Depois de ser devastada por diversas crises econômicas e políticas durante os governos Menen e Kirshner, a Argentina aparenta passar por águas mais tranqüilas, tanto no campo econômico quanto no da produção artística. E dentro da sétima arte surgiu uma nova geração de jovens diretores recém-formados pela FUC – Universidad Del Cine e que conseguiram produzir seus filmes graças às leis de incentivo oriundas do Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA). Da produção cinematográfica oriunda dessa turma cunhou-se o termo Novo Cinema Argentino, que apresenta uma temática comum de alienação e decadência da sociedade argentina, seja em sua moral ou no campo familiar e afetivo. Ângela Prysthon em artigo da Revista O Grito! destaca a cineasta Lucrécia Martel e seu filme O Pântano (2001) como emblemático para esta nova geração. “O bastante discutido e analisado O Pântano de Lucrecia Martel apresenta a partir de um registro que poderíamos chamar de ‘estética do sedentarismo’ ou ‘poética da decomposição’ uma visão devastadora do cotidiano e das relações entre classes, gêneros e gerações na Argentina de hoje. Martel talvez seja a representante mais destacada do Novo Cinema Argentino, tanto por O Pântano como por A menina santa (2004) e agora com A Mulher Sem Cabeça (2008), justamente por demarcar de maneira muito peculiar um outro espaço de representação naturalista para o cinema contemporâneo.” Cléber Eduardo da Revista ContraCampo faz um apanhado do ambiente húmido e sufocante no qual o primeiro longa da cineasta está inserido. “Seu mundo é micro (e enorme em abrangência). A diretora está mais interessada nos climas íntimos e dicotômicos de relações familiares específicas, cheias de pulsão de vida e de sinais de decrepitude -- que pode até ser vista como reflexo de classe (a média) e da situação de um país (a Argentina), mas não propõe essa relação direta pela qual sua linguagem naturalista pediria uma leitura alegórica. Seu filme concentra-se em uma casa, e ela se faz notar, por extensão, mesmo nas cenas exteriores. Um mundo cabe entre quatro paredes e isso o vacina contra generalizações, ao contrário das visões panorâmicas por superfícies sociais. O Pântano não busca diagnósticos, menos ainda soluções. Os sentidos propostos são rarefeitos e nebulosos, pantanosos até, e concentram-se apenas nas próprias situações, na matéria (corpos, paisagens). Sem, porém, partir delas para se chegar a algo para além delas; vendo-as tanto como parte do contexto como renovadas por associações elípticas com ele, de acordo com as arbitrárias exigências da subjetividade, não pelo suposto ‘objetivismo’ da sociológica relação de causa e efeito. A significação está na própria imagem e não na leitura da imagem, significações variadas dentro da polifonia de vozes e situações, na qual cada um tem sua verdade e sua razão, sem se extrair disso uma conclusão sintética.” Como análise final, mas de forma alguma conclusiva, pois a extensa temática e os típicos finais em aberto da cineasta nos deixam aptos a refletir dias depois, cabe citar Hugo Viana em seu blog Movie Sketch. “O que sobressai na análise do filme de Martel é uma construção familiar onde a crueza das relações humanas é tão franca, tão sincera, que pode incomodar. Isso talvez aconteça porque a diretora prioriza uma representação íntima, revelando os momentos privados de pessoas que se aglutinam numa casinha. Imagine tudo que você faz ou sente na segurança de sua residência, e talvez tenha uma noção mais precisa do tipo de imagens que Lucrecia capta. Os desejos de cada um dos familiares não são escancarados, mas muito sutis. Não emergem das entrelinhas. Não ultrapassam barreiras invisíveis que enclausuram suas vontades. A diretora consegue enfatizar, através de olhares perdidos, frases cortadas e linguagem corporal intensa, o sentimento oculto de personagens complexos.”
A Decadência Alienada e o Novo Cinema Argentino
Opinião da Crítica28 de outubro de 2008





















