Filmes de gângster, como O Poderoso Chefão (1972), Era uma Vez na América (1984) e Os Bons Companheiros (1990), geralmente pedem um olhar clássico: câmera parada, fotografia impecável e muitos estereótipos a la Al Capone. Porém um diretor como Michael Mann, que já dirigiu O Informante (1999), Ali (2001), Colateral (2004) e Miami Vice (2006) e possui um jeito muito particular de contar histórias com a sua câmera, ousou fazer diferente neste tradicional gênero no longa Inimigos Públicos (2009), forte candidato a diversas categorias ao Oscar na próxima cerimônia, incluindo melhor filme. Os poucos planos abertos são muito eficientes e até tradicionais de mais, mas é nos planos fechados, com câmeras muito focadas nas faces de seus personagens que Mann se revela e desdobra sua trama. Em alguns momentos as cenas podem até tremer de mais ou parecerem de certa forma caseiras, só que é tudo parte deste estilo do cineasta e cabe aceitar isto junto com a pipoca e o refrigerante. Outro bom motivo para ver este filme é o elenco recheado de ótimos e competentes atores. Christian Bale, sem a máscara de Cavaleiros das Trevas (2008), continua tentando fazer justiça representando o investigador caçador de gangsters. Marion Cotillard, que por baixo de quilos de maquiagem faturou o Oscar de melhor atriz por Piaf – Um Hino ao Amor (2007), está agora mostrando seu verdadeiro rosto ficando muito a vontade como a mocinha que forma par com o gangster número 1 do longa. E quem é este gangster? Nada mais, nada menos que Johnny Depp num dos pouquíssimos papéis em sua carreira em que o veremos sem maquiagem, sem trejeitos, sem over-action, fazendo um ser humano perto do que seria o normal! Será a primeira estatueta dourada para Depp? É aguardar o anúncio da academia e a cerimônia no próximo ano.
Existe uma lenda no Cinema Nacional que relata que no ano de 1962 durante o festival de Cannes na França o diretor brasileiro Anselmo Duarte levou consigo um pó preparado por um pai-de-santo do terreiro que frequentava. Assim que os juízes passaram por ele, ele lançou o pó nas costas destes e com isso a Palma de Ouro para O Pagador de Promessas (1962) estaria garantida… e foi o que então ocorreu! Desta forma, devemos afirmar que o reconhecimento de um importante festival cinematográfico para com uma das mais belas obras brasileiras se deve à fé ao Candomblé? Podemos dizer que sim. Não ao ato supersticioso e lendário de Duarte em si, mas pela iniciativa de durante uma época tão preconceituosa e cheia de hipocrisia, nosso país ser premiado por um longa que mostra o quanto é bela e intrínseca na cultura brasileira o sincretismo religioso entre o catolicismo e as religiões trazidas pelos escravos africanos. A forma como a história de Zé do Burro (Leonard Villar no seu papel mais marcante) é narrada pode parecer muito comum. Usando a simbologia da Paixão de Cristo, mostra este beato atravessando o sertão com uma cruz nas costas rumo à paróquia de Santa Bárbara, para cumprir uma promessa feita à santa para manter seu burro e maior amigo vivo. Porém ele é barrado pelo pároco por um pequeno detalhe: a promessa fora feita em um terreiro de Candomblé. E é este pequeno detalhe que dá tempero a toda a trama recheada de intolerância religiosa e também de ações políticas, pois o personagem principal além de ser acusado de herege é taxado de comunista por incitar a reforma agrária ao doar parte de suas terras aos pobres, ação que estava embutida na promessa para manter o burro vivo. Com uma trama com tantas simbologias e com uma mensagem politizada e anti-preconceito, é impossível não se render a ela. Mesmo sendo um jurado de festival de Cinema. É… penso que o tal pó de Duarte pode até ter dado uma forcinha. Mas competência cinematográfico é um dom inegável neste longa.
Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009). Vamos ao filme e nada mais que o filme, por mais que há algum tempo atrás eu tenha lido as páginas desta belíssima obra composta pela britânica J.K. Rowling, provavelmente a mulher mais poderosa e rica de toda literatura universal. De todos os longas da franquia, Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007) havia sido o mais congruente ao apresentar um visual mais pesado e dramático à saga potteriana. Seguindo nesta trilha mágica de acertos, o diretor David Yates continuou sua excelência no novo longa. As cenas de ação te pegam pela mão e te puxam para dentro da tela, como se gritasse que aquilo diz respeito a nós, meros trouxas do mundo real. Vale destacar a cena inicial dos Comensais da Morte em seu vôo mortífero por Londres e Dumbledore em momento Moisés dominando o fogo mais ao final do filme. Outro profissional magistralmente envolvido foi o diretor de fotografia Bruno Delbonnel, que possui no currículo duas indicações ao Oscar por O Fabuloso Destino de Amelie Poulin (2001) e Eterno Amor (2004), além de ter cuidado do psicodélico visual de Across the Universe (2007). Dos atores vale repetir que Alan Rickman nasceu para ser o severo Snape e o oscarizado por Iris (2001) Jim Broadbent deu o tom certo para o Professor Horácio. Do trio principal, todos evoluíram muito bem, tanto Rupert Grint esbanjando uma grande veia cômica em Rony, quanto Emma Watson e Daniel Radclifee encontrando o tom dramático em Hermione e Harry. Fico feliz e tranqüila de saber que teremos mais dois filmes para o derradeiro Relíquias da Morte, pois há muitos detalhes importantes que não podem deixar de serem transpassados para a tela grande. E mais tranqüilo ainda de que está tudo nas mãos de Yates. Ou de sua varinha com escamas de dragão e penas de fênix, típica dos grandes diretores do mundo dos bruxos.
Confesso que pela primeira vez, em quase um ano de blog MovieYou, não sei que nota dar para um filme. Falo isto não pela confusão que o filme me causou a mente, e sim aos espectadores que compartilharam a sala de cinema comigo por mais de 2 horas e meia. Explico. Hoje assisti a sessão de estréia de Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009) promovida pela Aliança Potteriana, um fã-clube de Harry Potter aqui de São Paulo. O local estava repleto de juvenis descontrolados, fantasiados de personagens da saga bruxa e pecaminosamente alguns deles seguravam um exemplar de um dos livros da saga Crepúsculo nos braços. Quanta heresia! Mas o melhor, ou melhor, o pior ainda estava por vir. Durante a sessão não houve um minuto de silêncio sequer. Compreendo que momentos excitantes do filme, como o beijo de Harry e Gina mereçam gritinhos. Porém estava absolutamente insuportável a gritaria. Para cada fala, surgiam comentários maliciosos e de segundas intenções. Era muito hormônio e sexo reprimido junto, portanto, cada cena podia sim ter sua dose de interpretação sexual! Esperava particularmente entrar num clima de suspense, algo dark, pesado… Só que os tais fãs imaturos não me permitiram saborear a magia deste longa. A única parte digna de menção é quando Dumbledore morre. Foi a única cena em que todos ficaram em silêncio, empunharam suas varinhas fantasiosas em respeito ao mago. Pena que faltou este respeito no resto da projeção, para assim haver uma apreciação do começo do fim da saga. Isto agora infelizmente ficará para As Relíquias da Morte Parte 1 e 2. E sem sessões promovidas por fã-clubes!
O longa Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) foi filmado quando Glauber Rocha tinha aproximadamente 25 anos. Com sérias restrições orçamentárias, é famosa a cena final, tanto pela habilidade no plano sequência quanto pela queda acidental da atriz Yoná Magalhães. Como era o último trecho no rolo de película que a produção possuía, a cena não pode ser refeita e a queda foi incorporada na edição. Baixo orçamento a parte, Glauber conseguiu conceber sua primeira obra-prima. A trama se desenrola sobre dois vértices que dividem o personagem central de Manoel (interpretado por Geraldo Del Rey) entre o bem e o mal. No lado divino temos a figura de Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um pregador aos moldes de Antonio Conselheiro, que é capaz de com suas palavras colocar sertanejos contra os poderes políticos. No outro extremo temos o demoníaco Corisco (Othon Bastos) um cangaceiro que jura vingança pela morte de seu líder Lampião. Como se pode notar, o roteiro do filme que foi marco no movimento do Cinema Novo, incorpora personagens históricos que são apenas citados, mas que influenciam diretamente no destino de todos os envolvidos no desenrolar dos acontecimentos. Baiano de nascimento, Glauber procurou incorporar as questões sócio-políticas que afrontam os nordestinos de uma maneira alegórica e contundente. E quase 30 anos depois de sua morte, tudo continua tragicamente igual.
O carioca Carlos Saldanha é o típico exemplo de brasileiro que deu certo na complexa hierarquia da indústria hollywoodiana. Seu invejável currículo possui uma indicação ao Oscar pelo curta de animação Gone Nutty (2002), no qual a grande estrela é Scrat, o atrapalhado esquilo que nos encanta pela sua eterna saga em busca da noz. O personagem criado por Saldanha é tão carismático que roubou a cena em todos os longas da trilogia A Era do Gelo. Neste último, A Era do Gelo 3 (2009), Scrat pode finalmente ter a chance de perpetuar a espécie de viciados por nozes ao dividir a cena com a sua equivalente feminina Scratte. Se mostrando muito mais esperta, como toda a boa fêmea, ela consegue levar a melhor logo no trailer (que pode ser visto abaixo) deixando nosso pequeno herói de queixo caído e completamente apaixonado, ou melhor, bobo de amor! As gags dos dois esquilos pontuam a trama, intercalando as cenas dos outros personagens: a preguiça Sid, os mamutes Ellie e Manny, os gambás Crash e Eddie e o tigre dente de sabre Diego. Outro coadjuvante que rouba a cena é a doninha Buck, que reproduz geologicamente o complexo de Moby Dick e Ismael ao fazer da sua razão de viver a busca por uma fera jurássica. Apesar das trabalhadas dos personagens centrais e da fofura de seus filhotes, nada substitui os amáveis e amados esquilos.
