Se você procura uma diversão fácil para levar as crianças no fim-de-semana, aí vai uma dica em terceira dimensão: Os Mosconautas no Mundo da Lua – 3D (2008). Mas é bom avisar das restrições do filme, ou melhor, as parcas limitações de um roteiro que passou longe a criatividade em prol dos efeitos especiais, como nos conta Rodrigo Carreiro do Cine Repórter. “Talvez por conta do desafio tecnológico, o diretor responsável, Ben Stassien deixou meio de lado aspectos estritamente cinematográficos do projeto, de forma que o filme tem narrativa frágil e qualidade de animação computadorizada bastante sofrível.” Além disso temos uma história bem americanoide, com os russos como inimigos, como afirma o G1:“De tempos em tempos, Hollywood precisa lembrar as novas gerações que, entre outras coisas, os soviéticos são maus e os norte-americanos foram os primeiros a pisar na Lua. Não fosse essa patriotada fora de hora, Os Mosconautas no Mundo da Lua não seria de todo ruim.” E, finalmente, quem arrasa em uma crítica contundente ao filme é Marcelo Hessel do Omelete, nos destrinchando as obviedades do roteiro. “Temos a jovem e corajosa mosca idealista, com amigos disfuncionais (a mosca nerd e a mosca obesa), um avô que já teve seus dias de aventura e uma mãe zelosa em excesso. O antropomorfismo é outra norma do gênero que poucos ousam discutir, e a vocação de Os Mosconautas definitivamente não é inovar. Aliás, pelo contrário: Stassen está tão preocupado em não incomodar ninguém que coloca até o astronauta Buzz Aldrin no fim do filme, em live-action, para dizer que nada daquilo que foi narrado (moscas à bordo da Apollo XI) aconteceu de verdade, pois as medidas de segurança da NASA não permitiriam. Ou seja, a criança vai ao cinema, se encanta com o 3D, e no fim do filme vem uma pessoa de carne e osso dizer que tudo aquilo era mentira… Com pensamento estreito assim não há tecnologia que ajude.” Portanto, se optar pelas mosquinhas para alegrar o fim de semana faça-o na opção 3D, pois se o amadorismo já está presente de forma explícita nesse, imagine em 2 dimensões…
Comprando um presente para uma amiga no fim de semana passado ganhei 3 ingressos para conferir a versão normal (não a 3D, infelizmente…) de Os Mosconautas no Mundo da Lua (2008). Como estava devendo para minha priminha de 10 anos uma ida ao cinema a convidei e ainda disse que ela poderia levar uma amiguinha. Ela ficou meio relutante, dizendo que preferia ver High School Music 3 – O Ano da Formatura (2008), mas aceitou o convite. De qualquer forma tive que comprar para ela o kit pipoca do High School que vinha com um porta-MP4 do Zac Efron. Essas coisas me lembram de como nessa idade eu também era bobinha e gostava de comédias românticas e Back Street Boys. Ainda bem que o tempo passa e a gente cresce! Pois bem, a sala estava tranqüila e já sei que é normal crianças conversarem durante o filme e garanto que as duas meninas fizeram a maior bagunça na sala. Ao final as duas pimpolhas tinham adorado, achado super fofas as mosquinhas, etc e tal. E eu? Estava completamente entediada com a obviedade e precariedade da história e da tecnologia envolvida. Provavelmente a versão 3D teria sido menos pior porque em vários trechos do filme dava para perceber claramente que certas cenas só funcionariam na terceira dimensão, e eram a maioria delas . Sinceramente graças a Deus temos a Pixar para nos banquetear com animações digitais de altíssima qualidade. Ao ver Os Mosconautas fiquei com vontade de rever Wall-E (2008) isso sim animação de verdade com uma história super profunda e Apolo 13 (1995) que mostra que, sim, os americanos falharam em uma das idas á Lua.
