Mariana Bonfim é amante da sétima arte. Já flertou muito com o cinema norte-americano, mas agora prefere affairs mais consistentes, como o cinema brasileiro, latino-americano ou europeu. Atualmente mantêm encontros periódicos com a argentina Lucrecia Martel, o espanhol Pedro Almodóvar e o brasileiro José Padilha.







My GoodFella, Martin!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Os Bons Companheiros

Os Bons Companheiros (1990)
Martin Scorsese

Conforme prometido no post sobre Scarface (1983), falarei hoje de Martin Scorsese e dos altos de baixos dessa longínqua carreira. Vamos então á uma ‘leve’ amostra dos longas de um dos poucos diretores que conseguiu em sua carreira ser ao mesmo tempo artístico em suas concepções e hollywoodiano no faturamento de seus filmes. Estudante de cinema da Escola de Nova Iorque, Scorsese explodiu para a crítica, o público e o Oscar com Taxi Driver (1976), um dos muitos filmes que faria com o amicíssimo Robert DeNiro.  Depois disso viveu uma fase negra de depressão, consumido por diversas drogas e bebidas alcoólicas. Sua paranóia de que morreria a qualquer momento era tamanha que achou que Touro Indomável (1980) seria seu último filme. Graças ao santo dos cineastas, Scorsese sobreviveu para muito mais. Cabe ressaltar que esse foi o primeiro longa de destaque com a sua grande parceira de edição, Thelma Schoonmaker. Depois veio uma década de oitenta regada a filmes pontuados de polêmicas, mas sem grande críticas positivas, como A Cor do Dinheiro (1986) e A Última Tentação de Cristo (1988). E a década de noventa começou com Os Bons Companheiros (1990), onde choveram aplausos de que o diretor tinha finalmente voltado a sua origem sarcástica e visceral, ocorrendo até comparações com a trilogia do Poderoso Chefão de seu amigo Coppola. Mas veio Cassino (1995) e a crítica ficou novamente em dúvida do talento do diretor. Ainda tivemos nessa década Kundun (1997), seu filme menos hollywoodiano. Na era pós-2000 não me pergunto o que subiu pra cabeça de Scorsese, mas ele começou a sua fase megalomaníaca, a que eu menos gosto. Gangues de Nova Iorque (2002) e O Aviador (2004) serviram apenas para gastar o dinheiro dos estúdios, receber mornas críticas e ainda ficar com aquela sensação de “mais uma indicação ao Oscar sem vencer”. Porém, graças novamente ao santo dos cineastas, Scorsese fez o que sempre soube fazer muito bem em Os Infiltrados (2006) e levou o ‘douradinho’ pra casa, recebido das mãos de George Lucas, Francis Ford Copolla e Steven Spielberg. Juro que aquela hora pensei que o palco do Kodak Theater fosse abaixo com tantos diretores de peso sobre ele. Bem, mais com tanta coisa o que vou destacar dele? Penso que vou continuar com a promessa feita em Scarface e indicar Os Bons Companheiros, não só por conta da piadinha de que no TOP 3 de “fucks” ele levava medalha de prata. Mas principalmente porque o longa é uma lição de cinema, do roteiro à edição. Nos mostra que grandes orçamentos podem até ajudar nos efeitos especiais do filme. Mas que idéias que perdurem o suficiente para estarmos aqui 18 anos depois falando e um filme, é (se existe a palavra) ‘incomprável’.

Onde Está o Terror Psicológico à Moda Antiga?

sábado, 22 de novembro de 2008
[REC]

[REC]

