Segundos Congelados na Eternidade

CashbackAlguns truques cinematográficos podem parecer de certa forma banais e pontuais. Para conseguir determinados efeitos com Carlitos, Chaplin efetuava um simples retrocesso na película, enquanto os irmãos Wachowski precisaram de diversas câmeras posicionadas 360 graus ao redor de Neo e Trinity para que eles paralisassem no ar em meio a pancadaria. Se Kubrick inventou um dispositivo técnico especificamente para estabilizar imagens tomadas com câmera na mão para uma cena de perseguição em um labirinto, Meirelles usou apenas vassoura e fita crepe para filmar a corrida atrás de uma galinha na periferia carioca. São essas pequenas ‘cambiarras’ que fazem parte do dia-a-dia da produção de um filme. O que dizer então do efeito de congelamento de cena que Sean Ellis conseguiu efetuar em Cashback, tanto no curta de 2004 quanto no longa de 2006? Ok. Confesso que dei uma boa ‘googlada’ enquanto escrevia este post, mas não consegui desvendar esse mistério da sétima arte. Portanto se o filme aparenta ser mais uma boba comédia romântica com o mais bizarro humor britânico, agüentem firme e apreciem essas cenas de uma habilidade técnica incrível. E não pensem que se trata de um efeito especial vazio, pois, pelo contrário, é totalmente central e pertinente a história! Finalizo com o link para o curta-metragem que inspirou o longa, dando uma pitadas desses segundos paralisados no tempo.

Parte I

Parte II

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N. Y. Sex-Sitiada

ShortbusEm Novembro de 2001 os escombros do World Trade Center ainda estavam sendo revirados quando estreou a série 24 Horas. Depois de tempos em que a futilidade de Sex and the City imperava nas tramas nova-iorquinas, se iniciava a era da pancadaria antiterrorista nas telas. Analistas culturais imaginavam que surgira um novo momento na produção audiovisual estadunidense, em que a consciência política imperaria e onde Jack Bauer era apenas a ponta do iceberg. Ledo engano de que os norte-americanos finalmente se dariam conta de que não são o centro do universo. Mesmo com produções que tentaram analisar criticamente o 11 de Setembro, como Medo e Obsessão (2004) de Win Wenders, ainda tivemos muita superficialidade e alienação para o que hora estava caindo sobre a cabeça de todos. É só conferir o quão fútil é o próprio Sex and The City – O Filme (2008). Shortbus (2006) caminha nesta linha tênue entre o vazio e o politizado. Podemos interpretar o filme como jovens fazendo sexo para esquecer os problemas ou como o sexo libertino como grande crítica do que os Estados Unidos diz tanto ser, mas não é: Livre e Democrático! Todos os personagens do filme são arquétipos em que se pode destrinchar da seguinte forma. O gay quer se suicidar apesar de viver um relacionamento feliz. Então porque ele quer morrer? Talvez seja justamente essa sensação de vazio que ficou para maior parte dos americanos depois do atentado. Todos se sentem totalmente diferentes e mesmo vivendo uma vida aparentemente feliz o estranhamento e os porquês continuam martelando no interior do ego. Temos também o voyerista, que assiste tudo a distância como se aquele mundo não o pertencesse. Simboliza os americanos provincianos que acham que Iraque é um outro lugar distante que não os diz respeito diretamente. A dominatrix seria aqueles que ainda tentam obviamente dominar a situação de terror e medo, mas não conseguem controlar e administrar a si mesmo. A terapeuta sexual que nunca teve orgasmo é ironicamente uma canadense de família chinesa. Maior tentativa de distanciamento de personagem, impossível, pois ela representa a alienação de todo povo americano, que vive seu dia a dia normalmente, porém sem enxergar o que está na frente. Não sente o tal “orgasmo existencial” que a personagem tanto procura. Por fim temos duas figuras que estão no topo da hierarquia dos personagens: a drag-queen e o prefeito. O político é alguém que representa um sistema arcaico e ultrapassado, por isso o personagem é visivelmente velho que admite ter se podado e não saído do armário para viver sua vida honestamente. No outro pólo a alternativa drag comanda o clube onde tudo pode ser feito. O que vale é preencher o vazio e se alienar. De que vale McCain ou Obana se a esperança está morta desde que os cherokees foram exterminados. Estranho, mas estou com a mesma sensação de que a libertinagem sexual carnavalesca para nos alienar politicamente não me é incomum… Quem era mesmo aquela loira que nos aconselhou “Relaxa e Goza”?!