O que você faria com dinheiro sobrando a mais no bolso (de preferência na casa dos 6 zeros) se o tédio dominasse a sua rotina já tomada pela mais extrema futilidade? Passearia de lancha em Búzios, compras em Miami, jantar em Paris?! Bem temos ainda opções mais ‘quentes’, pois se um famoso jogador sem saber mais o que fazer com tanta grana decide contratar algumas ‘garotas aditivadas’, os personagens de La Dolce Vita (1960) decidem encarar uma opção mais careta, como um pequeno bacanal regado a destilados. Mas não é só este aspecto da vida banal e fácil do qual o filme do brilhante diretor italiano Federico Fellini trata. Temos até a questão das Celebridades, Caras, Quens, Contigos e Bundas… E para você perceber como o tratamento dado a esse mundinho marcou a história do cinema, temos o personagem Paparazzo, fotógrafo interpretado por Walter Santesso, que trabalha com Marcello Rubini (Marcello Mastroianni) um repórter que entrevista famosos, vivendo de ‘chupinhar’ a riqueza e luxos alheios. Temos aí a origem crua do termo que descreve os fotógrafos perseguidores de celebridades, denominados ‘paparazzi’. Num meio tão superficial e vazio, como encarar os sentimentos que desprendem dessa vida de marionetes? É o que o personagem de Mastroianni acaba se deparando quando pensa que se apaixona pela estrela hollywoodina Sylvia Rank (Anita Ekberg). Esse platonismo acaba não passando de um passeio de carro, um gatinho querendo leite, uma fonte e um quase beijo … Aliás o mais famoso quase beijo da história do cinema, como você pode conferir no post da Crítica (colocar o link pro post) referente a este longa. La Dolce Vita (1960) acaba sendo um pouco assim, fragmentado e disperso, é o filme perfeito para se apreciar despretensiosamente, mesmo se tratando de um clássico.
“Provavelmente, não há nada que cause mais desânimo em uma pessoa do que o vazio emocional, intelectual e, até mesmo, espiritual provocado pelo cotidiano da mesma. Por este motivo nos apegamos às mais variadas formas de preencher tal ‘vazio’ a fim de encontrarmos um propósito para seguir com nossas vidas adiante. Mas será que conseguimos preencher tal vazio da maneira correta? Será que o fazemos de modo satisfatório, ou seja, de um modo onde este ‘buraco’ realmente seja preenchido a ponto de não causar mais constantes insatisfações pessoais? Foi baseado nestes questionamentos que Federico Fellini realizou La Dolce Vita (1960)” É o que afirma Daniel Esteves de Barros do Cine-phylum, nos introduzindo de forma contundente toda a profundidade psicológica que Fellini buscava explorar em suas obras. Noites de Cabíria (1957), 8½ (1963) ou Amarcord (1973) são apenas amostras de como o diretor travava da (des)humanidade de suas personas, ou dos italianos, como nos diz Luis Pires do Cranik: “Retratando a amada Itália através de suas ruelas e monumentos, Fellini trouxe à tela uma infinidade de personagens extravagantes, artistas exóticos, lindas mulheres e figuras caricatas que acabaram por caracterizar suas obras. O diretor também sabia como ninguém explorar toda a potencialidade do preto e branco, deixando boquiabertos aqueles que apreciam uma boa fotografia -- no filme, a cargo de Otello Martelli, costumeiro parceiro de Fellini.” Quanto a La Dolce Vita, é inegável seu poder em representar arquétipos de uma parcela decadente da sociedade ocidental, além de contribuir com cenas míticas para a história do cinema, como nos Rodrigo Carreiro – Cine Repórter: “La Dolce Vita gerou algumas das imagens mais poderosas e icônicas do cinema europeu, a principal delas sendo o célebre banho de madrugada da deusa sueca Anita Ekberg, junto com o charmoso Marcello Mastroianni, na famosa Fontana di Trevi. Muita gente que nunca viu o longa de Fellini reconhece o filme por causa desta cena. Ela é tão famosa que transcendeu o cinema. Em 19 de dezembro de 1996, dia em que Mastroianni faleceu, centenas de fãs foram espontaneamente até Trevi, sem que ninguém pedisse, para depositar rosas na fonte, como forma de homenagear a memória do ator.” Ficamos aqui com a famosa cena. Arrivederci!
