branco e a ausência quase absoluta de trilha sonora apenas auxiliam para que a linguagem metaforize as condições psicológicas dos personagens. No fundo deste abismo de sentimentos o que se vê são seres humanos na sua carência íntima, apenas querendo amar e ser amados. Sem olhares acusatórios e palavras degradantes.
A solidão nas grandes metrópoles tem provocado em seus habitantes as mais variadas crises existenciais, prato cheio para qualquer psicanalista que mantenha sua clínica em grandes capitais. E se aproveitando desta tendência rumo a loucura coletiva, o Cinema Brasileiro apresenta alguns víeis destes conflitos em filmes como O Outro lado da Rua (2004), O Signo da Cidade (2007) e Não Por Acaso (2007). Mas nenhum deles é tão voyerista e sacana quanto o que é mostrado na Porto Alegre de Ainda Orangotangos (2007) do diretor Gustavo Spolidoro. Com (literalmente) uma câmera na mão e a idéia fixa na cabeça de gravar tudo em um único plano -- seqüência, o cineasta segue o dia de diversos personagens que se esbarram pela capital gaúcha. Sejam eles japoneses, negros, homossexuais, evangélicos, mudos, bêbados ou sádicos, todos recebem o mesmo olhar trêmulo de quem observa com atenta curiosidade sarcástica. A problemática da intimidade solitária em cidades super povoadas vem à tona em pequenas ações que beiram o surrealismo fantástico digno de um Fellini, mas com diálogos e interpretações tão naturalistas quanto de qualquer Altman. A universalidade é tão evidente que até o diálogo sobre futebol das lésbicas poderia ser travado em qualquer país que nunca soube muito bem o que é bater uma bola de verdade. Se você já foi, mora ou conhece de alguma forma Porto Alegre ignore os pontos turísticos mostrados. Atente ao filme como quem vê um experimento de laboratório, onde cientistas anotam em pequenas pranchetas todo o comportamento de um bando de símios transloucados que por não saber conviver muito bem dentro da coletividade isolam – se com sua própria banana, seu próprio ego.
“Mutum” (2007) da diretora carioca Sandra Kogut nos apresenta a sagarana de Thiago, um menino muito fluifim e ensimesmudo. Vive em seu canto apreciando pequenos detalhes do cotidiano, como o passar das formigas e as rebarbas da madeira. Toda essa suspirância e coraçãomente provocam a constante ira do pai, que repete várias vezes durante o longa que o menino aparenta superioridade com relação à família pobre e sertaneja. Na tentativa de brutalizar Thiago, o pai o obriga a ser enxadachim e até mimbauamanhanaçara. Sandra optou por descreviver a simplicidade das veredas, lançando um olhar documental num filme que poderíamos classificar como rural, raridade no cinema brasileiro atual que opta por apenas mostrar estórias urbanas. Todas as circuntristezas dos personagens são embaladas por uma nonada de trilha sonora, onde imperam apenas sons rasteiros, como a chuva, vento, gemidos, estourar de pipocas. Tudo muito simples e sensível, fazendo com que seja impossível ao espectador se mostrar passivo diante desta singela fábula que revive cinematograficamente todo o espírito de Guimarães Rosa.
Nonada – nada.
Sagarana – a maneira das fábulas, saga.
Estórias – narrativa popular.
Circuntristeza -- tristeza que o circunscreve.
Suspirância -- suspiros repetidos.
Coraçãomente – cordialmente.
Descreviver - fusão de descrever com viver.
Ensimesmudo – fusão de ensimesmado e mudo.
Mimbauamanhanaçara – vaqueiro
Enxadachim - trabalhador do campo que luta pela sobrevivência. Junção de enxada e espadachim.
Fluifim – pequenino e gracioso. Junção de fluir e fino.