Raindrops Keep Fallin’ on My Head

Butch Cassidy e Sundance Kid São muitos os atores e atrizes que ficam presos á um único gênero e papel. Ou será que você conseguiria imaginar Meg Ryan interpretando uma vilã extremamente maléfica e sádica ou Johnny Deep fazendo o papel de um ser humano normal, que acorda para ir trabalhar em um escritório todo dia e tem uma família feliz? Paul Newman, que infelizmente nos deixou no último sábado, pertencia ao rol dos grandes atores com uma carreira totalmente eclética. Suas interpretações percorreram desde o delicado gênero drama, como no longa Gata em Teto de Zinco Quente (1958) estrelado ao lado de Elisabeth Taylor, e O Mercador de Almas (1958) que lhe rendeu um prêmio no Festival de Cannes, ao violento estilo gangster em Golpe de Mestre (1973) e Estrada para Perdição (2002), sua última grande atuação na tela grande. Mas certamente foi nos faroestes que Newman pôde aflorar sua veia cômica, uma verdadeira contradição em um estilo de filme marcado pelos constantes tiros e socos. Hud (1963), Hombre (1967) e Oeste Selvagem (1976) são alguns exemplos pontuais que podem ser citados, porém, com um destaque óbvio para Butch Cassidy e Sundance Kid (1969). O diretor George Roy Hill soube como ninguém conduzir os, então, galãs Paul Newman e Robert Redford, resultando numa interpretação cativante graças à forte veia cômica e sarcástica da trama. Roy Hill ainda comandaria a dupla em outro grande sucesso, o já citado Golpe de Mestre, também contrabalanceando humor e violência. Finalizo o Clássico em DVD da semana com alguns dos grandes trechos desta marcante obra cinematográfica, embalada pela canção composta exclusivamente para o longa, sendo inclusive ganhadora do Oscar, Raindrops Keep Fallin’ on My Head. Com esta perda, não somente as gotas de chuva escorrerão pelas nossas cabeças, mas as lágrimas apertadas estarão em nossos olhos ao apreciar inesquecíveis interpretações cinematográficas de uma época em que os grandes astros de Hollywood morriam de velhice depois de uma longa carreira e não de overdose precocemente nos abandonando.
 

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80 Minutos é Pouco…

U23DFevereiro de 2006. Eu ainda era uma estudante de Ecologia e estava fazendo um estágio de 3 meses em uma comunidade isolada de pescadores chamada Marujá, localizada no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, extremo litoral sul do estado de São Paulo já na fronteira com o Paraná. Eu estava a nada menos que 3 horas de barco e 5 horas de ônibus da capital paulista. Mesmo assim percorri este longo caminho até o Estádio do Morumbi para apreciar a Vertigo Tour da banda irlandesa U2. Apreciar não. DELIRAR. Não vou ser nem um pouco neutra e negar que o U2 é a minha banda favorita! Fiquei encantada e chorei do começo ao fim, cantei do começo ao fim, fiquei com o coração apertado e o estômago doendo do começo ao fim… E horas depois, ainda tremendo de êxtase, peguei o ônibus e o barco de volta para a ilha. Este ano fui presenteada em saber que poderia conferir o show no inovador formato 3D. Mesmo estando a certo tempo em cartaz, por questões de trabalho somente agora pude assistir a obra. E não me arrependi! Bem, você deve estar se perguntando por que eu dei apenas 4 películas para filme se sou tão fã assim. O problema é que passou rápido de mais a experiência em 3D. Dar apenas 1 hora e 20 minutos é explorar pouco o potencial tecnológico e musical que poderia render muito mais tempo de projeção. Além disso, o corte temporal resultou na ausência de canções como Elevation, Misterious Ways e City of Blinding Lights. Posso estar sendo uma fã abobada, reclamando de boca cheia. Mas fica aqui o elogio para a tecnologia 3D, que como está explicitada na sessão A Crítica, pode ajudar a diminuir a pirataria e mais uma vez inovar a indústria cinematográfica retardando o seu sempre tão anunciado fim. Além disso, poder ter a sensação de apreciar o show de ângulos inimagináveis, é único e totalmente inesquecível. Como aquela noite chuvosa de Fevereiro de 2006…

