Federico Fellini foi um dos cineastas europeus mais influentes e imaginativos da sétima arte. Seus filmes sempre transmitem a sensação alucinógena de um sonho. O desejo sexual, o poder maternal e a fragilidade masculina são pontos comuns em sua obra. No auge da maturidade o diretor criou Fellini 8 ½ (1963) , um filme que apresentava Marcello Mastroianni, seu alter-ego recorrente, em um artista vivendo momentos de pânico e ausência criativa. Anos depois, Antonhy Minghella, diretor já falecido de O Paciente Inglês (1996), criou para os palcos da Broadway o musical Nine, espetáculo inspirado nas metáforas fellinianas, culminando em uma espécie de continuação de 8 ½. E no último ano, Rob Marshall, responsável pelo sucesso oscarizado de Chicago (2002), trouxe à tela grande o glamuroso Nine (2009) com elenco estelar: Katie Holmes, Nicole Kidman, Judi Dench, Penélope Cruz, Marilon Coutilard e Sophia Loren, todas grandes atrizes ainda vivas. A frente destas poderosas mulheres está Daniel Day-Lewis, sempre acima da média, interpretando Guido, o sonhador diretor que não consegue se quer roteirizar seu novo filme. Tratando-se de Marshall, já era de se esperar números musicais grandiosos, mas a Itália soube se revelar o maior encanto do filme, com cenas de fotografia espetacular em Roma e arredores. Além do charmoso país, Coutilard vencedora do Oscar por Piaf (2007) rouba a cena com os melhores e mais vicerais momentos musicados do filme. Pena que as premiações deste início de ano não estejam sendo favorável ao filme, vide o péssimo Se Beber Não Case (2009) ter derrotado o musical no Globo de Ouro. Esperamos então que o Oscar seja bem mais justo e compensatório.
Menina de Ouro (2004) é um dos filmes que, literalmente te dão um soco na cara. A história de uma lutadora de boxe, que apesar de todo esforço e suor em cima dos ringues, se vê obrigada a finalizar sua vida através da eutanásia, é de arrepiar e comover até aqueles de coração mais duro. Mas ao final do filme, a sensação é de pessimismo e ficamos com os ânimos atordoados com a conclusão do roteiro. Todo o brilhantismo dessa obra se deve, além de interpretações marcantes e oscarizadas de Morgan Freeman e Hilary Swank, ao fino trato dado pelo diretor Clint Eastwood, responsável por grandes obras da década de 90 e pós 2000, como Os Imperdoáveis (1992), Sobre Meninos e Lobos (2003) e Cartas de Iwo Jima (2006). Se Menina de Ouro é um filme que permeia um esporte, boxe no caso, e te põe a nocaute no final, o novo filme de Eastwood Invictus (2009) provoca a sensação contrária. Otimismo, Perdão, Inspiração, Vitória e União são apenas alguns dos sentimentos positivos que a obra traz ao espectador. Morgan Freeman encarna Nelson Mandela no primeiro ano de seu mandato como presidente da África do Sul. Com o desafio de unir uma nação dividida racialmente, ele encontra no time de rúgbi do país a chance de provocar o sentimento de unidade em todos os cidadãos sul-africanos. Baseado numa obra real, Matt Damon, em um papel extremamente maduro, também encanta como o capitão do time que não consegue ententer a complexa grandiosidade de Mandela, um homem que mesmo após 30 anos preso soube perdoar seus algozes. O filme é uma lição de vida e, tratando-se de Clint, de cinema também. As tomadas em câmera lenta dos jogos são poéticos balés de testosterona na lente do diretor. Caro espectador, prepare olhos e mente para Invictus e absorva o que duas grandes personalidades de nossa história tem a dizer e mostrar direto de seus corações e almas.