A cineasta espanhola Isabel Coixet já havia ganhado notoriedade com Minha Vida Sem Mim (2003) e A Vida Secreta das Palavras (2005) quando este ano encarou a responsabilidade de adaptar ao cinema o livro O Animal Agonizante de Philip Roth, que na tela grande se tornou Fatal (2008). Um fato interessante quanto estava fazendo o post da Crítica referente a esse filme foi a discordância entre críticos do sexo masculino e feminino. Elas apreciaram toda a poesia e delicadeza que Coixet transmitiu ao filme, enquanto eles reclamaram que a diretora não respeitou a visão crua e pornográfica do livro. Sendo assim, já fui assistir ao filme com essa contradição em mente. Mas devo enfatizar que isso é a última coisa que recomendo a quem vai apreciar um filme, sendo crítico, cinéfilo ou leigo: Não fique com as críticas na cabeça e se puder evitá-las antes de assistir ao longa melhor. Mas, infelizmente, com tantas opções em cartaz, não há como escapar de se ater a opiniões especializadas para ver se vale a pena ou não gastar tempo e dinheiro com determinada obra… Tudo bem, voltando à Fatal, não posso negar que gostei bastante do filme me deixando com vontade de ler o livro só para entender melhor o universo explicitado. Destaco como ponto forte do filme a direção de atores de forma excepcional. Realmente a cineasta conseguiu como ninguém extrair pérolas tanto dos protagonistas quanto de seus coadjuvantes. Ben Kingsley (A Lista de Schindler -- 1993) transmite uma crise de velhice sufocante, conseguindo transparecer com um olhar todo o ardente desejo que sente pela personagem de Penélope Cruz (Abre los Ojos -- 1997) que mais uma vez está deslumbrante e avassaladora. Dennis Hopper (Veludo Azul – 1986), que já estava devendo há tempos uma interpretação satisfatória, traz um (des)equilíbrio ao personagem de Kingsley como o típico amigo que dá conselhes contraditórios a sua própria personalidade. E a sempre eficiente Patricia Clarkson (Dogville – 2003) também contribui com uma interpretação forte, nos ajudando a demarcar os altos de baixos dos sentimentos de Independência X Solidão do protagonista. Encerro com uma amostra da obra humana e delicada de Isabel Coixet, com o curta Bastille que faz parte da obra Paris, Eu Te Amo (2006). Uma amostra de que nunca devemos achar que alguém está em poder de nossas mãos, pois todas as almas são como areia, que escapam pelo dedos da hipocrisia e são levados pelos ventos da vida.
A década de 90 foi pontuada de diversos acontecimentos históricos que marcaram a minha infância. Não que eu compreendesse por completo tudo que estava acontecendo, mas como eu ficava ligada na TV quase 24 horas por dia, nada passava batido. Movimento dos Caras – Pintadas em 1992, morte de Ayrton Senna naquele triste domingo de 1994 e a posse de Nelson Mandela como primeiro presidente negro pós-apartheid. E esse último acontecimento era o que eu menos compreendia. Estava acostumada com o Brasil como o país das misturas, com negros, brancos, mulatos, japoneses, índios… Era difícil para uma criança de 10 anos como eu entender o contexto doentio de 2 raças não se misturarem na mesma escola, hospital, ônibus e até na mesma piscina! Na verdade acho que não compreendo essa patologia do preconceito até hoje. Afinal quando nos damos as mãos e olhamos sua sombra, a sombra tem a mesma cor. Se a sombra de nós mesmos não faz distinção, porque nossa alma faria? E foi com essa curiosa expectativa que fui assistir Mandela -- Luta Pela Liberdade (2007), de que eu entendesse um pouco mais desse contexto de intolerância. Ao fim da sessão não me dei por satisfeita, pois o ponto de vista do filme é do carcereiro que vigia de perto Mandela mas que também alimenta uma admiração e respeito por ele. Para mim era fácil entender essa posição porque é a que eu pratico. Minha curiosidade vai além disso, pois faltou escancarar o oposto, de como um colonizador invade uma terra que não é a dele a aprisiona o povo fruto dessa mesma terra? Bem, talvez eu esteja perguntando de mais ao ponto de esquecer que está reflexão não cabe só no histórico da África, mas da minha América também. Para encerrar vale conferir o link (em inglês) da chamada Carta da Liberdade, um documento a ser lido, refletido e comentado …
* Iinkululeko: Liberdade em Xhosa (dialeto dos amaXhosa, grupo étnico da África do Sudoeste), segunda língua mais falada na África do Sul.
