Começou como um web-hit na internet no qual o trailer propagado pelo YouTube mostrava cenas de luta bem concebidas e vôos do protagonista por paisagens exuberantes no melhor estilo O Tigre e o Dragão (2000). Mas desta vez o herói em questão não era Jet Li ou Jackie Chan, as lutas não pertenciam a qualquer uma das artes marciais orientais e as paisagens não possuíam bambus em sua flora. Na tela despontava, ou melhor, voava Besouro, herói afro-brasileiro, exímio capoeirista, único esporte legitimamente nacional, que saltava pelas formações rochosas da belíssima Chapada Diamantina. De hit, virou a grande promessa de um filme de ação brazuca. E garanto que não é só de promessas que é feito Besouro (2009). João Daniel Tikhomiroff, renomado diretor publicitário em seu primeiro longa-metragem, tratou o projeto com muita gana e carinho e o resultado final de sua lente é espetacular. Há ângulos de câmera impensáveis, como a filmagem invertida dentro de um espelho d´água, ou o passeio ótico sob a visão de um sapo saltitando ou de um besouro voando. Na fotografia de Besouro, Tikhomiroff não soube só se aproveitar de belas paisagens e de uma direção de arte que reconstituí de forma perfeita o Recôncavo Baiano no início do século passado, seja em cenários ou nas roupas. O diretor criou com sua câmera uma linguagem totalmente particular para contar esta história com muito sucesso. Tikhomiroff recebeu diversas críticas negativas sobre a edição e o roteiro do filme. Mas novamente entra em cena a particularidade de uma escolha de linguagem para caber naquela narrativa, que lembra muito a de uma história em quadrinhos, algo que casa totalmente quando se quer tratar de atos de heroísmo. Outro ponto forte do filme são os aspectos religiosos, com uma bela concepção das representações religiosas do Candomblé sem maniqueísmos e com cuidadoso tratamento de figurino e maquiagem. E para fechar, a trilha sonora embala tudo com toques do mais moderno gingado. A meu ver o único aspecto que poderia ter sido melhor tratado no filme é a direção de atores, que em certos momentos necessitavam traduzir mais espontaneidade. Ao final das contas, mais do que um orgulho nacionalista, ver Besouro nos leva a refletir o quanto certas mudanças no comportamento de nossa sociedade depende de atos de heroísmo, ou da simples tolerância e respeito em aceitar o outro, o diferente.
No florescer da sétima arte um cineasta ousou. Seu nome era D.W. Griffith e sua obra O Nascimento de Uma Nação (1915). Mais do que um marco em técnicas cinematográficas, o longa trouxe uma carga racista tão forte que foi capaz de reavivar depois de anos o movimento da Ku Klux Klan. Anos depois, numa tentativa de mea culpa, Griffith produziu o grandioso Intolerância (1916) sobre o preconceito por diversos períodos da humanidade. Não seria o primeiro nem o último filme sobre o tema. Pela história do cinema passaram diversas obras que debatem esta intolerância total pelo diferente que infelizmente parece tão intrínseco em alguns homens, como O Sol É Para Todos (1962), A Cor Púrpura (1985), Mississipi em Chamas (1988), Amistad (1997), Philadelphia (1993), A Outra História Americana (1998), Crash (2004). E este ano, por um mero acaso do destino, ou sorte/azar na tentativa de produzir um vídeo-game, Peter Jackson proporcionou às platéias cinéfilas umas das melhores discussões sobre o assunto, com o diferencial de apresentar ares de ficção científica e documentário. Distrito 9 (2009) mostra de forma realista que a chegada dos aliens a terra não foi feita de forma pacífica para eles. E não estou falando de qualquer retaliação nos moldes americanóides mostrados em filmes do gênero de Independence Day (1997). A nave-mãe aterriza no coração periférico de Johanesburgo, África do Sul, local historicamente conhecido pelo regime segregatório do apartheid. As autoridades, sem saber o que fazer com a população alien, a isola no tal Distrito 9. A sociedade, temerosa do comportamento das criaturas, não suporta sua presença, a não ser aqueles que conseguem algum ganho financeiro e exploratório com estes. E no meio de interesses armamentistas e tecnológicos aparece a MNU, que passa a ser responsável pelo local. A área se transforma então numa verdadeira favela alien onde vemos cenas semelhantes ao que se mostra em Tropa de Elite (2007) e Cidade de Deus (2002), isto para ficar apenas em longas que retratam a nossa periferia. Mas o grande destaque do longa é o humano Wikus Van De Merwe (o excelente Sharlto Copley) que sofrerá na pele, em momentos que remetem ao filme A Mosca (1986), o que é ser discriminado, usado e descartado. Mais do que uma metáfora do preconceito racial, Distrito 9 nos trás sensações viscerais da desumanidade que estamos vivendo de forma explícita na sociedade moderna. E não precisa de nenhuma nave alienígena para se dar conta disso. Basta olhar para tudo que há de humano ao seu redor. E sem alienações.