Não, não e não! Não consigo mais assistir a estes filmes de terror pós-2000. Como o título do post desabafa, onde está aquele terror psicológico à moda antiga de O Bebê de Rosemary (1968), O Exorcista (1973) e Alien – O 8º Passageiro (1979) em que se criava todo um clima de suspense sem ter que necessariamente mostrar sangue e criaturas do mal? Pelo visto fugiu tal qual os zumbis vampirescos de Eu Sou a Lenda (2007) fazem com a presença de luz. Primeiramente teve a moda dos longas de terror japoneses, que foi de O Chamado (2002) à Uma Chamada Perdida (2008). Todos com o absolutamente óbvio enredo da menininha branquela, descabelada e macabra que decide se vingar matando os coitados que vêem uma fita ou atendem ao celular. Só porque alguém da família a maltratou... ou porque ela é demoníaca mesmo, e daí? Depois veio aquele Jogos Mortais (2004), que parece filme do Rocky Balboa, tem do I ao V, pode escolher. Olha, eu tenho o imenso orgulho de falar de boca cheia que eu NUNCA vi nenhuma destas 5 “obras-primas” da aflição. Me desculpem, mas gastar minhas preciosas horas vendo drogada caindo em piscina de agulha de aidético, tô fora! Foi então que surgiram várias críticas positivas do tal terror espanhol [REC] (2008) e eu fui conferir se a terra do Almodóvar poderia me proporcionar alguma boa novidade no gênero! Ledo engano... A hora que eu vi uma menininha zumbizinha e descabeladinha eu falei “Não! Chega! Já deu, né? ”.  Levantei e fui embora... Cabe a ressalva de que, se a maioria ganha, então nesse filme eu perdi feio. Se a maioria da crítica gostou de algo que eu não tive a menor paciência de ver a conclusão, melhor eu fechar meu bico e dizer com um sorriso amarelo: Ah, assista [REC]. Vai que você curta esse terror imbecilizante com direito a câmera tremida pra te passar a falsa sensação de pseudo-realismo. Não se esqueça de me deixar um comentário aqui contando o final, tá?

Uma Crítica Ambiental Por Trás da Pancadaria

quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Quantum of Solace

Quantum of Solace

Não, meus caros leitores... não fiquem achando que meu cérebro derreteu com a superexposição à produções audiovisuais e estou agora enxergando pêlo em ovo. Sim, eu consegui interpretar uma grande crítica ambiental por trás do novo filme da franquia ‘blockbuster’ Quantum of Solace (2008). Mas vamos por partes, como diria Jack. Não o Nicholson, o Estripador. Boa parte da minha adolescência foi recheada de maratonas James Bond que passavam na TV aberta, onde pude conferir Roger Moore, Sean Connery e Pierce Brosnan como o agente secreto a serviço de sua majestade. E o que eu mais gostava era dos vilões, um mais excêntrico que o outro. O que dizer daquele fulano que tinha dentes de aço, capazes de romper o cabo do bondinho do Pão de Açúcar com uma mordida, em 007 Contra o Foguete da Morte (1979)? No mínimo, bizarro! Quando soube que Quentin Tarantino estava interessado em dar um novo rumo à franquia, realizando filmes baratos sem tanta tecnologia e efeitos especiais, fiquei extremamente empolgada. Porém o projeto Cassino Royale (2006) acabou nas mãos do diretor Martin Campbell e eu perdi o interesse na série. Acabei assistindo ao filme antes-de-ontem, por recomendações de que eu não entenderia ‘lhufas’ de Quantum of Solace sem vê-lo. Gostei bastante, destacando o jogo de pôker (sim, eu sou uma viciada em cartas... já ganhei até 100 reais numa mesa), da beleza estonteante de Eva Green como Bond Girl e de Daniel Craig dando uma vivacidade totalmente verossímil a Bond. Agora quanto ao Quantum, vamos à crítica. Levamos boa parte do longa para entender que o vilão (Mathieu Amalric de O Escafandro e a Borboleta – 2007) comprou um deserto inteiro não porque lá tinha petróleo, ou porque o local seria o melhor esconderijo para sua arma nuclear que destruiria o planeta (risada macabra do Dr. Evil... uhaaa uhaaa uhaaa). Mas porque o deserto boliviano apresenta uma das maiores reservas do planeta de ... ÁGUA! Isso mesmo, o novo roteiro de 007 já antecipa o que será obvio em anos: as grandes nações do planeta serão capazes de verdadeiras guerras, não só diplomáticas, em troca de água. E uma cena em especial exprime isso de maneira cinematograficamente belíssima: após encontrar o gigantesco depósito de água, James e sua Bond Girl (Olga Kurylenko ) vão ao vilarejo mais próximo, onde uma fila de nativos estão brigando pelo último balde da única caixa d’água do local. E daí vemos a grande metáfora e crítica ambiental que enxerguei no filme. Enquanto os grandes deportam governos e fazem transações de milhões de euros pelo ouro líquido, os pequenos se estapeiam pelo restante das gotas de dignidade e humanidade...
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