Monstros Interiores

O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry e Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll figuram entre aquelas obras que adquirem sentidos distintos com o passar do tempo, ou melhor, de acordo com a maturidade do leitor.  Ambos os livros já ganharam diversas versões em audiovisual encantando gerações de admiradores da sétima arte. E agora, um cineasta excêntrico chamado Spike Jonze, que já dirigiu as loucuras cinematográficas Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002), encara o desafio de transpor para tela o clássico Onde Vivem os Monstros (2009) de Maurice Sendak. A bela metáfora de uma criança descobrindo seus aspectos negativos como raiva, ciúmes, ira e vingança cai como uma luva para adultos que desejam apreciar um belo filme de conotação fantasiosa e melancólica. Visualmente o longa traz muitas tomadas com a câmera nas mãos do diretor, correndo esbaforido para alcançar o sentimento dos atores e, principalmente, dos bonecos. Desde História sem Fim (1984) e da saga Star Wars não víamos no cinema bonecos de “pelo e arame” tão bem feitos. O elenco que dubla os monstrinhos peludos também surpreende, com nomes como Chris Cooper (oscarizado em 2003 por Adaptação do próprio Jonze), Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia – 2006), Paul Dano (Pequena Miss Sunshine – 2006) Catherine O’Hara (Esqueceram de Mim – 1990) e James Gandolfine (do seriado mafioso Família Soprano) dublando a criatura de maior destaque, o pequeno-grande-bi-polar Carol. A semelhança entre a personalidade do menino Max (Max Records) e Carol ultrapassam a simples conotação e adquirem ares de espelhagem interior, no sentido em que o que os olhos de um vêem, o coração do outro sente. Adultos, preparem os lenços e a mente para um mergulho em pequenos traumas de infância e só levem suas crianças ao cinema se elas forem sensíveis e imaginativas… No final das contas, esqueçam estes conselhos bobos, pois, qualquer um de coração leve e mente livre irá se emocionar em visitar, mesmo que por 100 minutos, seus monstros interiores.

Onde Vivem os Monstros 4 Comentários
Nada Elementar, Meu Caro Ritchie…

Quem estiver acostumado com a sóbria narrativa literária com que Arthur Conan Doyle conduz suas personas nos livros de Sherlock Holmes, pode se preparar para uma revolução e modernização deste clássico detetive. O roteiro que conduz o primeiro filme da franquia (sim, o final dá margem para uma continuação) tem tudo que uma boa trama de aventura, mistério e suspense pede, menos obviedade. As pistas estão soltas no decorrer da história retratada em Sherlock Holmes (2009) para serem deduzidas e amarradas durante o clímax pelo investigador inglês. Mas a intelectualidade é apenas um charme vitoriano, junto com figurinos, direção de arte e ambientação do século retrasado. Os modernosos socos e sopapos típicos dos longas de Guy Ritchie, como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch – Porcos e Diamantes (2000) estão lá em belas câmeras lentas com exclusiva narração de Holmes para cada movimento a ser feito, como se a pancadaria também tivesse pistas à serem desvendadas, ou melhor, desafios à serem literalmente derrubados! Ângulos impensáveis, excelente trilha sonora de Hans Zimmer (responsável pelo som em Cavaleiro das Trevas – 2008) e elenco afiadíssimo formado por Robert Downey Jr. (Sherlock), Jude Law (Watson) e Rachel McAdams (Irene Adler) completam a obra que promete iniciar com o pé direito as grandes estréias de 2010. Um ótimo começo… E que venha Moriaty!

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O Avatar de Gaia

Avatar A BLOGUEIRAA Terra, o planeta que nos acolhe, grita por socorro. Ás vezes ela clama de forma violenta, derramando lágrimas de tempestades e soluços trovejados. Em outros tempos ela sorri ao desabrochar de orquídeas raras em faunas intocadas. Gaia, por fim, ainda tenta respirar, mesmo com suas montanhas gélidas derretendo a cada árvore que padece. E não adianta em nada os homens de poder se sentarem em suas mesas de madeira reflorestada e fazerem suas políticas, seja no Rio, Kyoto ou Copenhagen. Gaia ainda chora. Ainda bem que homens de coragem usam a sua inteligência criativa para chamar a atenção de quem ainda insiste em se alienar na falsa esperança de que a Natureza responderá por si só, ou através de avatares. Avatar (2009) custou caro: 400 milhões de dólares. Pense em todo carbono produzido por essa montanha de dinheiro. Agora pare, sinta e, principalmente, reflita. Os seres azuis designados como Na´vi e a lua de Pandora são apenas ralas metáforas da raça humana, construída com engenhosa e assombrosa tecnologia? Não. Os avatares são tão profundos quanto qualquer alma ou espírito. Há uma jornada do herói, isto é fato para qualquer roteiro épico (e viva Joseph Campbell!). Mas há majoritariamente VIDA e uma bela e visualmente poética (in)direta sobre a merda (!) que a raça humana anda fazendo com Gaia, a machucando profunda e cancerosamente. Vamos nos deixar sucumbir pela iminente crise ambiental ou esperar que um Jake, Lula ou Obama nos devolva a paz verde? Eu, particularmente, não prefiro esperar… Veja Avatar em Imax, 3D, 2D, E-mule ou Pirata. Se a bela e pura semente da vida não te tocar o mínimo que seja, então você não é filho de Gaia…

