Um dos filmes mais badalados do ano passado foi Gomorra (2008) baseado no livro do jornalista siciliano Roberto Saviano. Longe de desmerecer o trabalho do diretor Matteo Garrone, o livro é de longe bem mais interessante principalmente por revelar uma verdade nua e crua da máfia italiana: se você pensa que o que vê nos filmes é inspirado no que acontece nos gangsters de verdade, está muito enganado. Pelo contrário, tudo aquilo que este gênero de filme mostra, como que acometidos por um grande senso de modismo, os criminosos passam a imitar. Alguns exemplos são bem interessantes, como os casos em que o grande culpado de inspiração foi o cineasta Quentin Tarantino. A maioria das guarda-costas de chefonas passaram a se vestir de amarelo queimado e pintar o cabelo de loiro depois que A Noiva interpretada por Uma Thurman em Kill Bill – vol 1 (2003) o fez. Um médico legista reclama das autópsias que precisa fazer, pois após o lançamento de Pulp Fiction (1994) os executores, ao atirar com a arma “de lado”, imitando Vincent (John Travolta) e Jules (Samuel L. Jackson) estavam mais dilacerando os corpos do que sendo letais. Mas o grande exemplo certamente foi o dado por O Poderoso Chefão (1972), o pai – ou seria padrinho?!- de todos os filmes de máfia. Mario Puzo ao criar o livro, e depois o roteiro, inventou o termo Padrinho para designar o chefe dos chefes no alto escalão dos sindicatos de mafiosos. O título original é inclusive Godfather, padrinho em inglês. Mas este termo é totalmente ficcional, nunca nenhuma máfia italiana o utilizou. Porém, depois do estrondoso sucesso da obra-prima de Francis Ford Coppola os criminosos sicilianos aderiram ao termo em um grande exemplo de vida imitando arte. E dentro da História do Cinema O Poderoso Chefão soube transpassar como nenhum outro a imposição de classificação em apenas um gênero, pois se for assim, ele é um filme que mistura praticamente tudo: drama, comédia, romance, suspense, policial… de uma forma unicamente bem cuidada. E finalizo deixando registrado o grande assombro do filme, claro, o próprio padrinho Don Corleone encarnado espiritualmente por Marlon Brando. Para quem possui qualquer pretensão nas artes dramáticas, este verdadeiro mito soube como ninguém aplicar o mais que conhecido Método de Stanislavski. E muito além disso, possui um dom de encarnar o outro mais do que simplesmente divino!
Quando nos propomos a assistir uma obra cinematográfica nós fazemos a nossa parte: sentamos na cadeira do cinema ou no sofá da sala e prestamos atenção no que esta sendo apresentado. Em contrapartida, o filme precisa fazer a parte dele: nos convencer, cativar ou comprar (não no sentido capitalista) para que a relação seja no mínimo justa e interessante. E falando de forma passional, não sei se foi a semana estressante, mas hoje fui ao cinema para puramente relaxar a mente. Até tinha comprado ingresso para ver À Deriva (2009) do brasileiro Heitor Dhalia. Porém minha mente insistia em afirmar que hoje não era o dia certo para vê-lo. Foi quando me deparei com o cartaz de A Vida Secreta das Abelhas (2008) e certa de que o elenco norte-america me faria ver um filme de roteiro “fácil de entender”, tipicamente hollywoodiano, foi o que me fez trocar o ingresso. Que bom que eu estava enganada, pois logo na primeira cena vemos a pequena protagonista aos 4 anos atirando e matando a própria mãe. Nada leve, não? Sendo assim, vemos o desenrolar do drama da adolescente Lily (Dakota Fanning enfim madura) fugindo com sua tutora Rosaleen (Jennifer Hudson justificando o Oscar de atriz co-adjuvante) em busca das origens de sua mãe, já que seu pai (Paul Bettany sempre competente) apenas sabe repreende-la e castigá-la. O destino a faz encontrar 3 irmãs com nomes de meses que possuem um apiário: August (Queen Latifah cativante), May (Sophie Okonedo uma revelação) e June (Alicia Keys tentando bancar a durona). O resto da trama não cabe revelar, só cabe acrescentar o contexto histórico do filme: A recém aprovação dos direitos igualitários entre negros e brancos, algo que soa tão paradoxal na Era-Obama. Portanto me senti muito plena ao ver esta obra tão bem cuidada pela diretora Gina Prince-Bythewood, um verdadeiro mel roxo.