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O longa alemão Corra, Lola, Corra (1998) figura ao lado de Trainspotting -- Sem Limites (1996) e Réquiem Para um Sonho (2000) como os filmes moderninhos favoritos dos cinéfilos. Porém, eles foram os 3 primeiros filmes de grandes cineastas da atualidade que precisaram carregar o peso de comparação nos seus próximos trabalhos. Danny Boyle de Trainspotting ao menos conquistou diversos estatuetas do Oscar por Quem Quer Ser Um Milionário? (2008) e Darren Aronofsky conseguiu dar um Globo de Ouro para Mickey Rourke e Bruce Springsteen por O Lutador (2008). Mas o que dizer de Tom Tykwer que não conseguiu nenhum trabalho de expressão após o longa de Lola? Seu Perfume -- A História de um Assassino (2006) foi achincalhado pela crítica, e Trama Internacional (2009) tem seguido o mesmo destino cruel. Mesmo contando com o talentoso galã Clive Owen, que penso daria um excelente James Bond, o longa opta por aquelas histórias de suspense que sempre me deixam confusa. São tantas sub-tramas, jogos de poder, disputas de corporações e órgãos de governos que é impossível não se perder em quem tem que enfrentar quem e aonde todos aqueles tiros e perseguições vão dar. Finalizo que o filme vale pela cena do tiroteio no museu, e ponto! De resto, ainda prefiro ver Clive Owen em Closer -- Perto De Mais (2004) ou nos curtas YouTubinianos da BMW, e também esperar um novo ímpeto criativo de Tykwer.
A cinematografia hollywoodiana é feita de muitos erros, enganos que chegam a ser clássicos. Falo isso, pois perdi a contas que quantas vezes tive que esclarecer certos pontos que o faremos hoje neste post. O primeiro deles é aquele em que todo mundo pensa que O Estranho Mundo de Jack (2003) é do Tim Burton, mas ele apenas produziu e roteirizou a história. Como esclarecemos no post de Coraline e o Mundo Secreto (2008) o diretor responsável por toda aquela massinha cantante é Henry Selick. Outro engano muito comum é de que Quentin Tarantino dirigiu O Albergue (2005). Ele também apenas o produziu e todo o roteiro e direção ficou a cargo de Eli Roth, que em breve poderá ser visto atuando como um dos generais de Bastardos Inglórios (2009), este sim totalmente Tarantino. Até George Lucas não dirigiu todos os filmes da sua saga Star Wars. O Império Contra Ataca (1980), o melhor longa da trilogia clássica, foi dirigido por Irvin Kershner que acabou 10 anos depois dirigindo Robocop 2 (1990). E finalmente um engano clássico será desmistificado no post de hoje: Steven Spilberg NÃO dirigiu ou roteirizou a trilogia De Volta Para o Futuro. Ele também apenas produziu. Quem dirigiu foi Robert Zemeckis. E você pode estar se perguntando o que mais esse tal aí fez? Que tal a direção de Forrest Gump (1994), Contato (1997), O Náufrago (2000), Revelação (2000), O Expresso Polar (2004) e Beowulf (2007)? O roteiro Zelick dividiu seus escritos com Bob Gale, que dirigiu um filme muito bom que é um verdadeiro achado, apenas disponível em VHS no país: Viagem Sem Destino (2002). Com um elenco que conta com Gary Oldman, Michael J. Fox, James Marsden, Christopher Loyd, Chris Cooper, entre outros, retrata um grande road-movie misturado com boas doses de fantasia. Recomendo. De volta para onde estávamos, De Volta Para o Futuro é a grande trilogia que marca os anos 80. Com 3 histórias que se interligam totalmente no espaço e tempo somos conduzidos aos anos de 1885, 1955, 2015 e depois nos idos de 1800 no Velho Oeste. Quando revi a trilogia a pouco tempo atrás lembrava tudo do primeiro e do terceiro filme. O primeiro, quem nunca o viu na Sessão da Tarde que atire a primeira pedra. Agora o segundo, parecia que o estava vendo pela primeira vez, com toda aquela noção de um futuro super hi-tech que certamente não estamos vivenciando. Sim porque nós somos o futuro da década de 80, louco não?! O terceiro filme pode ter sido o menos visto por muitos, mas para mim é o mais engraçado. Tenho uma certa queda por faroestes e ver Martin McFly se apresentando como Clint Eastwood é de gargalhar! Outra pessoa desta produção que devo parabenizar é Alan Silvestri que compôs a trilha sonora do filme. Este também é um cara de um currículo e tanto, com duas indicações ao Oscar de melhor trilha sonora por Forrest Gum (1994) e O Expresso Polar (2004). Para você ver, como a indústria do cinema é composta por grandes nomes, mas , por favor, vamos dar os devidos créditos!