Para quem pensa que a edição de uma obra audiovisual envolve um interminável “corta-e-cola” de imagens, deveria voltar melhor os olhos para a editora Thelma Shoonmaker. É ela a responsável pela edição ágil e dinâmica dos filmes de Martin Scorsese, ganhando inclusive 3 Oscars por seu trabalho em “Touro Indomável” (1980), “O Aviador” (2004) e “Os Infiltrados” (2006). Uso a Thelma como exemplo para explicitar a importância da edição em um filme, pois é essa parte essencial na pós–produção que dá a vida ou sentencia a morte de um filme. No caso de “Nossa Vida Não Cabe num Opala” (2008) o filme foi terminantemente conduzido pelo corredor da morte cinematográfico. Li críticas, inclusive na Folha de São Paulo feita por Tino Monetti elogiando a edição de Willem Dias, denominando-a louvável. Me desculpem a humilde opinião dessa blogueira que já participou da edição de curtas, mas a edição de Willen é qualquer coisa menos louvável. Sabe quando você assiste aos filmes na televisão e a emissora corta ‘no nada’ para inserir um comercial? A edição de “Nossa Vida…” passa essa sensação de precariedade, além de se precipitar em colocar músicas erradas em horas impróprias. As interpretações dos atores (isso sim louvável) são assassinadas pelos cortes abruptos e a história acaba passando um vazio com a falta de objetivo e sentido. Juro que saí deprimida da sala de exibição, pois o filme tinha tudo para figurar com 4 ou 5 películas no MovieYou e acabou apenas com 2. Obrigada pela sentença, Willem Dias !
Se na história bíblica Caim tivesse inclinações em unificar sua tribo de maneira xenofóbica e Abel fosse a favor de formar uma comunidade movida pela protocooperação, provavelmente os desentendimentos resultantes no primeiro assassinato da civilização tivessem justificativas mais pautadas. Hoje no mundo os conflitos políticos resultam em guerras infindáveis e verdadeiras “saias-justas” diplomáticas que ONU nenhuma consegue resolver (vide as FARC e o atual conflito na Ossétia do Sul). E o que acontece quando as extremas diferenças ideológicas ocorrem com humanos consangüíneos? É o que se pode conferir em “Meu Irmão é Filho Único” (2008), filme italiano que explora os conflitos existenciais de dois irmãos. O mais velho é comunista que ergue o punho cerrado enquanto a outra mão segura um megafone durante as greves em sua fábrica. O caçula se torna fascista (literalmente) de carteirinha, pronto para jogar sacos de excrementos em esquerdistas (intelectuais, gays, cineastas e escritores) saindo de uma sessão de cinema. Não só no campo político como no sexual os irmãos diferem. O comunista é garanhão e promíscuo e o fascista, respeitando os ideais retrógrados, inicia sua vida amorosa com uma mulher madura. Até que (adivinhe?) eles se apaixonam pela mesma mulher e é nesse ponto óbvio que o roteiro peca. O filme poderia evoluir muito melhor e de maneira mais sincera se esse clichê não fosse executado. Mas tudo bem, pois o pequeno deslize é totalmente sobreposto pela excelência em todos os outros pontos da obra. Fique atento ao importantíssimo momento histórico que o filme aborda, o chamado “Maio de 68”, que já completou 40 anos. Tantos estudantes morrendo, tantos intelectuais protestando, tantos políticos prometendo. Pra quê? Para que continuemos a ter aqui no terceiro mundo cidadão alienados que digitam 5 números numa urna eletrônica sem ao menos saber pra que raios serve um vereador.