Depois de duas incursões totalmente ficcionais no cinema com Por Trás do Pano (1999) e Cristina Quer Casar (2003), o diretor Luiz Villaça parte para um novo projeto: transpor para a grande tela a vida de Roberto Carlos Ramos no longa O Contador de Histórias (2009). O resultado é um filme tocante e honesto que soube equilibrar humor e drama na história difícil e sofrida de Roberto. Ao contar sua própria vida, o protagonista deixa claro que o que se passa na tela é o que ele viveu ou uma interpretação do que ele viveu, portanto, o público pode se preparar para cenas de fantasia infantil que o personagem vivia, ponto alto de cominicidade na trama. Já as partes ultra-realista são mesmo chocantes, e não é para menos pois menino foi logo aos 6 anos enviado a FEBEM por uma escolha ingênua e inocente de sua pobre mãe, que possuía mais de meia dúzia de filhos para alimentar com o seu trabalho como lavadeira na periferia de Belo Horizonte. Fugindo várias vezes da instituição, Roberto tinha tudo para ser o típico marginal que já vimos em filmes como Cidade de Deus (2002) de Fernando Meirelles ou Última Parada: 174 (2008) de Bruno Barreto. Mas por um golpe de sorte ou destino, o pequeno delinqüente conhece a pedagoga francesa Margherit, que acredita em sua recuperação e se empenha em educar o menino encantada pelo dom que o pequeno tem em contar de histórias. Longe de ser clichê ou melodramático O Contador de Histórias nos faz ri e ao mesmo tempo toca no ponto esperança, de que não podemos taxar preconceituosamente ninguém de irrecuperável, que todos possuímos chances, basta encontrá-las ou serem encontrados por ela.
Depois de longas trash B do naipe de Rejeitados pelo Diabo (2005), o metaleiro Rob Zombie resolveu se aventurar de vez pelos filmes de terror “clássicos”. Para isso nada como ressuscitar uma grande franquia como o caso de Halloween (2007) embalado sobre milhares de “filmes de origem” que se encontram atualmente em voga. Na década de 70 o primeiro longa Halloween (1978), dirigido por John Carpenter fez escola, lançou a atriz Jamie Lee Curtis ao estrelato e serviu de base para mais de meia dúzia de filmes que procuram relatar a saga do homem por trás da máscara e assassino indestrutível sob qualquer bala de Magnum 357 Michael Myers. O problema é que além de chegar com 2 anos de atraso, a versão exibida no Brasil está mais amputada do que membro capado pelo facão de Myers. Basta conferir no trailer abaixo e depois o longa em circuito e perceber quantas cenas, as de violência pura e genuína, foram deliberadamente cortados pela distribuidora para que o filme coubesse na censura de 14 anos e não chocasse o público tupiniquim. No mínimo absurdo! Fica ainda outro absurdo: como o cultuado ator Malcolm McDowell que um dia sob a câmera de Kubric encarnou Alex de Laranja Mecânica (1971) pode se prestar a um papel tão chinfrim. É mesmo fim de carreira…
Em meados da década de 20 o cineasta soviético Sergei Eisenstein foi marcante e inovador em diversos momentos do filme O Encouraçado Potemkin (1925), especialmente na cena do massacre de civis na escadaria de Odessa. Mais de 60 anos depois, o diretor norte-americano Brian De Palma iria se inspirar no russo para elaborar outra cena que marcou o cinema hollywoodiano, no caso aquela protagonizada por diversos gângsters, um carrinho com um bebê e sua mãe na Railway Station no longa Os Intocáveis (1987). (O resultado pode ser visto no link abaixo) Este filme se propõe a retratar uma caçada ao maior e mais conhecido gângster de todos os tempos, Al Capone, interpretado com prazer por Robert De Niro. Mas o destaque da trama fica por conta de Sean Connery, o eterno James Bond, em um interessante e maduro papel que lhe garantiu o Oscar de melhor ator coadjuvante. Na cerimônia da academia em 1988 o longa ainda seria indicado por Figurino, Direção de Arte e Trilha Sonora composta pelo italiano Ennio Morricone, que já foi responsável pela música de mais de 500 obras cinematográficas e por isso mesmo recebeu em 2007 um Oscar honorário pela sua contribuição a arte do cinema. Recriando com perfeição a criminosa Chicago em sua era dourada e gloriosa, Os Intocáveis transpassa os rótulos comuns a um filme de gângster para marcar por uma trama que sabe equilibrar momentos de alívio cômico e pancadaria generalizada (algo que Michael Bay não o fez em Transformers 2). É um daqueles filmes que não envelhecem, bons para ser visto por qualquer pessoa cinéfila, ou não, interessada em gastar algumas horas de sua existência em algo que lhe acrescente além do puro entreterimento. E fica como dica final para quem gostar do longa, resgatar a séria homônima que fez muito sucesso na década de 60 estrelada pelo galã Robert Stack.