Philip Roth, escritor norte-americanos, está em cartaz em uma adaptação para o cinema de sua novela O Animal Agonizante, agora com o título de Fatal (2008) estrelada por Penélope Cruz (Volver – 2006) e Bem Kingsley (Casa de Areia e Névoa – 2003). Para Paloma Ornelas do LasKakumbuka o ponto forte do filme é seu tratamento sobre como nós lidamos com relógios e calendários: “A questão do tempo é muito marcante no filme, fala-se na diferença de idade entre professor e aluna, depois entre professor e amante que outrora também fora sua aluna, entre amigos que comentam a beleza das mulheres mais jovens, entre pai e filho. (…)Fatal é narcisista, usa o pano de fundo das obras de arte a fim de evocar a beleza misteriosa da jovialidade eternizada nos quadros, é um filme que usa o tempo como um antagonista cruel e imbatível. Soa triste, como seu título Elegy (no original, em inglês) ou elegia em português, poema de tom triste, um lamento.” Alguns críticos, como Angélica Bito do Yahoo! Brasil Cinema, elogiam a condução da diretora espanhola Isabel Coixet neste longa. “A cineasta sabe o que faz quando se trata de filmar histórias melancólicas, como Minha Vida Sem Mim (2003) e A Vida Secreta das Palavras (2005). Mas, diferentemente desses dois filmes, em Fatal ela deixa de analisar perfis femininos para se concentrar num homem, personagem vivido por Ben Kingsley em interpretação memorável. (…) Por mais que Isabel Coixet aborde outros tipos de melancolias em seu novo trabalho, a cineasta ainda é capaz de emocionar pela tristeza das histórias que conta. Desta forma, é necessária certa preparação de espírito para assistir a Fatal; afinal, trata-se de um longa melancólico e triste, que aborda a questão da perda: da juventude, do amor ou mesmo da autoconfiança.” Já outros críticos, como Érico Borgo do Omelete, não acham que a diretora deu o devido tratamento à obra. “Coixet entrega um filme calculado para amenizar o choque, romantizá-lo. Apesar de apreciar o olhar estético da cineasta, com sua luz acolhedora e composição cuidadosa, ela me parece a escolha errada para o tom da obra original. O Animal Agonizante exigia visceralidade e alguém que se relacionasse com Kepesh -- ou que fosse mais contestador e corajoso.” De qualquer forma é interessante notar essa contestação nas duas críticas com elogios à sensibilidade contratando com o sentimento de que faltou algo mais pesado. Normal na leitura de um livro em que cada um faz em sua mente um pequeno longa imaginativo…
Adaptações biográficas são uma via de duas mãos na cinematografia. Ou temos uma visão nua e crua e arrebatadora do biografado, caso de Val Kilmer incorporando Jim Morrison em The Doors (1991) ou Marion Cotillard reencarnando Edith Piaf em Piaf -- Um Hino ao Amor (2007), ou um endeusamento com as faces obscuras ocultadas, como me transpareceu em Coração Valente (1994) ou Olga (2004). Para a Internacional Business Time o segundo caso ocorreu no recente Mandela -- Luta Pela Liberdade (2007): “Pode-se dizer que há endeusamento excessivo do advogado Nelson Mandela, ex-chefe de uma organização rebelde ao governo que, na década de 1990, se transformou no primeiro presidente eleito pela África do Sul unida. Mas, se há exagero, isso ocorre principalmente porque o filme é narrado sob a perspectiva de um fã de Mandela.” Celso Sabadin do CineClick ainda culpa o cineasta Bille August pelo resultado indesejado: “O diretor dinamarquês Bille August já foi um dos mais cultuados pela mídia especializada e pelos festivais internacionais, graças aos seus filmes Pelle, o Conqusitador (1987) e Jerusalém (1996). Perdeu depois um pouco de crédito com as adaptações