O nova-iorquino Tony Gilroy é o responsável pelo roteiro de diversos bons filmes de ação ou suspense como Advogado do Diabo (1997), Armageddon (1998), Prova de Vida (2000) e os três longas da Trilogia Bourne. Com tanto crédito positivo, seu primeiro longa no qual além do roteiro conduziu a direção foi rodeado de expectativas. O resultado totalmente positivo pode ser visto em Conduta de Risco (2007) que garantiu uma das melhores interpretações de George Clooney e um Oscar para a andrógina, mas sempre excelente Tilda Swinton. Ainda falando de Oscar, o próprio Gilroy foi indicado a melhor roteiro original e direção naquele ano. Um filme que concorreu um total de 7 Oscars incluindo melhor filme não deixaria seu diretor passar em branco. Em Duplicidade (2009), seu segunda longa na dobradinha “Escrito e Dirigido por” Gilroy conseguiu a façanha de nos deliciarmos um belo e surpreendente roteiro, totalmente imprevisível. Além disso, proporciona que vejamos Clive Owen e Julia Roberts a vontade no papel de dois espiões trambiqueiros. Agora se você pensa que haverá FBI ou CIA no meio, está muito enganado. A trama toda gira em torno da dita espionagem industrial, algo que pelo visto deve ser lugar comum nas grandes corporações, conglomerados e multinacionais. A guerra de patentes é secreta e vence quem consegue roubar primeiro do outro. Pena que duas falhas grotescas atrapalhem o longa. A primeira são as janelinhas estilo 24 horas que não casam com a edição de vai e volta no tempo. É a segunda é a trilha sonora de sons remetendo a algo cubano e caribenho que nada tem a ver com o clima de capitalismo e malandragem. Cortou o clima e só aquele olhar por baixo dos óculos escuros de Clive Owen para retomar.
Relacionamentos amorosos. Todos vivem algum sabendo claramente que um dia eles começam, mas que um dia eles também acabam. Eles podem durar 4 dias como em As Pontes de Madison (1995), um verão como em O Segredo de Brokeback Mountain (2005) ou boa parte da vida como em O Curioso Caso de Benjamin Button (2008). Começar é fácil. Flerte, beijo, sexo, amor. E acabar? Pode ser a fuga de um, a briga de ambos, um matar o outro ou os dois se matarem. Mil casos infinitos de amor se espalham pelas tramas da cinematografia mundial. Mas finalmente o cinema brasileiro ganhou um longa a altura de toda uma geração que assistia Chaves e Cavaleiro dos Zodíacos, enquanto sonhava com o garoto mais bonito da sala ouvindo Back Street Boys ou tentava conquistar a menina dos sonhos usando camiseta de time de basquete norte-americano e blusa de flanela amarrada na cintura. Sim, pois a geração anos 90 também ama… e também termina seus amores. Falo de Apenas o Fim (2008) do ainda estudante de cinema na PUC/RJ Matheus Souza. Rifando uma garrafa de whisky e com boa vontade da galera do seu curso ele fez valer seu mais belo roteiro “woody-alleano”. A trama é simplória. Casal de 20 e poucos tem a sua última e derradeira conversa, meio lavação de roupa suja, antes de cada um ir pro seu lado. O que engrandece tudo isso são os geniais diálogos que citam Omelete, Jovem Nerd, Pokemón, He-Man, Super Trunfo, Menthos, Coca-cola, Mc Donald’s, Transformers, Star Wars, Bozo, Vovó Mafalda e tudo mais que marcou a vida de muitos. É de gargalhar com as sacadas. E também de chorar, pois quem nunca teve que terminar e ir pro seu lado, seguir sua vida, seu rumo mesmo que sem rumo? É clichê falar de amor ou falar que falar de amor é clichê que é clichê? Confusão nerdiana que nada. Apenas o fim, do que ficou pra trás e apesar de toda a mágoa será carregado no peito, pra sempre, melancolicamente, com muito amor.





















