Mariana Bonfim é amante da sétima arte. Já flertou muito com o cinema norte-americano, mas agora prefere affairs mais consistentes, como o cinema brasileiro, latino-americano ou europeu. Atualmente mantêm encontros periódicos com a argentina Lucrecia Martel, o espanhol Pedro Almodóvar e o brasileiro José Padilha.







Para Espantar o Tédio, Dinheiro!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008
La Dolce Vita

La Dolce Vita (1960)
Federico Fellini

O que você faria com dinheiro sobrando a mais no bolso (de preferência na casa dos 6 zeros) se o tédio dominasse a sua rotina já tomada pela mais extrema futilidade? Passearia de lancha em Búzios, compras em Miami, jantar em Paris?! Bem temos ainda opções mais ‘quentes’, pois se um famoso jogador sem saber mais o que fazer com tanta grana decide contratar algumas ‘garotas aditivadas’, os personagens de La Dolce Vita (1960) decidem encarar uma opção mais careta, como um pequeno bacanal regado a destilados. Mas não é só este aspecto da vida banal e fácil do qual o filme do brilhante diretor italiano Federico Fellini trata. Temos até a questão das Celebridades, Caras, Quens, Contigos e Bundas... E para você perceber como o tratamento dado a esse mundinho marcou a história do cinema, temos o personagem Paparazzo, fotógrafo interpretado por Walter Santesso, que trabalha com Marcello Rubini (Marcello Mastroianni) um repórter que entrevista famosos, vivendo de ‘chupinhar’ a riqueza e luxos alheios. Temos aí a origem crua do termo que descreve os fotógrafos perseguidores de celebridades, denominados ‘paparazzi’. Num meio tão superficial e vazio, como encarar os sentimentos que desprendem dessa vida de marionetes? É o que o personagem de Mastroianni acaba se deparando quando pensa que se apaixona pela estrela hollywoodina Sylvia Rank (Anita Ekberg). Esse platonismo acaba não passando de um passeio de carro, um gatinho querendo leite, uma fonte e um quase beijo ... Aliás o mais famoso quase beijo da história do cinema, como você pode conferir no post da Crítica (colocar o link pro post) referente a este longa. La Dolce Vita (1960) acaba sendo um pouco assim, fragmentado e disperso, é o filme perfeito para se apreciar despretensiosamente, mesmo se tratando de um clássico.

Sensibilidade Feminina

segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Fatal

Fatal

A cineasta espanhola Isabel Coixet já havia ganhado notoriedade com Minha Vida Sem Mim (2003) e A Vida Secreta das Palavras (2005) quando este ano encarou a responsabilidade de adaptar ao cinema o livro O Animal Agonizante de Philip Roth, que na tela grande se tornou Fatal (2008). Um fato interessante quanto estava fazendo o post da Crítica referente a esse filme foi a discordância entre críticos do sexo masculino e feminino. Elas apreciaram toda a poesia e delicadeza que Coixet transmitiu ao filme, enquanto eles reclamaram que a diretora não respeitou a visão crua e pornográfica do livro. Sendo assim, já fui assistir ao filme com essa contradição em mente. Mas devo enfatizar que isso é a última coisa que recomendo a quem vai apreciar um filme, sendo crítico, cinéfilo ou leigo: Não fique com as críticas na cabeça e se puder evitá-las antes de assistir ao longa melhor. Mas, infelizmente, com tantas opções em cartaz, não há como escapar de se ater a opiniões especializadas para ver se vale a pena ou não gastar tempo e dinheiro com determinada obra... Tudo bem, voltando à Fatal, não posso negar que gostei bastante do filme me deixando com vontade de ler o livro só para entender melhor o universo explicitado. Destaco como ponto forte do filme a direção de atores de forma excepcional. Realmente a cineasta conseguiu como ninguém extrair pérolas tanto dos protagonistas quanto de seus coadjuvantes. Ben Kingsley (A Lista de Schindler - 1993) transmite uma crise de velhice sufocante, conseguindo transparecer com um olhar todo o ardente desejo que sente pela personagem de Penélope Cruz (Abre los Ojos - 1997) que mais uma vez está deslumbrante e avassaladora. Dennis Hopper (Veludo Azul – 1986), que já estava devendo há tempos uma interpretação satisfatória, traz um (des)equilíbrio ao personagem de Kingsley como o típico amigo que dá conselhes contraditórios a sua própria personalidade. E a sempre eficiente Patricia Clarkson (Dogville – 2003) também contribui com uma interpretação forte, nos ajudando a demarcar os altos de baixos dos sentimentos de Independência X Solidão do protagonista. Encerro com uma amostra da obra humana e delicada de Isabel Coixet, com o curta Bastille que faz parte da obra Paris, Eu Te Amo (2006). Uma amostra de que nunca devemos achar que alguém está em poder de nossas mãos, pois todas as almas são como areia, que escapam pelo dedos da hipocrisia e são levados pelos ventos da vida.

Iinkululeko*

sábado, 1 de novembro de 2008
Mandela - Luta Pela Liberdade

Mandela - Luta Pela Liberdade

A década de 90 foi pontuada de diversos acontecimentos históricos que marcaram a minha infância. Não que eu compreendesse por completo tudo que estava acontecendo, mas como eu ficava ligada na TV quase 24 horas por dia, nada passava batido. Movimento dos Caras – Pintadas em 1992, morte de Ayrton Senna naquele triste domingo de 1994 e a posse de Nelson Mandela como primeiro presidente negro pós-apartheid. E esse último acontecimento era o que eu menos compreendia. Estava acostumada com o Brasil como o país das misturas, com negros, brancos, mulatos, japoneses, índios... Era difícil para uma criança de 10 anos como eu entender o contexto doentio de 2 raças não se misturarem na mesma escola, hospital, ônibus e até na mesma piscina! Na verdade acho que não compreendo essa patologia do preconceito até hoje. Afinal quando nos damos as mãos e olhamos sua sombra, a sombra tem a mesma cor. Se a sombra de nós mesmos não faz distinção, porque nossa alma faria? E foi com essa curiosa expectativa que fui assistir Mandela - Luta Pela Liberdade (2007), de que eu entendesse um pouco mais desse contexto de intolerância. Ao fim da sessão não me dei por satisfeita, pois o ponto de vista do filme é do carcereiro que vigia de perto Mandela mas que também alimenta uma admiração e respeito por ele. Para mim era fácil entender essa posição porque é a que eu pratico. Minha curiosidade vai além disso, pois faltou escancarar o oposto, de como um colonizador invade uma terra que não é a dele a aprisiona o povo fruto dessa mesma terra? Bem, talvez eu esteja perguntando de mais ao ponto de esquecer que está reflexão não cabe só no histórico da África, mas da minha América também. Para encerrar vale conferir o link (em inglês) da chamada Carta da Liberdade, um documento a ser lido, refletido e comentado ... * Iinkululeko: Liberdade em Xhosa (dialeto dos amaXhosa, grupo étnico da África do Sudoeste), segunda língua mais falada na África do Sul.
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