Com R$5,50 Eu Teria Comprado 6 Camisinhas e …

Branca de Neve - Depois do CasamentoMesmo aproveitando horários promocionais durante a semana, ir ao cinema a um preço justo e principalmente para ver uma obra que seja financeiramente compensadora, se torna em certos contextos algo escasso. Dito isso, os R$ 5,50 que gastei para conferir Branca de Neve – Depois do Casamento (2007) resultaram em perda de uma preciosa parcela de meu tempo e dinheiro. Poderia muito bem ter assistido outra coisa e, portanto, estar postando sobre outro filme aqui. Mas para não acharem também que tudo que eu assisto é bom, vamos lá. Para começar a sala estava quase totalmente vazia, com apenas 3 colegiais com pipoca e refrigerante ao fundo. Péssimo sinal! Durante a projeção, cada palavrão dito ou peitos e pênis aparecendo, risadinhas ecoavam do trio. E eu estática pensando ‘Meu Pai, quanta tinta e película indo para o ralo…’ Para resumir e também não ficar gastando espaço no MovieYou em um filme que pode estar sendo apenas mal-compreendido, vou simplificar minha recomendação: Se você nunca foi à um motel e assistiu aqueles filmes que passam nos canais prive disponíveis nas suítes mais caras, Branca de Neve – Depois do Casamento foi feito na medida certa para sua vasta experiência sexual.

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Um Dia Serás Compreendido!

Moulin Rouge!Confesso que o contexto em que fui apreciar Moulin Rouge! (2001) foi um tanto quanto ‘alienado’. Eu tinha à época 16 anos e fui assistir ao filme com uma amiga fã de Christina Aguilera, hipnotizada pelo clip de Lady Marmalade. Nenhuma de nós, muito menos os outros presentes na sala de cinema, tinham qualquer idéia de que o filme era musical. Se para a maioria do pessoal da sala a sensação foi de total estranhamento ao ver os personagens cantando e dançando enquanto expõe suas paixões, eu e minha amiga ficamos encantadas! Na época eu já era fã de U2 e fiquei muito feliz com a inclusão da banda, e de outras como Nirvana, na trilha sonora totalmente moderna. Acabei re-assistindo o filme diversas vezes e decorando todas as músicas. Moulin Rouge! foi o primeiro musical que assisti, e até hoje é um dos filmes mais marcantes por justamente ter me surpreendido tanto na sala de projeção. Mas na época percebi que partilhava de uma admiração quase solitária, como na sessão de cinema com minha amiga. Revendo o filme na compania de outros amigos eu continuava sendo a única a gostar daquele esquema ‘cante-e-dance’. Até que ao entrar na faculdade de cinema, vi que não estava só em saber de cor o Elephant Love Medley. E também percebi que ao se distanciar em mais de 5 anos do filme, o público e a crítica já o via com outros olhos. Se na época de seu lançamento, o diretor do longa Baz Luhrmann foi negativamente visto e taxado de ‘brega’, hoje o filme Moulin Rouge! (2001) figura na categoria clássico graças à insistência de uma fatia de público e determinados críticos mais conscientes e de mente aberta. Não se espante com essa contradição. Cidadão Kane (1941) de Orson Welles e Blade Runner (1982) de Ridley Scott passaram por esse mesmo martírio: Antes Mal-Compreendido, Hoje CULT! E explicar porque isso ocorre é difícil até para qualquer Ciência Humana, como a Psicologia. A impressão é que a mente humana, quando está imersa, mergulhada em determinado contexto, não consegue analisar o que ocorre no próprio umbigo. Mas ao se distanciar geograficamente ou temporalmente a habilidade de análise se otimiza espantosamente. É como o meu professor de História nos questionava nesses meus ainda 16 anos: O peixe sabe que está no mar? Agora com 23 anos posso re-adaptar um pouco a pergunta: O ser humano sabe porque está no universo? Enquanto isso, vamos cantar e dançar…

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Todo Crédito ao ABBA!