Se a cara do Cinema Brasileiro atual é o Selton Mello, filme francês que se preze não pode deixar de ter em seu elenco Gérard Depardieu, mesmo que em participação especial. E no longa Inimigo Público N. 1 (2008) o veterano ator, que por sinal está BEM acima do peso, interpreta Guido, um mafioso no estilo padrinho de O Poderoso Chefão (1972). Mas a trama se centraliza em Jacques Mesrine, famoso gangster francês. A obra que está em cartaz em circuito brasileiro é o primeiro de dois filmes do diretor Jean-François Richet sobre Mesrine. Esta primeira parte se ambienta na década de 60 e mostra como um homem comum de família de classe média se tornou o mais procurado pela polícia parisiense. O segundo filme se propõe a relatar na década de 70 o declínio na carreira criminosa. Não há previsão da estréia do segundo filme em circuito nacional. O papel central é interpretado por Vincent Cassel, que nesta sexta-feira também poderá ser visto em circuito no filme brasileiro À Deriva (2009). Inimigo Público N.1 não possui uma trama inovadora, pois não será este nem o primeiro muito menos o último filme a glamurizar a vida de criminosos. Mas vale pela cena inicial que usa diversas câmeras em diversos ângulos para abrir a história, com uma situação que mais parece final de filme.
Filmes de gângster, como O Poderoso Chefão (1972), Era uma Vez na América (1984) e Os Bons Companheiros (1990), geralmente pedem um olhar clássico: câmera parada, fotografia impecável e muitos estereótipos a la Al Capone. Porém um diretor como Michael Mann, que já dirigiu O Informante (1999), Ali (2001), Colateral (2004) e Miami Vice (2006) e possui um jeito muito particular de contar histórias com a sua câmera, ousou fazer diferente neste tradicional gênero no longa Inimigos Públicos (2009), forte candidato a diversas categorias ao Oscar na próxima cerimônia, incluindo melhor filme. Os poucos planos abertos são muito eficientes e até tradicionais de mais, mas é nos planos fechados, com câmeras muito focadas nas faces de seus personagens que Mann se revela e desdobra sua trama. Em alguns momentos as cenas podem até tremer de mais ou parecerem de certa forma caseiras, só que é tudo parte deste estilo do cineasta e cabe aceitar isto junto com a pipoca e o refrigerante. Outro bom motivo para ver este filme é o elenco recheado de ótimos e competentes atores. Christian Bale, sem a máscara de Cavaleiros das Trevas (2008), continua tentando fazer justiça representando o investigador caçador de gangsters. Marion Cotillard, que por baixo de quilos de maquiagem faturou o Oscar de melhor atriz por Piaf – Um Hino ao Amor (2007), está agora mostrando seu verdadeiro rosto ficando muito a vontade como a mocinha que forma par com o gangster número 1 do longa. E quem é este gangster? Nada mais, nada menos que Johnny Depp num dos pouquíssimos papéis em sua carreira em que o veremos sem maquiagem, sem trejeitos, sem over-action, fazendo um ser humano perto do que seria o normal! Será a primeira estatueta dourada para Depp? É aguardar o anúncio da academia e a cerimônia no próximo ano.
Existe uma lenda no Cinema Nacional que relata que no ano de 1962 durante o festival de Cannes na França o diretor brasileiro Anselmo Duarte levou consigo um pó preparado por um pai-de-santo do terreiro que frequentava. Assim que os juízes passaram por ele, ele lançou o pó nas costas destes e com isso a Palma de Ouro para O Pagador de Promessas (1962) estaria garantida… e foi o que então ocorreu! Desta forma, devemos afirmar que o reconhecimento de um importante festival cinematográfico para com uma das mais belas obras brasileiras se deve à fé ao Candomblé? Podemos dizer que sim. Não ao ato supersticioso e lendário de Duarte em si, mas pela iniciativa de durante uma época tão preconceituosa e cheia de hipocrisia, nosso país ser premiado por um longa que mostra o quanto é bela e intrínseca na cultura brasileira o sincretismo religioso entre o catolicismo e as religiões trazidas pelos escravos africanos. A forma como a história de Zé do Burro (Leonard Villar no seu papel mais marcante) é narrada pode parecer muito comum. Usando a simbologia da Paixão de Cristo, mostra este beato atravessando o sertão com uma cruz nas costas rumo à paróquia de Santa Bárbara, para cumprir uma promessa feita à santa para manter seu burro e maior amigo vivo. Porém ele é barrado pelo pároco por um pequeno detalhe: a promessa fora feita em um terreiro de Candomblé. E é este pequeno detalhe que dá tempero a toda a trama recheada de intolerância religiosa e também de ações políticas, pois o personagem principal além de ser acusado de herege é taxado de comunista por incitar a reforma agrária ao doar parte de suas terras aos pobres, ação que estava embutida na promessa para manter o burro vivo. Com uma trama com tantas simbologias e com uma mensagem politizada e anti-preconceito, é impossível não se render a ela. Mesmo sendo um jurado de festival de Cinema. É… penso que o tal pó de Duarte pode até ter dado uma forcinha. Mas competência cinematográfico é um dom inegável neste longa.
Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009). Vamos ao filme e nada mais que o filme, por mais que há algum tempo atrás eu tenha lido as páginas desta belíssima obra composta pela britânica J.K. Rowling, provavelmente a mulher mais poderosa e rica de toda literatura universal. De todos os longas da franquia, Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007) havia sido o mais congruente ao apresentar um visual mais pesado e dramático à saga potteriana. Seguindo nesta trilha mágica de acertos, o diretor David Yates continuou sua excelência no novo longa. As cenas de ação te pegam pela mão e te puxam para dentro da tela, como se gritasse que aquilo diz respeito a nós, meros trouxas do mundo real. Vale destacar a cena inicial dos Comensais da Morte em seu vôo mortífero por Londres e Dumbledore em momento Moisés dominando o fogo mais ao final do filme. Outro profissional magistralmente envolvido foi o diretor de fotografia Bruno Delbonnel, que possui no currículo duas indicações ao Oscar por O Fabuloso Destino de Amelie Poulin (2001) e Eterno Amor (2004), além de ter cuidado do psicodélico visual de Across the Universe (2007). Dos atores vale repetir que Alan Rickman nasceu para ser o severo Snape e o oscarizado por Iris (2001) Jim Broadbent deu o tom certo para o Professor Horácio. Do trio principal, todos evoluíram muito bem, tanto Rupert Grint esbanjando uma grande veia cômica em Rony, quanto Emma Watson e Daniel Radclifee encontrando o tom dramático em Hermione e Harry. Fico feliz e tranqüila de saber que teremos mais dois filmes para o derradeiro Relíquias da Morte, pois há muitos detalhes importantes que não podem deixar de serem transpassados para a tela grande. E mais tranqüilo ainda de que está tudo nas mãos de Yates. Ou de sua varinha com escamas de dragão e penas de fênix, típica dos grandes diretores do mundo dos bruxos.
Confesso que pela primeira vez, em quase um ano de blog MovieYou, não sei que nota dar para um filme. Falo isto não pela confusão que o filme me causou a mente, e sim aos espectadores que compartilharam a sala de cinema comigo por mais de 2 horas e meia. Explico. Hoje assisti a sessão de estréia de Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009) promovida pela Aliança Potteriana, um fã-clube de Harry Potter aqui de São Paulo. O local estava repleto de juvenis descontrolados, fantasiados de personagens da saga bruxa e pecaminosamente alguns deles seguravam um exemplar de um dos livros da saga Crepúsculo nos braços. Quanta heresia! Mas o melhor, ou melhor, o pior ainda estava por vir. Durante a sessão não houve um minuto de silêncio sequer. Compreendo que momentos excitantes do filme, como o beijo de Harry e Gina mereçam gritinhos. Porém estava absolutamente insuportável a gritaria. Para cada fala, surgiam comentários maliciosos e de segundas intenções. Era muito hormônio e sexo reprimido junto, portanto, cada cena podia sim ter sua dose de interpretação sexual! Esperava particularmente entrar num clima de suspense, algo dark, pesado… Só que os tais fãs imaturos não me permitiram saborear a magia deste longa. A única parte digna de menção é quando Dumbledore morre. Foi a única cena em que todos ficaram em silêncio, empunharam suas varinhas fantasiosas em respeito ao mago. Pena que faltou este respeito no resto da projeção, para assim haver uma apreciação do começo do fim da saga. Isto agora infelizmente ficará para As Relíquias da Morte Parte 1 e 2. E sem sessões promovidas por fã-clubes!




