Enologia do Fracasso

Sideways A BLOGUEIRA

Sideways (2004) marcou o ano de seu lançamento como filme mais cult e aclamado do ano, mesmo tendo ganho apenas um Oscar, o de melhor roteiro adaptado. A alma do longa é Miles, personagem brilhantemente interpretado por Paul Giamatti, um cara tipicamente loser, escritor falido que tenta preencher sua vida com o pseudo-intelectualismo típico de quem aprecia um vinho pelo viés enólogico. Com uma bela fotografia emoldurada pelas paisagens da rota do vinho californiana, a força da trama está nos diálogos que transpassam a malandragem e são altamente pontuados por vinhos e todos os seus sub-gêneros. Em alguns momentos nos questionamos se queremos um final feliz, pois o mais sádico e divertido é justamente ver os protagonistas se ferrando a cada taça. Não há como conter o riso com os tropeços bêbados a cada tentativa de se darem bem. Em resumo, Sideways é uma crônica da modernidade em que os fracassos são entorpecidos por vícios idílicos, sejam ele drogas, bebidas ou a mera intelectualidade.

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Disney They Can

A Princesa e o Sapo A BLOGUEIRAA era Obama do politicamente correto adere aos estúdios Disney, e já não era sem tempo. Depois de mais de 80 anos de existência, a grife número 1 de animação do mundo produz seu primeiro longa com uma protagonista negra. Tiana de A Princesa e O Sapo (2009) vêm incorporar o roll das princesas ao lado de Branca de Neve, Cinderela , Bela Adormecida, Bela, Ariel, entre outras. O longa, ambientado em New Orleans, mostra uma forte e batalhadora heroína que sonha abrir um restaurante, necessitando de dinheiro para tal. Em uma metáfora da busca e transformação comportamental, a protagonista se transforma em sapa e passa a conviver com seres do pantâno até poder quebrar o feitiço que a amaldiçoou. Em um retorno aos musicais Disney que foram deixados de lado pelos moldes modernos da Pixar, a trilha sonora traz muito jazz e folk, se tornando o grande êxito do longa. E quem está por trás destas canções é o compositor Randy Newman que faturou um Oscar de Canção Original pela animação Monstros S.A. (2001). O roteiro escorrega um pouco no óbvio da lição de moral, mas Ron Clements, que já dirigiu A Pequena Sereia (1989), Alladim (1992) e Hércules (1997) foi capaz de produz mais um clássico Disney. Cabe agora esperar os reflexos na bilheteria revelando que o público infantil pós-2000 acostumado com modernidade e tecnologia, irá se encantar por uma história romântica e clássica.

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Vícios Almodovorianos

Abraços Partidos A BLOGUEIRA

Depois de mais de 30 obras cinematográficas concebidas desde a década de 70, o diretor espanhol Pedro Almodóvar já passou pelas definições de subversivo, pornográfico, cult até se tornar um adjetivo: almodovariano! Depois de Volver (2006) em que deixou de lado muito das características polêmicas que o consagraram, o cineasta retoma em Abraços Partidos (2009) suas referências pessoais em uma bela homenagem ao cinema. Estão lá peitos, homossexuais, segredos, cores e Penélope Cruz, a cereja do bolo. Em certos aspectos o roteiro remete à trama de Tudo Sobre Minha Mãe (1999), mas quem guarda o segredo da história é o pai. Há a violência, obsessão e passionalidade. Mas, acima de tudo, há cinema, com uma história dentro da outra em uma típica metalinguagem almodovoriana. Visualmente e conceitualmente o longa está excelente, mas em seu roteiro há tropeços. Falta um clímax, ou mesmo anti-clímax e tudo fica solto no ar como se não tivesse importância e até a revelação de importantes segredos soam superficiais. Ausência de ousadia? Almodóvar pode sim estar ficando velho, contido. Porém isto não exime a criatividade que, com o tempo, deveriam florescer e não murchar.