Mamma Mia!Eu não agüentei. Escrevo esse post ouvindo Dancing Queen, S.O.S, Gimme Gimme Gimme, Take a Chance on Me, Chiquitita, I Have a Dream, Honey Honey e Mamma Mia (é claro). Todos grandes hits de um dos ícones da década de 70, o ABBA. Sim, sou daqueles humanos que quando vai à festas de formatura ou casamento não vê a hora de chegar a parte Disco/GLS pra jogar as plumas e paetês para o alto , cantar e dançar. Por isso topei ir conferir o novo musical blockbuster Mamma Mia! (2008) e postar sobre ele aqui no blog, mesmo não sendo um tipo de produção cinematográfica que eu prefira. E depois do filme foi exatamente isso que restou: o ABBA. Ok, a fotografia é muito bonita, afinal gravar na Grécia dificilmente resultaria em erros. O elenco também tem crédito por possui grandes atores, mesmo os coadjuvantes, que se esforçam para que acreditemos na história sentimentaloide da filha que quer descobrir quem é seu pai. Pelo visto não tem Programa do Ratinho nem Teste de DNA naquele canto do mediterrâneo. Mas tudo bem, porque o negócio é a festa, cantar e dançar. Portanto Mamma Mia! é o filme perfeito para ir com a galera, emendando a sessão de cinema com uma balada Disco. Se não tiver nenhuma em sua cidade, organize-a. Só não esqueça de incluir Bee Gees, Village People, Gloria Gaynor e demais ícones setecentistas com toda purpurina necessária para animar a pista de dança.

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Do, Ré , Mi, Fá … Manege a Trois !

Canções de AmorOs grandes musicais sempre estiveram presentes na história do Cinema, com muita coreografia e gogó, como os mais recentes Moulin Rouge (2001) e Chicago (2002). Porém, nos últimos anos, estamos sendo presenteados com filmes musicais de visual naturalista e canções sussurradas, como em Apenas Uma Vez (2006) e Canções de Amor (2007). Neles admiramos a utopia de cantar declarações de amor de forma tão natural quanto um diálogo normalmente falado. Mas o que chama a atenção no francês Canções… do diretor Christophe Honoré, trilha sonora premiada de Alex Beaupain, é como é cantado esse sentimento entre os que pertencem ou não ao mesmo sexo. Há uma leveza tão graciosa e poética nos relacionamentos apresentados na obra que heteros, bi, homos e ‘maneges a trois’ passam na nossa frente com a naturalidade romântica típica de qualquer humano mais sensível. É muito interessante como os personagens tratam abertamente esses ‘amores diferentes’, mesmo não estando envolvidos neles. Fiquei me perguntado se o povo francês é menos preconceituoso que nós brasileiros, mas ao conferir o trailer do filme vi o quanto é poupada as cenas mais explícitas de homossexualidade, procurando com certa discrição não espantar um provável futuro espectador da película. Para mim o filme me trouxe uma leveza inimaginável. Não sei se foi o cenário de Paris, o sotaque francês cantado, o amor sem limites, ou tudo isso… Apenas sei que fiquei com vontade de sair pelas ruas aqui de São Paulo ilesa pois, mesmo tendo todo ano a maior Parada Gay do mundo, ainda me proporciona irritação ao jogar em meus ouvidos intolerantes piadas sobre a sexualidade alheia, que deveria não interessar a mais ninguém a não ser o próprio ser!

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O Ego em Azul, Branco e Vermelho.

