Selton Mello e o Seu Feliz Natal (2008) fizeram escolha. Seu colega de profissão e de cena na obra O Auto da Compadecida (2000) Matheus Nachtergaele estréia também na direção com o ambíguo A Festa da Menina Morta (2008). Geo Euzebio do CinePlayers comenta este início. “Selecionado para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2008, Matheus Nachtergaele estréia na direção mostrando a mesma coragem de seus trabalhos como ator, tencionando tabus e pousando os olhos sobre um pedaço de nossa sociedade que é pouco visitado. Chamando a atenção para a região amazônica, o diretor -- e também roteirista – opta por adentrar num de seus aspectos mais fundamentais: a fé. (…)A direção de Nachtergaele demonstra um parentesco direto com o cinema do amigo Cláudio Assis, valorizando a crueza, o sangue e a carne, a humanidade não-maquiada e natural. As cenas da morte da galinha e do porco são bons exemplos disso e estabelecem o paradoxo entre uma humanidade plena e deificação de um rapaz. Delicado foi perceber o quanto o diretor esteve encantado com seu primeiro filme nas muitas inserções de seqüências aparentemente sem utilidade para o enredo, demonstrando mais a fruição estética de alguém que pela primeira vez teve a oportunidade de mostrar aos outros os caminhos que percorrem seu olhar e sua atenção. A música tema da menina assim como a fotografia de Lula Carvalho compõe muito bem a ambiência da trama. E Daniel de Oliveira, numa atuação quase sempre acertada, derrapa em alguns momentos difíceis de um personagem difícil, sem por isso deixar de merecer nosso crédito.” E Luis Carlos Merten em seu blog no Estadão dá o seu pitaco incisivo. “Não sou o maior fã de A Festa da Menina Morta -- aquele universo primitivo de crenças, em que a religiosidade histérica do Santinho (personagem de Daniel de Oliveira) sufoca as pessoas -- mas ele próprio é vítimas de seu mito -, me parece muito fechado. Não consigo entrar. Em compensação, curti mais o que já havia me atraído antes. Matheus trabalha as cenas quase isoladamente. Uma das melhores nem tem função narrativa -- é aquela em que o índio chama para a dança seus amigos (e que foi aplauidida durante a projeção). Adoro aquela cena, mas tem outra que me parece ainda melhor, um plano-seqüência com Daniel de Oliveira e Cássia Kiss, em que ela, como a mãe que partiu, volta para um diálogo decisivo, que atormenta o filho e o fragiliza. Daniel fica ao fundo, Cássia em primeiro plano. E ela fala sobre homens fortes e fracos, sobre a sua necessidade de se sentir dominada e, na realidade, percebemos que tudo o que ela diz de si revela o filho, sua ambivalência. Matheus trabalha tanto as cenas -- em textura e intensidade -- que às vezes me parece que o tecido dramático do filme, a sua narrativa, fica meio esgarçado, mas de qualquer maneira foi uma experiência e tanto assistir ao filme de novo. “A Festa’ é forte. Tem aquela cena em que o Santinho é sodomizado pelo pai, com quem mantém uma relação incestuosa. Ela pode ser considerada chocante, mas a mim incomoda muito mais o som da chuva incessante, como mais tarde o som da matança do porco será levado ao limite do (in)suportável, provocando uma das tantas explosões de histeria do personagem de Daniel de Oliveira.” No mínimo polêmico.
Mais um Ator Diretor
Opinião da Crítica18 de junho de 2009




