O bairro paulistano da Liberdade, reduto da cultura oriental na cidade de São Paulo, possui todos os elementos para um bom suspense noir: inferninhos iluminados por neon vermelho, prostitutas de todas as raças e leões de chácara em cada esquina. Com esse tempero com gosto de molho shoyu o diretor Nelson Yu Lik-wai tentou levar o público a embarcar em Plastic City (2008), longa com uma trama cheia de metáforas, mas com buracos difíceis de enfrentar para qualquer ninja ou samurai. Nascido em Hong Kong, Yu Lik-wai desenvolveu a visão de uma Ásia ao mesmo tempo moderna e cheia de características de submundo e foi este o olhar usado nos mais de 15 filmes em que atuou como diretor de fotografia. Assumindo também a direção em 4 longas, esse olhar se acentuou nos limites de surrealismo, prova disso é a trama confusa de Plastic City. O filme começa apresentando o criminoso Yuda (Anthony Wong Chau-Sang) que vive do contrabando e venda de mercadorias Made in Asia, ou Made In Trabalho-Escravo… como preferir! Aparentemente estamos diante de uma biografia não autorizada de Law Kin Chong, o já proclamado Rei da 25 de Março, rua de comércio popular de São Paulo com o maior índice de produtos piratas por metro quadrado das Américas. Porém, esta linha narrativa é totalmente despistada no transcorrer das cenas e nos vemos diante de uma história que mistura iniciação yakusa, samurais urbanóides, periferias de grandes metrópoles, evangelismo e mais uma salada indigesta de simbologias. Sem ter quem o guie de forma sensata e coerente o espectador se perde totalmente e uma boa premissa acaba indo para o ralo. O argumento inicialmente interessante é suicidado por um ar artístico pedante de mais. Não só a narrativa é sucumbida por este erro, mas a linguagem cinematográfica da obra que deveria ser surreal e moderna peca em erros crassos, como a nítida e parca dublagem dos protagonistas quando falam em português. A conclusão depois de se ver Plastic City é a de que depois de tantos “vai-e-vens” que não levam a lugar algum fica o desejo de que a Liberdade seja cenário de um longa mais promissor e valioso no futuro.
O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry e Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll figuram entre aquelas obras que adquirem sentidos distintos com o passar do tempo, ou melhor, de acordo com a maturidade do leitor. Ambos os livros já ganharam diversas versões em audiovisual encantando gerações de admiradores da sétima arte. E agora, um cineasta excêntrico chamado Spike Jonze, que já dirigiu as loucuras cinematográficas Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002), encara o desafio de transpor para tela o clássico Onde Vivem os Monstros (2009) de Maurice Sendak. A bela metáfora de uma criança descobrindo seus aspectos negativos como raiva, ciúmes, ira e vingança cai como uma luva para adultos que desejam apreciar um belo filme de conotação fantasiosa e melancólica. Visualmente o longa traz muitas tomadas com a câmera nas mãos do diretor, correndo esbaforido para alcançar o sentimento dos atores e, principalmente, dos bonecos. Desde História sem Fim (1984) e da saga Star Wars não víamos no cinema bonecos de “pelo e arame” tão bem feitos. O elenco que dubla os monstrinhos peludos também surpreende, com nomes como Chris Cooper (oscarizado em 2003 por Adaptação do próprio Jonze), Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia – 2006), Paul Dano (Pequena Miss Sunshine – 2006) Catherine O’Hara (Esqueceram de Mim – 1990) e James Gandolfine (do seriado mafioso Família Soprano) dublando a criatura de maior destaque, o pequeno-grande-bi-polar Carol. A semelhança entre a personalidade do menino Max (Max Records) e Carol ultrapassam a simples conotação e adquirem ares de espelhagem interior, no sentido em que o que os olhos de um vêem, o coração do outro sente. Adultos, preparem os lenços e a mente para um mergulho em pequenos traumas de infância e só levem suas crianças ao cinema se elas forem sensíveis e imaginativas… No final das contas, esqueçam estes conselhos bobos, pois, qualquer um de coração leve e mente livre irá se emocionar em visitar, mesmo que por 100 minutos, seus monstros interiores.