Esqueça os livros de história e toda e qualquer obra, seja ela fílmica, literária ou cinematográfica que retrate os impactos da 2ª Guerra Mundial na história da humanidade. Ao entrar na sessão de Bastardos Inglórios (2009) você estará adentrando a mente de Quentin Tarantino e todas as suas referências pop, trash e undergrounds que já vimos nos seus tão famosos longas, como Cães de Aluguel (1992), Pulp Ficton (1994), Jackie Brown (1997) e Kill Bill (2003-2004). Estão lá em Bastardos a violência exarcebada, porém esteticamente bela para o contexto; o diálogo de amenidades, com leite no lugar de hambúrgueres; interpretações caricatas e na medida certa, com destaque para o bastardo Aldo Raine (Brad Pitt – será que finalmente sai um Oscar ?) e o nazista Hans Landa (Christoph Waltz – premiado em Cannes como melhor ator pelo papel). Mas todos os personagens e todo o pseudo-contexto-histórico tem uma única motivação: mostrar a grotesca faceta que nos leva a nos vingarmos e mostrarmos uma raiva extrema nessa vingança. O tema já havia sido mostrado por Tarantino nos 2 volumes de Kill Bill. Nele o foco é uma noiva que mata tudo e todos a sua frente para vingar o massacre a que foi imposta e o fato de terem tirado do seu ventre sua amada filha. Em Bastardo, a vingança está numa emanharada trama onde interesses individuais e coletivos se sobrepõe. Por mais que alianças e tratos sejam feitos, há uma clara sensação que todos estão impondo sua razão e querendo acabar com tudo que lhe traumatizou e incomodou. Seja o Führer com suas razões já conhecidas e estudadas por biógrafos de Hitler, ou a bela projetista judia que quer incendiar em uma sessão de cinema a todos os nazistas que fizeram sua família e semelhantes sofrerem. O que resta ao final de bastardos inglórios são estes sentimentos primitivos movidos pelo nosso ódio contra o que nos fez mal um dia. A parte desta bela teia psicológica montada, o fato de vermos vários lugares-comuns de filmes do Tarantino hora me incomodou e hora me fez sentir feliz de estar vendo mais uma obra de um diretor que, confesso, muito admiro. Ver os letreiros amarelos introduzindo personagens e as músicas peculiares que só Tarantino desenterra foi maravilhoso. Mas a repetição de algumas músicas que também foram usadas na trilha sonora em outra obra, no caso Kill Bill, me fez questionar o vício criativo do cineasta. Quentin tem tudo que um diretor precisa fazer para um bom filme como o aval de ter produzido obras totalmente autorais e peculiares ao seu gosto e referências. Só fica o cuidado e desejo que ele não caia no lugar-comum de se auto-repetir, como por pouco não ocorreu em Bastardos Inglórios, e aproveite o que sabe para se superar e nos surpreender como público, admiradores, críticos e cinéfilos.
