Quão objetiva pode ser a lei? Em que casos e/ou circunstâncias aquilo que encontra-se redigido em forma textual pode, ou não, penalizar as pessoas que descumprirem à sua regra? A primo, Polícia, Adjetivo dá a entender que fará uma abordagem excessivamente complexa e alicerçada dessa e de muitas outras questões relacionadas ao tema.
Lastivelmente, o filme romeno pára na boa intenção e caminha para um roteiro chato, uma edição que em momento algum se propõe a eliminar certas gordurinhas de sua projeção e uma direção desnecessariamente burocrática de Corneliu Porumboiu. Logo, torna-se usual vermos o protagonista Crist percorrer longos e entediantes caminhos a fim de obter êxito em uma perseguição a um garoto viciado em haxixe (e sim, sei muito bem que o leitor imagina que uma perseguição policial, na vida real, está longe de seguir os moldes hollywoodianos, não?).
É fato que isso tudo é feito propositadamente, pois o filme apetece nos mostrar o quão monótono, sorumbático e enfadonho são os afazeres profissionais de seu personagem principal que, assim como todo o funcionário público (e eu, mais do que ninguém, posso afirmar isso), desempenha uma função ciclicamente uniforme, convive com péssimas condições de trabalho (a fotografia e a direção de arte dão um tom especial a isso, retratando o quão decadente é a sede onde Crist exerce as suas funções como policial), carece da “boa vontade” (atentem-se às aspas) de terceiros para cumprir as suas tarefas e conta com pouco, ou nenhum, reconhecimento da sociedade e de seus superiores hierárquicos, mas o bem da verdade é que, para relatar tais situações, Porumboiu poderia simplesmente ilustrar o tédio do jovem defensor da lei através de um certo número de closes direcionados ao semblante desanimado deste e não dedicar-se, durante boa parte da projeção, a realizar inúmeros planos abertos que não aparentam mais ter fim.
O ritmo deveras lento, todavia, é facilmente quebrado quando entram em cena situações inquestionavelmente hilárias, como a que o protagonista discute com a esposa o real significado de uma música (bastante brega, por sinal) ou argumenta com esta sobre a (falta de) necessidade de se adotar certas reformas ortográficas impostas pela Academia Romena de Letras.
E é óbvio que, dentre as cenas hilárias do filme, não poderia deixar de citar a principal, ocorrida no gabinete do chefe de Crist onde, em uma reunião a três, temas extremamente importantes como lei, consciência e, como não poderia deixar de ser: o título da produção, são discutidos com criatividade, originalidade e inteligência estupendas, nos permitindo levantar questionamentos de um modo tão magistral que raramente temos o privilégio de poder os conferir na sétima arte em um mesmo nível.
Lento e longo, mas eficientemente introspectivo e maravilhosamente subjetivo, este é Polícia, Adjetivo.
Publicado por: Daniel Esteves de Barros -- www.cinephylum.com.br





