Quem estiver acostumado com a sóbria narrativa literária com que Arthur Conan Doyle conduz suas personas nos livros de Sherlock Holmes, pode se preparar para uma revolução e modernização deste clássico detetive. O roteiro que conduz o primeiro filme da franquia (sim, o final dá margem para uma continuação) tem tudo que uma boa trama de aventura, mistério e suspense pede, menos obviedade. As pistas estão soltas no decorrer da história retratada em Sherlock Holmes (2009) para serem deduzidas e amarradas durante o clímax pelo investigador inglês. Mas a intelectualidade é apenas um charme vitoriano, junto com figurinos, direção de arte e ambientação do século retrasado. Os modernosos socos e sopapos típicos dos longas de Guy Ritchie, como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch – Porcos e Diamantes (2000) estão lá em belas câmeras lentas com exclusiva narração de Holmes para cada movimento a ser feito, como se a pancadaria também tivesse pistas à serem desvendadas, ou melhor, desafios à serem literalmente derrubados! Ângulos impensáveis, excelente trilha sonora de Hans Zimmer (responsável pelo som em Cavaleiro das Trevas – 2008) e elenco afiadíssimo formado por Robert Downey Jr. (Sherlock), Jude Law (Watson) e Rachel McAdams (Irene Adler) completam a obra que promete iniciar com o pé direito as grandes estréias de 2010. Um ótimo começo… E que venha Moriaty!
A Terra, o planeta que nos acolhe, grita por socorro. Ás vezes ela clama de forma violenta, derramando lágrimas de tempestades e soluços trovejados. Em outros tempos ela sorri ao desabrochar de orquídeas raras em faunas intocadas. Gaia, por fim, ainda tenta respirar, mesmo com suas montanhas gélidas derretendo a cada árvore que padece. E não adianta em nada os homens de poder se sentarem em suas mesas de madeira reflorestada e fazerem suas políticas, seja no Rio, Kyoto ou Copenhagen. Gaia ainda chora. Ainda bem que homens de coragem usam a sua inteligência criativa para chamar a atenção de quem ainda insiste em se alienar na falsa esperança de que a Natureza responderá por si só, ou através de avatares. Avatar (2009) custou caro: 400 milhões de dólares. Pense em todo carbono produzido por essa montanha de dinheiro. Agora pare, sinta e, principalmente, reflita. Os seres azuis designados como Na´vi e a lua de Pandora são apenas ralas metáforas da raça humana, construída com engenhosa e assombrosa tecnologia? Não. Os avatares são tão profundos quanto qualquer alma ou espírito. Há uma jornada do herói, isto é fato para qualquer roteiro épico (e viva Joseph Campbell!). Mas há majoritariamente VIDA e uma bela e visualmente poética (in)direta sobre a merda (!) que a raça humana anda fazendo com Gaia, a machucando profunda e cancerosamente. Vamos nos deixar sucumbir pela iminente crise ambiental ou esperar que um Jake, Lula ou Obama nos devolva a paz verde? Eu, particularmente, não prefiro esperar… Veja Avatar em Imax, 3D, 2D, E-mule ou Pirata. Se a bela e pura semente da vida não te tocar o mínimo que seja, então você não é filho de Gaia…

Sideways (2004) marcou o ano de seu lançamento como filme mais cult e aclamado do ano, mesmo tendo ganho apenas um Oscar, o de melhor roteiro adaptado. A alma do longa é Miles, personagem brilhantemente interpretado por Paul Giamatti, um cara tipicamente loser, escritor falido que tenta preencher sua vida com o pseudo-intelectualismo típico de quem aprecia um vinho pelo viés enólogico. Com uma bela fotografia emoldurada pelas paisagens da rota do vinho californiana, a força da trama está nos diálogos que transpassam a malandragem e são altamente pontuados por vinhos e todos os seus sub-gêneros. Em alguns momentos nos questionamos se queremos um final feliz, pois o mais sádico e divertido é justamente ver os protagonistas se ferrando a cada taça. Não há como conter o riso com os tropeços bêbados a cada tentativa de se darem bem. Em resumo, Sideways é uma crônica da modernidade em que os fracassos são entorpecidos por vícios idílicos, sejam ele drogas, bebidas ou a mera intelectualidade.