Depois de dirigir o épico Guerra de Canudos (1997) e as biografias de ícones da história do país como Lamarca (1994), Mauá – O Imperador e o Rei (1999) e Zuzu Angel (2006) o cineasta carioca Sergio Resende opta por apresentar em seu novo filme, Salve Geral (2009), os bastidores de uma organização criminosa que em Maio de 2006 conseguiu paralisar a maior cidade do país levando-a ao caos e o medo. A organização em questão é o Primeiro Comando da Capital, ou PCC, que preconiza a Paz, Justiça e Liberdade pelos direitos dos presos que não são cumpridos pelo Estado, ao os expor em condições sub-humanas amontoados em instalações precárias enquanto as famílias dos condenados estão desamparadas. Para explicar a estrutura do PCC e as motivações envolvidas durante os ataques no Dia das Mães de 2006 a trama parte da personagem de Lúcia (Andrea Beltrão), uma professora de piano recém viúva que tem o filho Rafael (Lee Thalor) preso após a morte de jovem em um incidente durante um racha. Durante uma das visitas, a mãe conhece Ruiva (Denise Weinberg), advogada de um dos líderes da facção. Toda trama do filme se desenvolve pela visão desta mãe e do envolvimento dela com o PCC para garantir a sobrevivência do filho dentro dos muros da prisão. E com a entrada dela neste universo compreende-se como o Comando se estrutura, sua fonte de renda, regras, líderes e ideais, bem como o envolvimento com tráfico, negociação com policias, carcereiros, políticos entre outras figuras que permeiam a organização. Na gíria dos presos a expressão Salve Geral é a voz de comando para que se inicie uma rebelião no local, mas que naquele Maio de 2006 significou um envolvimento de todos do Comando para que se valesse ouvir seus direitos perante o poder público de uma forma violenta e caótica. O longa de Sérgio Resende merece elogios pela boa produção nas cenas de ação e por manter a todo instante a tensão do que acontecerá no momento seguinte, mesmo que já se saiba a resolução final do fato. Além disso, o filme possui o mérito de conduzir o espectador ao mergulho no quebra-cabeça dos jogos de poder e crime que é parte intrínseca de uma das camadas da sociedade brasileira, mesmo que boa parte dela não a queira enxergar ou tem uma visão errônea de toda a rotina de um preso e sua família.
Nelson Pereira dos Santos figura dentro da história do cinema nacional como um dos maiores cineastas de nosso país. Dirigiu mais de 20 filmes, dentre eles Mandacaru Vermelho (1961), Vidas secas (1963), O Amuleto de Ogum (1974), Na Estrada da Vida (1980), Memórias do Cárcere (1984) e Brasília 18% (2006), sua mais recente obra. Foi agraciado com diversos prêmios nacionais e internacionais, fundou a graduação de Cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras no ano de 2006 com a honra de ser o primeiro cineasta a alcançar este feito.Nelson é oriundo de família italiana, nasceu no bairro do Brás e foi criado no Bixiga. Mesmo formado em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco, o cinema sempre lhe despertou paixão e interesse ao freqüentar diversos cineclubes da cidade. Acabou escolhendo o Rio de Janeiro como lar e foi lá que, após ser assistente de direção dos diretores cariocas Paulo Wanderley e Alex Viany, filmou o seu primeiro longa Rio 40 Graus (1955) considerado precursor do movimento do Cinema Novo no país. O embrião do Cinema Novo se iniciou quando alguns cineastas e intelectuais se inquietaram com o fato de que os filmes produzidos no Brasil não debatiam questões sociais importantes para o momento. Além disso, os incomodava que boa parte das produções nacionais estavam ligadas a tentativa de elaborar algo glamurizado e hollywoodiano, o que seria oposto a realidade do país. Com Rio 40 Graus, Nelson fez uma obra que respondia essa inquietação ao apresentar personagens de várias classes e interagindo em diversas situações que transmitiam uma amostra da realidade social daquele período. A parti daí as bases do Cinema Novo foram se alicerçando nas premissas de que o filme deveria ser feito com baixo orçamento, com idéias simples de roteiro, usando pouco recursos fílmicos, porém criativos, e com temática ligada ao subdesenvolvimento. Além destes aspectos que despontaram no movimento do Cinema Novo, Rio 40 Graus possui uma forte veia documental ao apresentar o recorte do cotidiano de vários tipos próprios do Rio de Janeiro em um domingo de sol escaldante. A trama parte de um grupo de crianças moradoras do morro do Cabuçu que seguem pelos principais pontos turísticos da cidade vendendo amendoins. Estão presentes como cenário o Jardim Botânico, a praia de Copacabana, o Aeroporto do Galeão, o estádio do Maracanã, o bondinho do Corcovado e o Cristo Redentor. À medida que cada uma das crianças dispersa por estes locais nos encontramos com outras personalidades que se esbarram pelo dia-a-dia carioca: bons-vivants, guardas, marinheiros, aeromoças, apostadores, torcedores, jogadores, cartolas, fotógrafos, repórteres, políticos, sambistas, gringos, turistas. O interessante é notar que apesar da obra ter mais de 50 anos e ser contextualizada por expressões, hábitos, costumes e figurinos usuais à época, a câmera consegue transmitir conflitos que estão presentes no nosso cotidiano até hoje, seja pela universalidade da situação, como a moça que fica grávida e precisa de uma figura paterna para cuidar do seu filho, ou pela incapacidade do tempo em transformar um erro em acerto, como na situação dos cartolas que dominam o passe de jogadores tratados como mera mercadoria futebolística. Ao final das contas assistir Rio 40 Graus transmite a sensação de que revisitamos o passado de nosso país deslumbrando erros que nossa sociedade ainda não conseguiu corrigir, ou que estamos caminhando muito devagar para conseguir transformar.