Esqueça as aulas de História e Geografia que tentam explicar um conflito étnico e cultural que perdura por mais de 3000 anos. Assim como muitos gringos não compreendem o chamado “jeitinho brasileiro” dificilmente entenderemos com exatidão o conflito entre palestinos e israelenses. Por isso ao assistir “Lemon Tree” (2008) do diretor Eran Riklis vá preparando a sensibilidade humana, não esperando uma resolução maniqueísta do conflito político-cultural. O olhar ao filme deve ser conduzido para suas duas protagonistas femininas: a palestina dona dos limoeiros a serem derrubados Salma Zidane (Hiam Abbass – Paradise Now 2005) e a israelense esposa do Ministro da Defesa que provoca a decisão de derrubá-los Mira Navon (Rona Lipaz-Michael). Uma defende a herança cinqüentenária da família enquanto a outra tenta salvar um casamento que está fragilizado. Aprofundando a análise podemos dizer que ambas estão tentando preservar sua própria existência. Salma foi criada embaixo dos limões, ajudando o pai no cultivo após a morte da mãe. Nem com um filho morando nos EUA ela quis deixar as árvores para trás. Mira também tem uma filha morando na América, a qual sempre recorre nos momentos de carência que o marido que está sempre ocupado de mais acaba não preenchendo. Com a crise perante a derrubada dos limoeiros, elas se confrontam com a própria solidão e a falta de chão por se perceberem sozinhas e frágeis. Elas até buscam o apoio masculino, mas esse se mostra falso e ineficiente. Cabe a cada uma delas encontrar seu próprio destino, independente de ministros e limões.
Dois jovens se apaixonam loucamente. Porém suas famílias proíbem o relacionamento e o amor desenfreado acaba resultando em duplo suicídio. Romeu & Julieta de Shakespeare ? Errado. Falo de Píramo e Tisbe do poeta romano Ovídio (43 A.C – 17 D.C.). Seguindo essa máxima de “nessa vida nada se cria, tudo se copia”, o lendário escritor inglês não escapou desta, mas acabou imortalizando na cultura ocidental histórias que esboçam o conflito de jovens casais que não podem viver seu amor em paz. “Era uma Vez” do diretor Breno Silveira, também responsável por “Dois Filhos de Francisco” (2005), conta a mesma história pela milésima vez. Ao invés de famílias inimigas, os jovens pertencem a classes sócias distintas, o que no contexto de um país subdesenvolvido como o Brasil significa um verdadeiro apartheid sócio-cultural. Ele é criado no Morro do Cantagalo. Ela é uma patricinha de Ipanema. O mérito do filme é de justamente destrinchar os preconceitos entre as classes. Porém a maneira de conduzir a trama como uma novela das oito (tirada típica da Globo Filmes) acaba empobrecendo a história. Mas não desanime durante o desenrolar, pois apesar de um meio fraco, o final é de certa forma chocante, dando uma resolução pessimista nesse contexto de preconceitos. Fazendo uma análise psicológica podemos nos perguntar por que o desejo do proibido é tão forte e faz qualquer ser humano cometer uma loucura, como arriscar a própria vida por uma paixão? Se Freud soubesse o quanto os amores proibidos iriam ser tão presentes nos séculos que seguiriam sua morte, ele talvez teria desenvolvido além do “Complexo de Édipo e Jocasta” o “ Complexo de Píramo e Tisbe” tentando explicar a obsessão amorosa sem limites além da post mortem.
Confesso que filmes que envolvam situações em que o personagem principal fica paraplégico me deixam desconcertada. Fico me imaginando o que se passaria pela minha cabeça se isso acontecesse. Iria lutar pela vida ou desistir dela? Quando assisti Menina de Ouro (2004) fiquei atordoado com o destino da personagem de Maggie Fitzgerald (Oscarizando merecidamente Hilary Swank). Ela estava no auge de sua carreira como lutadora, e a agressividade imprudente de sua adversária a fizeram perder TUDO! E qual destino ela escolhe pra si? A morte. A cena em que Frankie Dunn (Clint Eastwood) desliga os aparelhos, faz arrepiar a espinha dorsal. No mesmo ano, outro filme que mexeu muito comigo: Mar Adentro (2004) . Se vocês acham que a interpretação de Javier Bardem é atordoante em Onde os Fracos Não Tem Vez (2007), precisam assistir a essa produção espanhola. No auge de sua juventude Ramón Sampedro fica paralítico ao bater a cabeça em um mergulho. A história é baseada em fatos reais, contando sobre o primeiro espanhol que exigiu judicialmente a sua morte pela eutanásia. Mas uma vez a escolha por interromper uma “meia- vida” ( deixando claro que está e a opinião/visão do personagem de Bardem no filme!). O que dizer então de O Escafandro e a Borboleta (2007), onde Jean-Do só é capaz de piscar um olho como forma de se expressar para o mundo exterior? O que mais me impressionou no filme foi a utilização da chamada “câmera subjetiva” em que a mesma funciona como se fosse o olho do personagem. No Escafandro isso se dá de uma forma alucinante. Toda a primeira metade do filme você está mergulhado na visão que o personagem tem do mundo e de sua nova situação. Você não só vê pelos seus olhos, como ouve seus pensamentos e assiste as suas fantasias. Ainda me pergunto como o diretor Julian Schnabel fez a cena em que costuram o olho do personagem! Se alguém souber, me diga, por favor… É atordoante. O que absorvi desse filme foi a mesma conclusão que obtive quando assisti a algumas semanas atrás a peça Noturno – Cadeirantes do Grupo dos Menestréis, no Teatro Dias Gomes aqui em São Paulo. A existência do ser humano engloba um importante e complexo processo de auto-aceitação. Quando se tem alguma deficiência isso se torna, teoricamente, mais difícil. Portanto as vitórias que se obtêm, sejam elas escrever um livro, cantar ou interpretar tem um valor muito superior, algo que nem mesmo a mais louca imaginação pode alcançar em altura, poder e divindade.