Trilogia das CoresKrzysztof Kieslowski! Sim, o nome polonês de um dos grandes diretores do grande Cinema Europeu de Arte é de pronúncia complexa. Eu mesmo penei até conseguir dizê-lo de forma decente. Mas não se espante com um nome difícil, achando que assistir a um filme dele pode ser ainda mais complexo. Admirar A Trilogia das Cores exige apenas uma cabeça aberta a ser cutucada psicologicamente. Não recomendo uma ordem específica para se assistir os três, muito menos que você resolva assisti-los seguidamente numa Maratona Kieslowski. Cada obra precisa de um intervalo de digestão e atropelá-la pode atrapalhar a compreensão necessária. Se optar a ordem cronológica de lançamento nos cinemas teremos A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994). Em cada um é transpassada uma belíssima fotografia de acordo com a cor a ser tratada no título. Porém as diferentes tonalidades são apenas detalhes metafóricos que imprimem os sentimentos envolvidos em cada obra, como melancolia, vingança e pecado. O filme Azul foi o responsável pela projeção internacional de Juliette Binoche, consagrando-a como atriz de expressão e proporcionando à ela a chance de se infiltrar no mercado Hollywoodiano, como o fez em O Paciente Inglês (1996) e Chocolate (2000). O Branco é, ironicamente, um filme regado pelo humor negro. Não vou me privar de evidenciar que este é o meu favorito da trilogia justamente por toda a tragicomédia que envolve o personagem principal. Também é o único que tem um personagem homem como protagonista. Finalmente temos o Vermelho fechando a trilogia ao ligar temas apresentados nos outros dois, como a solidão e o abandono de egos tão confusos quanto abalados. Se os personagens da trilogia passam por situações impactantes e, de certa forma, ‘acidentais’ como a morte e a perda, enfrentá-los revela uma fina casca que encobre a fragilidade pintada em 3 tons bem demarcados, mas que bem poderiam ser milhões de matizes sentimentais.

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Se o Criador Aprovou a Criatura…

Ensaio Sobre a CegueiraQuando um roteirista escreve a base da obra cinematográfica ele tem duas opções de escolha: O Roteiro Original, tirado exclusivamente de sua mente para transpor à grande tela; e o Roteiro Adaptado, escrevendo uma versão de algo já antes publicado. E não me questione se é comodidade ou pressão mercadológica, mas uma boa parte opta por adaptar livros! Alguns nascem prontos para virar filme, como O Código DaVinci de Dan Brown. Outros, por apresentar uma escrita complexa, demoram a ter sua transposição para o Cinema, caso de Perfume de Patrick Süskind. Mas a unanimidade é absoluta ao se afirmar que é muito difícil agradar aos leitores. Nossa infinita imaginação possibilita inúmeras opções imagéticas para a obra, e a visão do diretor NUNCA será igual a nossa. É só lembrar o quanto os filmes de Harry Potter e a saga de Senhor dos Anéis de Peter Jackson dividiram os fãs do livro. No caso de J.K. Rowling ela, criadora da obra escrita, aprovou todas as etapas da produção, principalmente a escolha do elenco e os cenários. Mas e no caso de J.R.R. Tolkien? Ele revirou no túmulo de felicidade ou tristeza? Por nossa sorte José Saramago apesar dos 85 anos continua lúcido e ativo para dar seu parecer. Não foram poucos os que quiseram transpor Ensaio Sobre a Cegueira para a tela, mas foi o nosso Fernando Meirelles que conseguiu o aval para o desafio. O diretor brasileiro é alguém em quem confio muito e em nenhum momento eu tive essa confiança abalada, já que Ensaio e Saramago são o livro e escritor presentes há tempos em minha cabeceira de favoritos. Nem mesmo quando soube da recepção fria em Cannes fiquei em dúvida. Pensei comigo mesmo “se o livro em si já é de difícil compreensão, imagine o filme”! Mas o que foi decisivo para a minha aprovação em topar assistir o filme foi o vídeo que o filho de Meirelles captou e jogou no YouTube, intitulado José Saramago assiste Ensaio Sobre a Cegueira. Para mim se o criador se emocionou, porque eu discordaria de quem inicialmente concebeu aquele universo da cegueira existencial “branca como um mar de leite”? Desculpe, seria pedante de mais da minha parte discordar de um ganhador do prêmio Nobel e, principalmente, de alguém que consegue destrinchar a alma humana em longos parágrafos sobrepostos de fluxo de consciência de almas perdidas em seu próprio ego.

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