O novo longa dos estúdios Disney/Pixar já carrega no seu subtítulo em português o tom de ação que a trama terá: UP – Altas Aventuras (2009). A promessa de que você verá em tela grande muitas cenas de perseguição, tensão, suspense e boa dose de adrenalina será devidamente cumprida. E tudo isto está lá, aliás muito bem concebido como todos os filmes da Pixar o são nos cuidados em cada detalhe do roteiro. Mas UP, acima de tudo, é uma história de amor, de sonhos frustrados e na busca incessante por realizá-los. No começo conhecemos dois pequenos sonhadores aventureiros que são uma menina ruiva e faladeira chamada Ellie e um menino gordo e introspectivo chamado Carl. Ellie compartilha com ele o segredo que um dia irá até a América do Sul para conhecer e viver ao lado das Cachoeiras do Paraíso. Em um corte temporal já vemos os dois personagens jovens e se casando e a partir daí temos a sequência mais bela e delicada que já vi em um filme, aquela em que para mim foi mais difícil segurar as lágrimas (você poderá vê-la no vídeo abaixo). Com apenas uma música incidental de fundo, vemos toda a história do casal se desenrolando, desde a compra da casa, a gravidez, o trabalho, o companheirismo e acima de tudo um resumo de quanto o dia-a-dia atribulado e vários pequenos incidentes fizessem com que o casal adiasse o sonho de conhecer as cachoeiras. Quando finalmente Carl compra duas singelas passagens para a Venezuela, sua companheira Ellie o deixa. Com isso é o velho e ranzinza Carl Fredricksen que domina a trama, com toda sua introspecção e solidão transformada em rabugice. Porém, por um acidente que pode o levar ao tão temível asilo, Carl decide embarcar na aventura de sua vida e quem o acompanha, mesmo sem querer, é o pequeno Russell, um garoto prestativo que se auto-denomina explorador da natureza mas que aparentemente nunca saiu do condomínio urbano em que vive. A partir daí temos toda a aventura que descrevi no início do post, com direito a um vilão com complexo de Moby Dick, Charles Muntz, que se tornou amargo e obcecado em capturar um espécime de ave na região da América do Sul que o velho e o garoto vão parar. Novamente enfatizo que qualidades técnicas não faltam nas animações da Pixar, mas o que mais as engrandecem são os roteiros sensíveis que tocam o público no sentimento certo, seja através de um peixe perdido em Procurando Nemo (2003), um rato que quer se tornar chefe de cozinha em Ratatouille (2007) ou a determinação de um pequeno e frágil robô em Wall-E (2008). Todas estas histórias possuem um personagem em busca de um sonho, de uma transformação na vida. A diferença é que em UP isso toca ainda mais fundo pelo protagonista ser um humano como nós, com todas as frustrações e amarguras que carregamos. E como eu disse no começo, UP é uma história de amor e é de derramar lágrimas vermos Carl seguir sua jornada sem nunca abandonar o amor de Ellie, sempre conversando com ela através da casa, das fotos, dos objetos. A resolução, vocês já devem imaginar, mas o que vêm depois dela que é mais emotivo e sensível para os personagens e nós, espectadores. Quero finalizar dizendo que escrevo esse post 3 semanas após o lançamento do filme no país, então é provável que alguns de vocês já o tenham visto. Para estes, peço que deixem nos comentários o quanto o filme os tocou e porque. E para os que ainda não o viram espero ter convencido e sensibilizado para que não percam a oportunidade de ver essa jornada de aventura e transformação.