A era Obama do politicamente correto adere aos estúdios Disney, e já não era sem tempo. Depois de mais de 80 anos de existência, a grife número 1 de animação do mundo produz seu primeiro longa com uma protagonista negra. Tiana de A Princesa e O Sapo (2009) vêm incorporar o roll das princesas ao lado de Branca de Neve, Cinderela , Bela Adormecida, Bela, Ariel, entre outras. O longa, ambientado em New Orleans, mostra uma forte e batalhadora heroína que sonha abrir um restaurante, necessitando de dinheiro para tal. Em uma metáfora da busca e transformação comportamental, a protagonista se transforma em sapa e passa a conviver com seres do pantâno até poder quebrar o feitiço que a amaldiçoou. Em um retorno aos musicais Disney que foram deixados de lado pelos moldes modernos da Pixar, a trilha sonora traz muito jazz e folk, se tornando o grande êxito do longa. E quem está por trás destas canções é o compositor Randy Newman que faturou um Oscar de Canção Original pela animação Monstros S.A. (2001). O roteiro escorrega um pouco no óbvio da lição de moral, mas Ron Clements, que já dirigiu A Pequena Sereia (1989), Alladim (1992) e Hércules (1997) foi capaz de produz mais um clássico Disney. Cabe agora esperar os reflexos na bilheteria revelando que o público infantil pós-2000 acostumado com modernidade e tecnologia, irá se encantar por uma história romântica e clássica.

Depois de mais de 30 obras cinematográficas concebidas desde a década de 70, o diretor espanhol Pedro Almodóvar já passou pelas definições de subversivo, pornográfico, cult até se tornar um adjetivo: almodovariano! Depois de Volver (2006) em que deixou de lado muito das características polêmicas que o consagraram, o cineasta retoma em Abraços Partidos (2009) suas referências pessoais em uma bela homenagem ao cinema. Estão lá peitos, homossexuais, segredos, cores e Penélope Cruz, a cereja do bolo. Em certos aspectos o roteiro remete à trama de Tudo Sobre Minha Mãe (1999), mas quem guarda o segredo da história é o pai. Há a violência, obsessão e passionalidade. Mas, acima de tudo, há cinema, com uma história dentro da outra em uma típica metalinguagem almodovoriana. Visualmente e conceitualmente o longa está excelente, mas em seu roteiro há tropeços. Falta um clímax, ou mesmo anti-clímax e tudo fica solto no ar como se não tivesse importância e até a revelação de importantes segredos soam superficiais. Ausência de ousadia? Almodóvar pode sim estar ficando velho, contido. Porém isto não exime a criatividade que, com o tempo, deveriam florescer e não murchar.
Comodismo, pessimismo e auto-flagelismo. Os 3 “ismos” pilares de uma humanidade que às vezes insiste em andar em círculos, com um passo em falso sobre o outro. Este é o caso da personagem de Baby interpretada por uma Glória Pires à vontade no do longa É Proibido Fumar (2009) de Anna Muylaert, ganhador de 8 Candangos inclusive Melhor Filme no último Festival de Brasília.Baby é a figura da mulher cinquentona que vive solitária na metrópole do mundo. Em um apartamento herdado da mãe e cheia de samambaias ela sobrevive ensinando violão as mais inusitadas figuras. Sua bengala e apoio psicológico é o cigarro, único amigo\inimigo que parece compreendê-la e confortá-la. Até que surge Max (Paulo Miklos, sempre excelente), próximo candidato a preencher a existência de Baby num possível detrimento do cigarro. Os grandes trunfos de É Proibido Fumar passam pela fluidez do roteiro, a coesão narrativa e visual, a trilha sonora docemente embalada por violões e a fotografia que torna qualquer ângulo agradável ao olhar. Não é a toa a consagração em Brasília. Com conflitos universais, o filme fecha o ano de 2009 na cinematografia nacional com uma reflexão. Depois do sucesso estrondoso das comédias Se eu Fosse Você 2, A Mulher Invisível e Divã , uma obra finaliza este ano com uma irônica introspecção. Será a prévia de um 2010 que se iniciará com a melodramática biografia de Lula? É ano de eleição, hora de decisão e seriedade. Mas calma que têm Copa antes. E que venham as bombas norte-coreanas.






















