(500) Dias com Ela tinha tudo para ser uma comédia romântica insuportavelmente convencional, mas felizmente tomou algumas sábias decisões e driblou, na maior parte de sua projeção (e que isso fique bem claro: na maior parte, e não durante o filme todo), a mesmice imposta por Hollywood, principalmente em produções deste gênero.
Começamos de um modo bastante incomum. No canto esquerdo inferior da tela aparece uma nota dos autores da obra informando que o trabalho a seguir é apenas uma ficção e quaisquer semelhanças com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Até aí, normal, não? Pois é, salvo pelo: pessoas mortas, não há nada de incomum aqui. É o que vem a seguir, no entanto, que realmente chama a atenção do público: especialmente com você, Jenny Backman, vadia!.
A reflexão que nos vem à mente então é a de que teremos pela frente uma comédia romântica com um humor ácido e sincero, algo pouco típico entre as produções do gênero. E a narrativa em off que nos apresenta aos personagens só vem a confirmar isso e é digno de palmas que, em tão poucos minutos, possamos captar tantos detalhes oriundos de seus protagonistas como podemos captar aqui.
Tom (Joseph Gordon-Levith, impecável no papel) é um romântico incurável e, segundo a impagável narração hilária, isso se deve ao errôneo entendimento que ele teve quanto ao final do clássico de Mike Nichols, A Primeira Noite de um Homem (assim como boa parte das pessoas que assistem ao longa estrelado por Dustin Hoffman, ele vê amor, liberdade e felicidade nos olhos dos protagonistas, enquanto estes, na verdade, denotam uma visível insegurança pelo futuro incerto que está por vir). Summer (Zooey Deschanel, como sempre linda e? bem? aceitável no papel) já é uma garota que, depois da separação dos pais, passou a desacreditar no amor ainda muito jovem e só viria a nutrir tal sentimento por duas coisas: pelo cabelo negro e longo e pela facilidade que tinha em cortá-los sem deixar quaisquer resquícios de sentimentos quanto ao ato. Como assim? Simples, Summer é dessas personagens que ama, mas ao mesmo tempo se desapega fácil e voluntariamente de tudo aquilo que realmente ama.
O roteiro avança um pouco. Deixa claro que, apesar de tratar de uma estória onde o mocinho conhece a garota de seus sonhos e ambos passam a ter um relacionamento, não é realmente uma trama de amor. Oras, se uma comédia romântica não irá tratar sobre o amor, qual será o seu foco então? As piadas em cima do casal? Bem, é justamente aí que está o problema. Apesar de contar com um humor que funciona muitas vezes, a maior parte de suas piadas não só não acrescentam nada de novo ao gênero como também inserem situações artificiais à produção (e as que envolvem uma conselheira mirim são as piores).
Por incrível que pareça, a força desta comédia romântica reside mesmo é no amor atípico (e sim, contrariando a narrativa acima citada, o filme conta sim uma estória de amor, ainda que seja um amor bem diferente do usual) entre Tom e Summer (a propósito, daí vem a conveniente, embora bobinha, brincadeira com o título original (500) Days of Summer, que tem a tradução literal para (500) Dias de Verão). É através do relacionamento entre ambos que o roteiro tece uma cativante trama que se espelha nos relacionamentos amorosos contemporâneos, baseados no abstracionismo do ficar e rompendo os paradigmas do namorar.
Os protagonistas combinam muito entre si (apesar das diferenças teóricas sobre o amor). Summer, assim como Tom, segue o tipo que aprecia a arte alternativa. Para se ter uma idéia, ela despertou extremo interesse nele quando revelou adorar a banda de alternative rock inglesa The Smiths.
O rapaz, como era de se esperar, logo se apaixona. Várias outras referências cult vão ligando o casal. Belle & Sebastian, The Pixies e muitas outras bandas indie formam o excelente gosto musical da dupla, ao passo em que Ingmar Bergman e, é claro, Mike Nichols se encarregam de anunciar o refinamento cinematográfico de ambos.
À medida que o filme vai se desenvolvendo, vamos nos identificando cada vez mais com o relacionamento deles. O ápice do roteiro, todavia, parece residir mesmo quando o previsível (já que o filme faz questão de nos informar logo nos minutos iniciais que o casal irá romper) término do romance acontece. Sem passar por sentimentalismos piegas ou exagerados, acompanhamos a tristeza e a dor que Tom passa a ter em face da rejeição. É aí que (500) Dias com Ela mostra, de fato, o motivo de tanto alvoroço por parte de uma média, embora fiel, legião de fãs que atraiu para si, afinal de contas, quem nunca passou pela situação a qual o protagonista está passando? Quem nunca chegou a se identificar com ele e, até mesmo, com ela?
Longe de ser uma comédia-romântica original (apesar que eu não a encararia como clichê, mesmo contando com um argumento batido) e não desenvolvendo tão bem o humor que havia prometido desenvolver em seu prólogo, (500) Dias com Ela deposita suas forças no casal de protagonistas que contam com características bastante incomuns, sobretudo para os filmes deste tão revisado gênero cinematográfico.
Publicado por: Daniel Esteves de Barros -- http://www.cinephylum.com.br






















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Eu adorei esse filme ! Me identifiquei muito com o Tom Hansen, a ainda me faltam palavras para descrever esse filme . . .
Nota 10/10