Em março deste ano estreou nos cinemas brasileiros a primeira parte da saga do cineasta norte-americano Steven Soderbergh sobre o ícone comunista Ernesto Che Guevara denominado Che – Parte 1: O Argentino (2008). E hoje, depois de 6 meses de um vácuo que só se explica comercialmente, estréia Che – Parte 2: A Guerrilha (2008) explicitamente como uma ponta solta da primeira história que, enfatizo, deveria ter sido mantida como uma obra única.Neste capítulo, dois rostos novos no elenco me chamaram a atenção. O primeiro foi a da atriz Franka Potente, do clássico undergrond Corra Lola Corra (1998) e do blockbuster A Identidade Bourne (2002) interpretando a guerrilheira Tânia. E o outro foi o de Lou Diamond Phillips que ficou famoso nos anos 80 interpretando o cantor de fama meteórica Ritchie Valens em La Bamba (1987). Mas quem continua lá como absoluta alma do filme é Benicio Del Toro interpretando Che. Esteticamente há diferenças nítidas entre a primeira e a segunda parte. A primeira é muito mais a-linear, intercalando cenas preto e branco e coloridas, buscando construir dentro da trama o mito que Che se tornou. Já a segunda parte se mostra mais lenta, tradicional e linear, sem grandes recortes temporais e uma fotografia mais uniforme, que serve para justificar tanto o amadurecimento do homem Che em termos de idade como pela dissolução de sua fama e ideais já terem sido espalhados por toda América Latina naquele momento. Novamente vemos uma guerrilha sendo montada, agora no interior da Bolívia, e mesmo as táticas de avanço sobre o inimigo mostram uma aparente maturidade. Uma das incongruências entre os personagens centrais no desfecho de Che Parte 1 é evidenciado pela diferença no momento em que Fidel e Che estão vivendo no filme 2: enquanto Che está lá, no campo de batalha continuando a luta por justiça social, Fidel é mostrado em uma breve cena como um estadista confortável em seu cargo , durante uma festa de luxo em que ele está bem vestido e conversando alegre e despretensiosamente com duas belas moças sobre o segredo de se preparar um bom mojito. Outras cenas também fazem com que se compreenda a nova visão de Che agora na luta boliviana. Se antes ele não aceitava homens muito jovens, agora ele aceita de bom grado um menino de 16 anos no moviemento. O seu discurso de convocação perante os combatente bolivianos é o mesmo perante os cubanos, com a realidade de que muitos morrerão, passarão privações e fome. Mas na primeira parte ele era feito de forma acalorada e nesta segunda ele tem um tom de alguém mais velho e cansado. Aumentando o clima de derrocada, em diversos momentos o grupo se mostra desunido perante coisas banais como latas de leite condensado. Se os cubanos eram motivados e a população campesina apoiava os guerrilheiros, neste os bolivianos se mostram dispersos e com camponeses mais desconfiados e propensos a manipulações dos membros do exército de entregarem os guerrilheiros. Aos poucos o cansaço, a desunião, as doenças e denúncias vão abatendo tanto o grupo como Che, que tem sua asma atacando novamente, seu burro de carga que não quer prosseguir caminho, e a malária que o deixa ainda mais abatido. E na outra ponta o exército boliviano como vilão maniqueísta que com a ajuda pontual da inteligência americana, seja em pistas ou em equipamentos, vai se aproximando de Che rumo a sua derradeira captura, execução e exibição, tal qual qualquer livro de história relata. Tem-se então neste capítulo final um grande ícone, que apesar de sua grandeza ideológica, se enfraquecendo e padece rumo a morte física. Soderbergh optou por encerrar seu longa com a decadência do homem, sem deixar muito claro o quanto o mito ainda sobrevive. Ou talvez a avaliação esteja desconexa pelo intervalo de metade de um ano em que ocorreu o lançamento de cada uma das partes. Fica o pensamento: Obras únicas não se dilaceram e mitos, mesmo que humanos, sempre estarão vivos no imaginário coletivo de todos.