literárias A Casa dos Espíritos (1993) e Os Miseráveis (1998). Agora, chega ao circuito brasileiro Mandela -- Luta Pela Liberdade , que August realizou no ano passado. Esperava-se mais. Afinal, Nelson Mandela, uma das personalidades políticas mais marcantes do século 20, deveria (ou poderia) render um filme igualmente fascinante. Não rendeu.” Um dos poucos críticos a defender o longa foi Luiz Zanin em seu blog no Estadão: “O filme, sóbrio, e um tanto quadrado segundo a concepção habitual de August, tem esse preocupação -- a de registrar a grandeza de Mandela, sua dignidade fundamental, a força tranqüila que dele emana. O ator Dennis Haybert (da série 24 Horas), bastante contido, consegue transmitir essa sensação de segurança. Os atores são bem dirigidos, diga-se. O filme também acerta ao mostrar como as conquistas não caem do céu e, no caso, foram obtidas pelo enfrentamento. A negociação só aconteceu quando havia uma posição de força consolidada. É uma história de luta, emocionante e adulta, que bem dispensaria algumas concessões melodramáticas. Mas elas não estragam o filme.” Pelo visto compensa esperar pelo Che de Steven Soderbergh para sabermos como se faz política de forma ‘pacífica’…
Mas porque raios o ser humano gosta tanto de listas dos 10, 100, 1000 ‘mais-alguma-coisa’?! Muito além da obsessão de Rob Gordon, personagem de John Cusak em Alta Fidelidade (2000), os críticos adoram rankear os ‘melhores filmes de todos os tempos’ em infindáveis listas encabeçadas ora por Cidadão Kane (1941) de Orson Welles, ou O Poderoso Chefão (1972) de Francis Ford Coppola. Neste ano a Revista Bravo! lançou uma edição especial com 100 Filmes Essenciais e minha percepção feminina não deixou escapar um triste fato regado a um preconceito arcaico da sétima arte. O Cinema é uma manifestação artística ainda predominantemente machista, pois dos tais 100 filmes da lista apenas um único título era dirigido por uma mulher! E lá estava, na 93º posição, O Pântano (2001) da cineasta argentina Lucrecia Martel, merecidamente destacado como o Clássico em DVD dessa semana. Com uma carreira ainda modesta composta por apenas 3 longas – além de O Pântano temos A Menina Santa (2004) e A Mulher Sem Cabeça (2008) – Martel já figura como diretora de destaque, tendo sido apadrinhada por nada mais nada menos que Pedro Almodóvar após o sucesso crítico de seu longa de estréia. Neste ano a cineasta argentina foi uma das convidadas ‘mais que especiais’ da FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), sendo muito assediada pela imprensa brasileira em diversas entrevistas. Numa delas concedida à Revista O Grito! Lucrecia renega toda e qualquer classificação dada a seus filmes ou à possíveis interpretações simbólicas feitas pela crítica, afirmando categoricamente: “Não há metáforas em meus filmes. As pessoas têm mania de procurar símbolos em tudo”. O fato é que não há como ficar imune aos filmes de Martel, especialmente O Pântano, onde todos os personagens estão reclusos numa evidente decadência moral e existencial. Tudo é muito úmido, apertado e sufocante. A trilha sonora é pontuada de barulhos incômodos como cadeiras se arrastando, crianças berrando, o telefone que ninguém nunca atende, a televisão eternamente ligada e o gelo tilintando nos copos. Os personagens se tocam o tempo todo e mesmo assim há uma clara repressão incestuosa no ar. Poderíamos dizer que tudo isso é uma metáfora da burguesia argentina, especialmente os da província de Ciénega, título original do filme e onde a cineasta nasceu. Mas respeitando a observação da cineasta, cabe admirar a obra despida de preconceitos, sejam eles machistas ou não.