Se você leu minha descrição pessoal ao lado deve estar estranhando que meu primeiro post seja sobre um blockbuster “estado-unidense”, certo? Pois bem. Apenas quero aproveitar a onda “The Dark Knight” para destrinchar o trabalho de um dos mais promissores diretores britânicos pós-2000: Christopher Nolan. Nolan é graduado em literatura inglesa na University College London, reforçando que não é só em terras brazucas que encontramos grandes cineastas que não possuem formação na área. Vide Fernando Meirelles que é arquiteto e Walter Salles formado em economia. Nolan teve projeção mundial ao dirigir e roteirizar Amnésia (2000). Aliás, essa tradução é uma afronta à concepção do título original, Memento (da expressão latina Memento Mori -- “lembra-te de que vais morrer”). Durante uma cena do filme, o personagem Leonard Shelby interpretado por Guy Pearce (Los Angeles – Cidade Proibida, O Conde de Monte Cristo) afirma prontamente que não sofre de amnésia, mais de um transtorno de perda de memória recente. Isso não impediu as nossas distribuidoras brasileiras, que provavelmente não assistiram ao filme antes de colocar esse título, executarem esta afronta. Enfim, depois disso ele dirigiu Insônia e O Grande Truque. Os três filmes citados seguem a linha prenda-a-respiração-e-não-pisque-porque-senão-quando-chegar-ao-final-você-vai-falar-hãn. A fórmula para isso? Um roteiro muito bem escrito (lembre-se de que ele é formado em literatura), com pontos de virada na hora certa e nenhuma obviedade. No meio desse currículo ele se torna responsável em 2005 por “ressuscitar” a franquia Batman. Digo ressuscitar porque o clima sombrio e gótico com o qual Tim Burton pontuou Batman (1989) e Batman – O Retorno (1992), foi assassinado em mais uma insanidade cinematográfica cometida pelo megalomaníaco Joel Schumacher em Batman Eternamente (1995) e Batman e Robin (1997). Nunca o subtítulo Begins foi tão propício. O Diretor-Roteirista optou por seguir uma linha realista e verossímil. Apresentou-nos um homem comum que, amedrontando por seus demônios interiores (no caso a claustrofobia de permanecer num poço cheio de morcegos), passa por um treinamento ninja e graças à fortuna de sua família consegue projetar uma verdadeira armadura de combate ao crime, ao mesmo tempo que se disfarça de playboy bêbado cercado de modelos gostosonas (não, esse post não é sobre o Homem de Ferro
P). Agora, com o novo filme Nolan assumiu mais ainda esse mergulho psicológico nos personagens, sem maniqueísmos ou disparidades. Nos provando que, apesar de todos os efeitos especiais e explosões, o cinema nos atrai por mostrar personagens com a fragilidade humana que carregamos e enfrentamos todos os dias de nossa vida.



