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Solidão Regada à Fumaça

É Proibido Fumar  A BLOGUEIRAComodismo, pessimismo e auto-flagelismo. Os 3 “ismos” pilares de uma humanidade que às vezes insiste em andar em círculos, com um passo em falso sobre o outro. Este é o caso da personagem de Baby interpretada por uma Glória Pires à vontade no do longa É Proibido Fumar (2009) de Anna Muylaert, ganhador de 8 Candangos inclusive Melhor Filme no último Festival de Brasília.Baby é a figura da mulher cinquentona que vive solitária na metrópole do mundo. Em um apartamento herdado da mãe e cheia de samambaias ela sobrevive ensinando violão as mais inusitadas figuras. Sua bengala e apoio psicológico é o cigarro, único amigo\inimigo que parece compreendê-la e confortá-la. Até que surge Max (Paulo Miklos, sempre excelente), próximo candidato a preencher a existência de Baby num possível detrimento do cigarro. Os grandes trunfos de É Proibido Fumar passam pela fluidez do roteiro, a coesão narrativa e visual, a trilha sonora docemente embalada por violões e a fotografia que torna qualquer ângulo agradável ao olhar. Não é a toa a consagração em Brasília. Com conflitos universais, o filme fecha o ano de 2009 na cinematografia nacional com uma reflexão. Depois do sucesso estrondoso das comédias Se eu Fosse Você 2, A Mulher Invisível e Divã , uma obra finaliza este ano com uma irônica introspecção. Será a prévia de um 2010 que se iniciará com a melodramática biografia de Lula? É ano de eleição, hora de decisão e seriedade. Mas calma que têm Copa antes. E que venham as bombas norte-coreanas.

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Flutuações Paralelas

Tokyo A BLOGUEIRADificilmente as pessoas escolhem um filme pelo cartaz. Geralmente elas vão para o cinema no mínimo com a sinopse do longa na cabeça. Não foi o que ocorreu comigo na minha última ida a sala escura. Indecisa sobre o que ver, um pôster amarelo se iluminou e trouxe aos meus olhos o nome Michel Gondry. Na hora me veio a mente as belíssimas truncagens feitas pelo diretor nas suas obras Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) e Rebobine Por Favor (2008). O cartaz também trazia outros dois nomes: Joon-Ho Bong e Leos Carax. O nome do filme : Tokyo! (2008). Movida pela curiosidade em apreciar a reunião de 3 média-metragens, um de cada diretor, com o visionário olhar sobre a metrópole asiática, comprei o ingresso. A primeira história, de Michel Gondry intitulada Decoração de Interiores traz jovens personagens, na faixa dos 20 e poucos anos, que se arriscam a morar na cidade para tentar a sorte, ao mesmo tempo que procuram descobrir seu lugar no mundo e seu papel na sociedade. Um belo conflito universal que, em momento ou outro, cerca o indivíduo em torno dos questionamentos de “Quem sou eu?” e “Qual a minha função neste mundo?”. Ponto positivo para Gondry na cena em que uma das personagens se “coisifica” numa cadeira. A segunda história, a mais fraca das 3, é de Leos Carax intitulada Mr. Merde (Senhor Merda, em francês). Somos apresentados a uma persona que se relaciona de forma agressiva perante a sociedade, seja por sua postura esquisita ao olhar alheio ou atitudes destrutivamente agressivas. Há uma tentativa em debater a xenofobia entre nação receptora e imigrantes, conflito comum na geografia atual em que a globalização transporta as pessoas de um país ao outro em busca de uma situação econômica mais estável. Mas o diretor acaba pecando em cair no lugar comum e seu conto se perde. Uma curiosidade é a atriz francesa Julie Dreyfus,  a Sophie Fatale de Kill Bill vol.1 (2003) que faz uma ponta na trama. A última e mais sensível história é Shaking Tokio de Joon-Ho Bong que mostra um hikikomori, pessoa que se isola do contato social passando a viver recluso em sua residência, uma situação crônica e comum na saúde pública do Japão. Depois de mais de 10 anos nesta situação, o personagem central se vê tocado pela paixão, pelo visto a única coisa capaz de lhe tirar da letargia solitária. As sequências mais impressionantes deste segmento é ver as ruas de Tokio, em plena luz do dia, completamente vazias. Tokio!, que esteve presente no festival de Cannes de 2008, merece ser apreciado por qualquer cinéfilo interessado em ver um trabalho diferenciado que mostra conflitos universais em uma metrópole. Pouco importa ali que os olhos dos personagens são puxados e sua fala é numa língua inteligível. A humanidade está ali, gritando, clamando por atenção, amor, diferenciação e legitimidade.