Polêmico e contraditório, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier sempre utilizou métodos pouco ortodoxos durante a concepção de suas obras cinematográficas. Seja respeitando as características minimalistas estabelecidas pelo Dogma 95 (movimento criado por ele e hoje desaparecido) ou pela direção de atores “terrorista” que traumatizou grandes estrelas hollywoodianas do porte de Nicole Kidman ao ponto de nunca mais aceitarem trabalhar sobre a tutela de Trier. Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003) são seus trabalhos de maior destaque junto ao grande público. No primeiro, Trier soube extrair da exótica cantora islandesa Björk uma interpretação forte e marcante. No segundo, chocou público e crítica ao se utilizar de uma linguagem limpa e teatral para relatar sua visão irônica de como o país mais imperialista da atualidade, os Estados Unidos da América, é uma terra de cruéis oportunidades. Nos últimos 2 anos, o diretor passou por uma forte crise depressiva e como válvula de escape de suas tristezas jogou na tela do Festival de Cannes o resultado final de sua paranóia: Anticristo (2009). Dividido entre vaias e aplausos, o longa chega agora no Brasil causando o mesmo estrago de choque e incompreensão entre cinéfilos e críticos de cinema. A sinopse do filme é a de um casal que, durante um fervoroso ato sexual, não percebe que seu pequeno bebê está caminhando em direção a janela, em direção a morte. Após o enterro, a mãe cai em profunda depressão e o marido, psicanalista profissional, resolve utilizar seus próprios métodos para curar a esposa, algo que qualquer profissional da área condenaria, pois a ética básica de muitos terapeutas é manter o distanciamento familiar e emocional. A técnica que o marido resolve utilizar é a de conduzir sua esposa para a cabana da família no meio da floresta chamada Éden, onde ele nutre a esperança de que irá curá-la de seus traumas.Os personagens não têm nome, são designados apenas como Ele e Ela. Ele é encarnado por Williem Dafoe, um ator que sempre se mostrou acima da média em suas interpretações, mesmo como “vilãozinho de quinta categoria” em blockbusters do naipe de Velocidade Máxima 2 (1997). Ela é Charlotte Gainsbourg atriz inglesa que atuou no excelente Não Estou Lá (2007) e que depois de Anticristo entrou na minha lista particular de “atrizes corajosas” graças a entrega explícita de sua personagem, a exposição máxima a que é submetida e a competência arrepiante de sua interpretação. Não é a toa que foi agraciada como melhor atriz pelo papel em Cannes, apesar de toda vaia à obra de Trier como um todo, especialmente na cena em que uma raposa de computação gráfica profetisa a frase “O Caos Reina”. Apesar da comicidade em se ver este pequeno canídeo tagarelando, ele possui sua importância simbólica dentro do filme. A raposa representa as contradições inerentes do ser humano em sentimentos de Independência/Comodidade, Passividade/Destruição, Medo/Audácia, todas características de comportamento oscilante que os personagens de Ele e Ela esboçam durante todo o filme. Há também outras simbologias distribuídas pela trama que ajudam a justificar o desenrolar do enredo. A ponte que Ela é obrigada a transpassar para se livrar de seus traumas representa a passagem do mundo sensível ao mundo ultra-sensível ou, no caso, a passagem de seu estado de letargia depressiva para a agitação psicótica. Para provar esse desvio de um estado a outro, em determinado momento do longa Ela usa uma roupa amarela contrastando com azul. O amarelo representa seu estado de intensidade e violência, enquanto o azul simboliza o vazio e o frio. Em outra cena um gavião passa voando sobre diversas samambaias. A samambaia, típica de ambientes úmidos, também está associada à transformação. Já o gavião é um animal cuja fêmea é mais forte que o macho, representando casais em que a mulher domina a relação. E é a partir daí que vemos a reviravolta na trama. Se antes Ele a tentava dominar com seus métodos de psicanálise, Ela que passa a comandar a situação ao torturá-lo de uma forma que faria inveja ao Jigsaw de Jogos Mortais (2004). Ao final, Ela se torna uma bruxa que Ele precisa queimar para que seus traumas e medos acabem. Feito isso, Ele deslumbra as figuras da Raposa, do Corvo, do Cervo: Contradição, Morte, Renascimento. Fim da história. Se concordarmos que tudo o que passou na tela durante a exibição de Anticristo é uma metáfora explícita do processo depressivo de Lars Von Trier, podemos concluir que o longa nada mais é do que a condução do espectador a estados depressivos, se utilizando de simbologias e da linguagem cinematográfica dominada pelo diretor. E se a vontade de Trier era ser provocativo ao ponto de incomodar a todos que vissem o filme, seja pelo baque, espanto ou nojo e explicitar todo o processo depressivo vivido, então sim, o diretor conseguiu o que queria. Nota máxima para o longa, mesmo com a raposa tagarela.
