Nessa sexta-feira, 24 de Outubro, estréia Última Parada 174 (2008) em meio a repercussão midiática do caso do seqüestro em Santo André, que terminou da mesma forma trágica que o 174 e foi permeado novamente por erros de uma polícia imatura e despreparada para situações-limite. O longa ficcional de Bruno Barreto é inspirado no documentário de José Padilha Ônibus 174 (2002) com diversas diferenças estésticas e ideológicas, como nos aponta Geo Euzébio do Cine Players: “Diminuindo o foco da lente de José Padilha, Bruno Barreto pega o desfecho trágico da história de Sandro, nacionalmente conhecido como o rapaz que seqüestrou um ônibus -- e esteve sob as lentes da TV ao vivo, em rede nacional -, partindo do fim para um miolo também conhecido, o de que este mesmo Sandro foi um dos sobreviventes de outra tragédia particular carioca, o massacre da Candelária, e o esforço ficou por conta de reconstruir ficticiamente as lacunas na vida de Sandro que não foram exibidas na TV aberta.Esse é o ponto crucial de Última Parada 174, porque dependendo das escolhas feitas nesse momento o filme poderia descambar em duas direções: competência ou fracasso. E Bráulio Mantovani costura bem a trama e com uma pequena dose de anticonvecionalismo, deixa no final uma sensação de esperança no ar, depois do peso que joga nos ombros do espectador.” Para Luciano Trigo do G1 não há novidades no conteúdo do longa, e critica um equívoco marcante nos julgamentos estabelecidos pela trama: “E qual é a mensagem? Trata-se da velha equação que explica e justifica a violência e a criminalidade com base na desigualdade e na miséria. Sandro comeu o pão que o diabo amassou, é verdade, mas isso não eliminou sua liberdade de escolha. Fosse assim, todos os miseráveis seriam ladrões, assassinos ou traficantes. Esse discurso da vitimização que contamina Última Parada 174 – e muitos outros filmes brasileiros recentes, de temática social – tem algumas características preocupantes. A primeira é a relativização dos valores: num mundo em que todos são vítimas, não existem culpas nem responsabilidades individuais; se por trás de toda violência existem outras violências igualmente bárbaras, é isso acontece com freqüência, não resta muito a fazer enquanto existirem desigualdades: quem aperta o gatilho e quem leva o tiro são semelhantes, matar e morrer são apenas duas faces da mesma moeda. Segunda: ao reduzir o espectador a uma imobilidade impotente, ao privá-lo de sua capacidade de discernir o certo do errado, o filme tem uma função terapêutica e catártica: expiar a culpa histórica das elites (e também das classes médias) em relação às camadas mais desfavorecidas da população brasileira.” Heitor Augusto do Yahoo! Cinema ainda reintera essa falta de novidade acrescentando apontamentos negativos da estética escolhida por Bruno Barreto. “Se o diretor consegue transportar a tensão da vida do garoto para os movimentos de câmera e cortes abruptos, por outro lado, há saltos e conexões absurdos no roteiro. Por exemplo: na Candelária, Sandro, ainda criança, beijou uma garota. Cerca de sete anos depois, a mesma garota o reconhece não pelos traços físicos, mas sim pelo beijo!Talvez para se preservar, Barreto não ultrapassa a linha entre obra e realizador. Não vai além de diagnosticar que o Brasil é um país desigual. Descontando o anacronismo, o Cinema Novo de Glauber Rocha propôs uma saída – mesmo que cifrada e com pouco diálogo com o grande público. Mas era clara a posição do cineasta em relação à transformação da realidade. E a de Barreto, em Última Parada 174, qual é? Mostrar que Sandro é uma metáfora para milhões de jovens brasileiros cujas infâncias e vidas adultas só têm ausências e carências? Nada de novo…” Será então que a nova geração de cineastas com forte apelo social precisam queimar o Manifesto Estética da Fome de Glauber? Ou relê-lo com calma, procurando algo que escancare ao brasileiro onde e porque ele vive nesse lamaçal, incluindo apelo as elites, as massa e porque não aos omissos poderosos de Brasília que insistimos em colocar no alto desse monte de lama…
Nada de Novo no Front Social
Opinião da Crítica24 de outubro de 2008




