Depois de ser devastada por diversas crises econômicas e políticas durante os governos Menen e Kirshner, a Argentina aparenta passar por águas mais tranqüilas, tanto no campo econômico quanto no da produção artística. E dentro da sétima arte surgiu uma nova geração de jovens diretores recém-formados pela FUC – Universidad Del Cine e que conseguiram produzir seus filmes graças às leis de incentivo oriundas do Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA). Da produção cinematográfica oriunda dessa turma cunhou-se o termo Novo Cinema Argentino, que apresenta uma temática comum de alienação e decadência da sociedade argentina, seja em sua moral ou no campo familiar e afetivo. Ângela Prysthon em artigo da Revista O Grito! destaca a cineasta Lucrécia Martel e seu filme O Pântano (2001) como emblemático para esta nova geração. “O bastante discutido e analisado O Pântano de Lucrecia Martel apresenta a partir de um registro que poderíamos chamar de ‘estética do sedentarismo’ ou ‘poética da decomposição’ uma visão devastadora do cotidiano e das relações entre classes, gêneros e gerações na Argentina de hoje. Martel talvez seja a representante mais destacada do Novo Cinema Argentino, tanto por O Pântano como por A menina santa (2004) e agora com A Mulher Sem Cabeça (2008), justamente por demarcar de maneira muito peculiar um outro espaço de representação naturalista para o cinema contemporâneo.” Cléber Eduardo da Revista ContraCampo faz um apanhado do ambiente húmido e sufocante no qual o primeiro longa da cineasta está inserido. “Seu mundo é micro (e enorme em abrangência). A diretora está mais interessada nos climas íntimos e dicotômicos de relações familiares específicas, cheias de pulsão de vida e de sinais de decrepitude -- que pode até ser vista como reflexo de classe (a média) e da situação de um país (a Argentina), mas não propõe essa relação direta pela qual sua linguagem naturalista pediria uma leitura alegórica. Seu filme concentra-se em uma casa, e ela se faz notar, por extensão, mesmo nas cenas exteriores. Um mundo cabe entre quatro paredes e isso o vacina contra generalizações, ao contrário das visões panorâmicas por superfícies sociais. O Pântano não busca diagnósticos, menos ainda soluções. Os sentidos propostos são rarefeitos e nebulosos, pantanosos até, e concentram-se apenas nas próprias situações, na matéria (corpos, paisagens). Sem, porém, partir delas para se chegar a algo para além delas; vendo-as tanto como parte do contexto como renovadas por associações elípticas com ele, de acordo com as arbitrárias exigências da subjetividade, não pelo suposto ‘objetivismo’ da sociológica relação de causa e efeito. A significação está na própria imagem e não na leitura da imagem, significações variadas dentro da polifonia de vozes e situações, na qual cada um tem sua verdade e sua razão, sem se extrair disso uma conclusão sintética.” Como análise final, mas de forma alguma conclusiva, pois a extensa temática e os típicos finais em aberto da cineasta nos deixam aptos a refletir dias depois, cabe citar Hugo Viana em seu blog Movie Sketch. “O que sobressai na análise do filme de Martel é uma construção familiar onde a crueza das relações humanas é tão franca, tão sincera, que pode incomodar. Isso talvez aconteça porque a diretora prioriza uma representação íntima, revelando os momentos privados de pessoas que se aglutinam numa casinha. Imagine tudo que você faz ou sente na segurança de sua residência, e talvez tenha uma noção mais precisa do tipo de imagens que Lucrecia capta. Os desejos de cada um dos familiares não são escancarados, mas muito sutis. Não emergem das entrelinhas. Não ultrapassam barreiras invisíveis que enclausuram suas vontades. A diretora consegue enfatizar, através de olhares perdidos, frases cortadas e linguagem corporal intensa, o sentimento oculto de personagens complexos.”





