Em algum momento o escritor Paulo Coelho transitou em nossas vidas, fosse para admirarmos suas obras de auto-ajuda que conseguem ser bem vendidas nos quatro cantos do mundo, ou achincalhar o fato de, apesar da escrita mediana, o autor compõe a Academia Brasileira de Letras, mas especificamente a cadeira de número 21. Minha fase Paulo Coelho ocorreu nos meados da adolescência quando li Veronika Decide Morrer e O Dêmonio e a Senhorita Prym. Deste último, pouco lembro a trama. Veronika, ao contrário, foi mais marcante, especialmente pelo fato de que o livro, que pertencia a um amigo, rodou pelas mãos de quase todos da turma. O boca-a-boca foi tão grande que todos queriam ler sobre a suicida. Não sei qual seria a minha reação ao ler o livro hoje, mais de 10 anos depois da primeira leitura. Porém, confesso que me enchi de curiosidade logo nos primeiros trailers do filme Veronika Decide Morrer (2009) da diretora britânica Emily Young, primeira adaptação de uma obra de Paulo Coelho para a tela grande . O filme possui alguns rostos familiares no elenco, como David Thewlis que interpreta o psiquiatra do sanatório em que a personagem central é internada. David ficou conhecido por interpretar o personagem de Remo Lupin nos longas de Harry Potter e, por conta disto, foi difícil enxergá-lo em outro papel. Outra interpretação de destaque foi a de Melissa Leo, uma atriz de grande competência que só ficou conhecida do grande público este ano ao ser indicada ao Oscar por Rio Congelado (2008). E quanto a protagonista Veronika? Inicialmente quem ficaria com o papel seria Kate Bosworth, a Louis Lane de Superman – O Retorno (2006). Por motivos obscuros ela desistiu da empreitada e Sarah Michelle Gellar, a eterna caça-vampiros Buffy, assumiu o papel, uma escolha aparentemente mais acertada. Sarah com 32 anos está longe de ainda querer interpretar “menininhas”e por isso mesmo é claro o esforço dela em querer encarar um papel mais forte e polêmico. E, apesar de não se deixar aprofundar pela trama em alguns momentos, Sarah me surpreendeu ao passar de forma competente pela cena mais difícil do filme. Não, não é a do suicídio inicial e sim quando ela toca piano e se masturba para um esquizofrênico. Tudo bem que os ângulos de câmera conseguiram esconder boa parte da eroticidade exigida, mesmo assim a atriz saiu aparentemente ilesa do constrangimento. Em resumo,o longa Veronika Decide Morrer acaba sendo “lugar-comum”, não pela mensagem obviamente otimista no final, mas por conseguir nos tocar e levar as lágrimas mesmo em nossa superficialidade.
De Junho de 2001 a Outubro de 2003 a mini-série Os Normais foi um marco na TV Brasileira pós-anos 2000 com tiradas sacadas e desbocadas do casal ficcional Rui (Luis Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres). Não há casal na vida real que não se identifique com todos os percalços no relacionamento deles com a maneira tão peculiar e desbocada que eles tratam de sexo, dividir o apartamento ou contas a pagar. Essa química pode-se explicar por um interessante ponto, pois os roteiros do programa foram justamente elaborados por um casal, o roteirista e escritor Alexandre Machado e Fernanda Young, hoje apresentadora do Irritando Fernanda Young no canal pago GNT. O primeiro longa oriundo da franquia foi lançado em Outubro de 2003, logo após do final da série. Intitulada Os Normais -- O Filme (2003), apresentava ao público um “filme-de-origem” ao expor em sua trama os percalços que fizeram com que Vani e Rui se conhecessem. E hoje, depois de 6 anos de lacuna, estréia em grande circuito Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas (2009). Desta vez vemos como o casal passa pela crise dos 13 anos juntos, procurando das mais diversas formas como reacender a chama da rotina do relacionamento, bem a maneira do casal. A questão é que o filme parece de certa forma muito over em vários aspectos, seja a personagem de Vani excessivamente histérica ou Rui por de mais apagado. Há momentos bons, com gags semelhantes a da série. Mas, particularmente falando, não consigo mais rir com piadas que envolvam um animal quase em extinção e um comentário preconceituoso. Em dado momento do filme o casal se vê com uma preguiça em mãos. Detalhe que a preguiça insiste em fazer um determinado “barulinho” sendo que na vida real este doce mamífero da ordem Xenarthra não emite qualquer som. Pois bem, a preguiça aparece e o frame da cena é cortada para exibir os dizeres em tela preta e letras brancas: “Sabe o que resulta o cruzamento de um bicho-preguiça com um humano? Um baiano de colete.” Você riu aí do outro lado? Pois eu não… saudades de humor inteligente!




