Ícone, Mito, Mulher…

Coco Antes de Chanel A BLOGUEIRAA atriz francesa Audrey Tautou já está inserida no imaginário coletivo da cultura pop pós-2000 como a doce e romântica Amélie Poulain do longa que relata seu fabuloso destino. Difícil é imaginá-la deixando o estigma desta personagem tão marcante, mesmo após estrelar filmes blockbusters como O Código Da Vinci (2006). Mas uma nova obra cinematográfica vêm desafiar o status e talento da atriz ao carregar nela a figura tão marcante e mitológica quanto qualquer outro ícone feminino que venha surgir. A figura em questão é a estilista Coco Chanel, que tem sua vida antes da fama nas passarelas e vitrines biografada no longa Coco Antes de Chanel (2009). Mais do que a semelhança de nacionalidade e da anatomia do nariz empinado, Audrey conseguiu encarnar com segurança e precisão Coco, sem precisar apelar para trejeitos imitativos, técnica comum em interpretações desse tipo. Além disso, o roteiro procura não cair no melodrama evitando explorar massivamente aspectos dramáticos da biografada, como o abandono no orfanato e a morte do amante. A direção de Anne Fountaine é como um tailler bem cortado por Chanel: tudo é preciso, pontual e discreto, sem qualquer excesso. Como grande mérito, o filme instiga o nosso senso de admiração ao mostrar uma mulher forte e geniosa, questionando e quebrando tabus que ultrapassam o vestuário e invadem o comportamental. Apesar da trama focar em dois romances marcantes na vida de Coco, a obra dá subsídios para compreendermos a construção da figura de Chanel como alguém totalmente independente e satisfeita com essa condição. Sendo assim, Coco Antes de Chanel é recomendado para amantes da moda, que ficarão satisfeitos e, contemplar pormenores da construção de tão famoso figurino. Além disso, o longa é para quem gosta de ver os bastidores de uma persona tão marcante quanto uma bela mulher vestindo um “pretinho básico” com colar de pérolas brancas. “Vista-se mal e notarão o vestido. Vista-se bem e notarão a mulher. C.C.”

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Algo Feito por Deus

Quase Deuses A BLOGUEIRAMuitas vezes um filme merece ser assistido mais pela sua mensagem central do que pela qualidade fílmica. É o caso de Quase Deuses (2004) do diretor Joseph Sargent. A obra, originalmente concebida para o canal de Tv HBO e indicada a vários Emmys e Globos de Ouro, pode ser encontrada em DVD no país. Filmado e editado de maneira tradicional, com boa direção de arte na reconstrução de cenários e figurinos na América dos anos 40, 50 e 60, o filme não se sobressai em nenhum aspecto técnico. A trama é centrada em dois personagens, opostos em suas condições sociais ,mas movidos pela mesma paixão e desafio em salvar vidas. Em um pólo temos Dr. Alfred Blalock, vivido pelo excelente Alan Rickman, conhecido pelo grande público como o mau-humorado e sarcástico Professor Snape nos filmes da saga Harry Potter. No outro temos Vivien Thomas, interpretado por Mos Def que também pode ser visto no tocante Rebobine Por Favor (2008) do cineasta francês Michel Gondry. Blalock é um renomado médico e pesquisador da elite estado-unidense. Vivien é um jovem carpinteiro negro que procura vencer todo o preconceito e segregação racial para realizar o sonho de se tornar médico. E obstáculos é o que não faltam para Vivien, que tem a sua poupança para a faculdade confiscada devido a grande depressão. Ao se tornar assistente do Dr. Blalock em suas pesquisas de cirurgia cardíaca, Vivien conquista um meio de realizar seu sonho, mesmo com barreiras que transpassam a intolerância e a dificuldade financeira. No primeiro momento, o filme pode parecer uma boa obra de incentivo para quem deseja se tornar médico, ao estilo do emotivo Patch Adams (1998) entre outros que abarcam esta temática.Porém, analisando com mais atenção, a obra é um sensível impulso para quem nunca quer desistir de seus sonhos, por mais que o destino conspire em barreiras que com persistência e coragem podem sim ser quebradas .

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